A MORTE DE IVAN ILITCH
TOLSTOI
AMORTE DE IVAN ILITCH
SENHORES E SERVOS
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Traduo:
Marques Rebelo
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14/12/1973.
 proibida a reproduo total ou parcial, por quaisquer meios,
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autorizao prvia, por escrito, da editora.
ttulo do original
Smie?l Ivana Ilbitcha
       
No palcio da justia, que era um grande edifcio, du-rante
uma pausa no julgamento do processo movido contra a famlia
Melvinski, os juizes e o promotor se reuniram no gabinete de
Ivan Iegrovitch Chebek e a conversao recaiu sobre a 
famosa questo Krassov. Fidor Vasslievitch sustentava
calorosamente a incompetncia do tribunal, Ivan Iegrovitch
mantinha ponto de vista contrrio e Piotr lv novitch, que
fugira  discusso, passava ligeiramente os olhos pelas
pginas do jornal que acabavam de lhe trazer. De repente,
disse:
* Meus senhores, morreu Ivan Ilitch!
* Como assim?
* Aqui est. Pode ler - respondeu, e p"s nas mos de Fidor
Vasslievitch o jornal, que cheirava a tinta fresca.
Cercado por uma tarja, publicava-se o seguinte anncio:
"Praskvia Fidorovna Golovina tem o profundo pesar de
comunicar, a seus parentes e amigos, o falecimento do seu
queri-do esposo, o juiz Ivan Ilitch Golovin, ocorrido a 4 de
fevereiro de 1882. O fretro sair sexta-feira,  uma hora da
tarde".
Ivan Ilitch era colega dos cavalheiros ali presentes e muito
estimado por todos. H vrias semanas encontrava-se enfermo e
era voz corrente que no se restabeleceria. No fora
substitudo, mas cogitava-se que a sua vaga pudesse ser
preenchida por Alieksiiev, e para o lugar deste fosse Vinikov
ou Stabel. Assim sendo, ao tomarem conhecimento da morte do
colega, o que primeiramente ocorreu a cada um foi a
possibilidade prpria ou dos amigos nas promoes e
transferncia que ela iria provocar.
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       "Seguramente ocuparei o lugar de Stabel ou Vinikov",
pensou Fidor vasslievitch. "H  um bocado de tempo que me
foi prometido, e a promoo representa um aumento de
oitocentos rublos anuais, sem contar as custas."
"Tenho que aproveitar a ocasio e conseguir a transfrncia do
meu cunhado de Kaluga para aqui", disse Piotr lv novitch de si
para si. "Minha mulher ficar radiante. E no podero mais me
acusar de nada ter feito pelos parentes dela."
E, em voz alta, falou:
* Bem desconfiava eu que ele no se levantaria mais.
 uma pena.
* Mas, afinal, o que  que ele teve?
* Os mdicos no souberam diagnosticar. Melhor dito, cada um
diagnosticou uma coisa. A ltima vez que eu o vi, deu-me a
impresso de que estava melhor.
* Desde as festas que no ia  sua casa. Estava sempre
pensando em visit-lo.
* Ele tinha dinheiro?
* Acho que a mulher tem uns cobres. Mas no  nada para encher
os olhos.
* Sim, teremos que ir l. Mas eles moram longe como o diabo!
* Longe da sua casa,  o que pretende dizer. Mas tudo fica
longe da sua casa.
* Eis aqui um que no me perdoa por morar na outra margem
dorio - disse Piotr lv novitch sorrindo para Chebek.
E os dois, comentando as distncias que separavam as vrias
zonas da cidade, voltaram  sala de sesses.
Alm das consideraes sobre as provveis promoes e
transferncias que a morte de Ivan Ilitch acarretaria, a
pr-pria morte de pessoa to prxima deles despertou, como de
costume, em cada um dos membros do tribunal a tranquilizadora
sensao de que escapara.
"Ora, bem! Ele inorreu e eu estou vivo!", pensou ou sentiu
cada qual. Quanto aos amigos mais chegados de Ivan Ilitch, os
chamados ntimos, unnime e involuntariamente consideravam os
aborrecidos deveres a cumprir - acompanhar o enterro e fazer
unia visita de psarnes  viva.
1~
Os mais ligados a ele eram Fidor Vasslievitch e Piotr Iv
novitch. Piotr lvnovitch fora seu colega na faculdade de
direito e acreditava que tinha certas obrigaes para com o
finado.
Tendo, no correr do jantar, informado  mulher o fale-cimento
de Ivan Ilitch e ainda tecido algumas consideraes sobre a
possibilidade que se abria de o irmo dela ser transferido,
Piotr Iv riovitch sacrificou a habitual sesta e,
adequa-damente trajado, bateu para a residncia do morto.
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       Defronte ao prdio estavam parados uma carruagem
particular e dois fiacres. Na saleta de entrada, encostada 
pa-rede, junto do cabide, achava-se a tampa do caixo, forrada
de gorgoro e com guarnies e gales dourados. Duas se-nhoras
de luto tiravam seus casacos de pele. Uma, Piotr Iv novitch
conhecia - era irm do extinto; a outra, nunca vira mais
gorda. Schwarz, um colega de Piotr Iv novitch, des~ cia a
escada e, ao dar com o companheiro, pscou-lhe um olho, como
que dizendo: "O que Ivan Ilitch fez foi uma gran-de tolice.
Ns  que no camos nessa".
O rosto de Schwarz, ornado de suas  inglesa, e toda a sua
magra figura, em traje de circunstncia, expressavam a sua
peculiar e solene elegncia, e tal solenidade, contrastan-do
com seu gnio folgazo, tinha ali, mais do que nunca, um
pitoresco sabor. Assim, pelo menos, foi o que pareceu a Piotr
Iv novitch. E, tendo deixado as damas passarem na frente,
subiu vagarosamente a escada. Schwarz no descera; esperara-o
no patamar. Piotr lv novitch percebeu logo o que o retinha:
queria combinar um lugar onde pudessem, mais tarde, jogar uma
partidinha de uste. As senhoras enca-minharam-se para o
aposento da viva e Schwarz, com a boca compurigidamente
contrada, mas o olhar trocista, fez ao amigo um sinal com as
sobrancelhas, indicando,  direi-ta, o quarto do defunto.
Como acontece com toda gente em tais ocasies, Piotr IV
novitch entrou sem saber ao certo o que devia fazer. Mas uma
coisa no ignorava: um sinal-da-cruz  sempre oportu-no.
Ficou, porm, em dvida se deveria tambm se ajoelhar.
F, ento, ao transpor a porta, apelou para um discreto
meiotermo: persignou-se e inclinou ligeiramente a cabea. Ao
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       mesmo tempo, tanto quando o permitiam os movimentos da
cabea e do brao, deu uma vista-d'olhos no aposento.  Dois
rapazes, um dos quais estudante, provavelmente sobri-nhos do
falecido, deixavam o quarto, aps se persignarem.  Uma velha
permanecia imvel e uma senhora, de superclios bizarramente
espessos, cochichava-lhe algo. De sobrecasaca, um encorpado e
enrgico chantre lia qualquer coisa em voz alta e com a
expresso de quem no admitia a menor objeo. Na ponta dos
ps, o camareiro Guer ssim andava  volta do corpo de Ivan
Ilitch, polvilhando o cho com uma certa substncia, e, vendo
tais manejos, Piotr Iv novitch sentiu imediatamente um ligeiro
cheiro de cadver em decomposio. Quando da sua ltima visita
a Ivan Ilitch, Piotr lvnovitch vira aquele camareiro no
escritrio; desempenhava ento as funes de enfermeiro e o
doente demonstrava ter por ele uma especial estima.
Piotr Ivnovitch no cessava de fazer o sinal-da-cruz e de
inclinar ligeiramente a cabea, endereando suas piedosas
reverncias indistintamente ao caixo, ao chantre e aos cones
colocados sobre a mesa, num canto do quarto. De-pois, quando
achou que j se persignara suficientemente, parou de faz-lo e
entrou a examinar o defunto.
Como  prprio dos mortos, aquele estava pesada-mente
espichado, os endurecidos membros afundados no forro do
esquife, a cabea para sempre apoiada no traves-seiro e
mostrando a fronte de um amarelo de cera, as tm-poras midas
e cavadas e o nariz saliente, que parecia pesar sobre o lbio
superior. Mudara consideravelmente, emagre-cera ainda mais
depois da ltima visita de Piotr Iv novitch, mas, como 
prprio dos mortos, o seu rosto ficara mais belo e, sobretudo,
mais digno. No seu semblante lia-se que fora feito tudo quanto
se devia fazer, e com a mxima ccorreo. Alm disso, parecia
traduzir uma censura ou uma ad-vertncia aos que ficavam. E a
lembrana se afigurou incon-veniente a Piotr lv novitch, ou
pelo menos pareceu no lhe dizer respeito. Sentiu-se um pouco
constrangido e, mais uma vez fazendo um rpido sinal-da-cruz,
virou~se e se en-caminhou para a porta, com uma pressa que
fugia as regras da decncia, conforme ele mesmo considerou.
1 (
Schwarz aguardava-c, na sala contgua, as pernas abertas, as
mos atrs das costas, brincando com a cartola. Um
simples olhar para a figura prazenteira, limpa e elegante do
amigo refez Piotr lv novitch. Compreendeu, incontinenti,
que Schwarz pairava acima daquelas coisas e no se entregava a
impresses acabrunhantes. O simples aspecto dele
dizia que o incidente do funeral de Ivan Ilitch no teria
fora bastante para alterar a ordem dos acontecimentos, isto
,
nada o impediria de pegar o baralho, de noite, e embaralhar
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       as cartas, enquanto um criado colocava quatro velas
novas na mesa; em suma, no havia motivos para se supor que as
exquias iriam impedi-los de passar o sero agradavelmente,
como sempre o faziam. E foi, alis, o que ele sussurrou a
Piotr Iv novitch, convidando-o a participar duma partidinha em
casa de Fidor Vasslievitch.
Mas, segundo parece, o destino no traara para Piotr Iv
novitch, naquela noite, um jogo de cartas. Praskvia
Fidorovna, mulherzinha baixa e gorda, que engrossava da
cintura para baixo, apesar de todos os esforos em contrrio,
inteiramente de negro, a cabea coberta por um vu e as
sobrancelhas extraordinariamente espessas, como as da senhora
que se postava junto ao atade, saiu do seu quarto,
acompanhada de outras mulheres, dirigiu-se para o aposen~ to
do marido e disse a elas:
* Faam o favor de entrar. A cerimnia fnebre vai ser
iniciada.
Schwarz dobrou-se levemente, mas no saiu do lugar,
aparentemente sem aceitar ou recusar o convite. Reconhe-cendo
Piotr Iv novitch, a viva deu um suspiro, aproximou-se e,
pegando-lhe a mo, falou:
* Eu sei que o senhor era um grande amigo de Ivan
Ilitch - e, com os olhos postos no rosto dele, aguardou
qualquer coisa correspondente s suas palavras.
Assim como no ignorara a convenincia do sinal-da-cruz, Piotr
Ivnovitch sabia que, naquele instante, devia apertar a mo da
viva e dizer suspirosamente: "Creia-me que" Foi precisamente
o que fez. E sentiu que obtivera o resultado desejado - ambos
ficaram comovidos.
* Vamos, antes que comece a cerimnia. Preciso
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       muito falar com o senhor - disse a viva. - D-me o seu
brao.
Piotr Iv novitch ofereceu-lhe o brao e foram para o
interior da casa, passando por Schwarz, que lanou ao
amigo um olhar misto de compaixo e malcia, que assim
poderia ser traduzido: "L  se vai o nosso joguinho por
gua abaixo! No reclame se arranjarmos outro parceiro.  Se
conseguir se livrar a tempo, poderemos talvez formar uma mesa
de cinco"
Piotr Iv novitch suspirou ainda mais profunda e triste-mente,
e Praskvia Fidorovna apertou-lhe o brao com gratido.
Chegando  sala de visitas, forrada de cretone cor-de-rosa e
que um fraco abajur mal iluminava, sentaram-se  mesa, ela num
sof, ele num pufe baixinho, cujas gastas molas se arriaram
incomodamente com o seu peso.
Praskvia Fidorovna quisera avis-lo que numa cadeira ficaria
melhor, mas considerou que tais delicadezas no condiziam com
o seu estado e mudou de idia. Ao sentar-se,
Piotr lv novitch recordou-se de que o prprio Ivan Ilitch
cuidara da decorao da sala e at se aconselhara com ele a
propsito daquele cretone cor-de-rosa com folhagens verdes. Ao
passar rente  mesa para se instalar no sof , e a sala
era atulhada de mveis e quinquilharias, a mantilha da viva
prendeu-se na enfeitada borda da mesa. Piotr Iv novitch
soergueu-se para desprend-la e as molas do pufe, libertas
do seu peso, levantaram-se como a expuls-lo. Praskvia
Fidorovna providenciou ela mesma a sua libertao e ele
tornou a se sentar, dominando o mpeto das molas. Mas a
viva no conseguiu se livrar inteiramente, e Piotr
Iv novitch outra vez se levantou, favorecendo uma outra
rebelio do pufe, que, desta feita, emitiu um estalido. Quando
tudo, afinal, se normalizou, ela fez aparecer um alvssimo
leno de cambraia e caiu em pranto. Mas o episdio
da mantilha e a luta contra o puf esfriaram os sentimentos
de Piotr Ivnovitch, que ficou imvel e carrancudo. A
desagradvel situao foi desfeita por Sokolov, mordomo de
Ivan Ilitch, que vinha comunicar  patroa que o lote escolhido
por ela no cemitrio custaria duzentos rublos. Ela deu
uma trgua aos soluos e, encarando Piotr Iv novitch com
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olhos de vtima, disse em francs que era um preo dema-siado
forte para a sua bolsa. Ele, num gesto silencioso, deu a
entender a sua funda convico de que no podia ser de outra
maneira.
* Por favor, fume - disse ela em tom magnnimo, mas quebrado
por uma dose de sofrimento, E imediatamen-te ps-se a falar
com Sokolov sobre o preo do jazigo.
Piotr Iv novitch acendeu o cigarro e acompanhou o
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minucioso interrogatrio que ela fez, concernente ao preo dos
diferentes lotes no cemitrio, acabando por escolher aquele
que melhor lhe convinha. Resolvida a questo, deu ela as
instrues referentes aos cantores no funeral. E Sokolov
retirou-se.
* Eu providencio tudo sozinha - disse a Piotr lv novitch,
afastando para um lado os lbuns espalhados so-bre a mesa. E,
notando que a cinza ameaava sujar o tampo, empurrou sem
demora um cinzeiro para o fumante: - Acho que seria uma
verdadeira hipocrisia da minha parte furtar-me ao atendimento
das coisas pr ticas. Pelo contrrio, se alguma coisa pode, no
digo me consolar, mas me distrair, ser tomar a peito todas as
providncias relativas a ele.
Outra vez surgiu o leno e ela ensaiou chorar, mas, de sbito,
como se fizesse um extremo esforo para se domi-nar, comeou a
falar tranqilamente:
* Tenho um caso muito srio para tratar com o senhor.
Piotr lv novitch inclinou-se, procurando evitar que as
molas do pufe voltassem a desandar,
* Ele sofreu horrivelmente nos ltimos dias.
* Mas foi tanto assim?
* Oh, nem pode imaginar! Foi terrvel! Ficava gritan-do horas
a fio. Os trs ltimos dias, passou-os gritando sem parar um
minuto. Era insuport vel! No consigo compreen-der como
agentou tanto. Ouviam-se os seus gritos at nos fundos da
casa. Oh, que sofrimento foi o meu!
* Mas ser  que ele tinha conscincia de tudo?
* Sim. Plena conscincia at o fim - murmurou ela.
* Uns quinze minutos antes de morrer, despediu-se de ns e
pediu que lev ssemos Voldia dali.
A idia do sofrimento daquele homem que conhecera
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I
to de perto, primeiro na alegre meninice, depois como
companheiro de escola, mais tarde como colega de tribunal e
parceiro de jogo, horrorizou subitamente Piotr Iv novitch,
apesar da desagrad vel certeza do seu fingimento e do da-quela
mulher. Tornou a ver aquela fronte, aquele nariz que parecia
pesar sobre o l bio superior, e sentiu medo.
"Trs dias de horrveis sofrimentos e depois a morte!  coisa
que pode acontecer a mim tambm, a qualquer mo-mento", pensou,
e se encheu de terror. Mas logo, e sem mesmo saber como,
retornou-lhe o habitual discernimento:
"Aquilo acontecera a lvan llitch e no a ele; no lhe teria
acontecido, nem poderia acontecer, e pensar de outra ma-neira
seria cair num desgraado estado de esprito que se fazia
premente evitar, como a fisionomia de Schwarz era o melhor
exemplo". E, aps tal reflexo, sentiu-se acalmado e entrou a
crivar a viva de perguntas sobre pormenores da morte do
marido, como se morrer fosse uma coisa inerente a lvan Ilitch
e de modo algum a ele.
Foi uma longa exposio dos tormentos de Ivan Ilitch, to mais
terrveis, percebeu Piotr Iv novitch, quanto mais atuavam
sobre os nervos de Praskvia Fidorovna. E, por fim, a viva
achou que estava na hora de entrar nos assun-tos pr ticos.
* Ah, Piotr Iv novitch, como  penoso! Como  terri-velmente
penoso! - e tornou a chorar.
Ele suspirou e esperou que ela acabasse de se assoar.
Ento, disse:
* Creia-me, senhora
Ela, porm, interrompeu-o e, muito loquaz, atacou o assunto
que, na realidade, era o nico que desejava tratar com
ele, seja, como precisaria agir para obter dinheiro do Tesouro
pela morte do marido. Fingia aconselhar-se com ele sobre a
penso a receber, mas depressa Piotr lv novitch percebeu
que ela estava a par de tudo at os mnimos pormenores,
perfeitamente conhecedora, inclusive, de trmites que ele
mesmo desconhecia. Sabia precisamente quanto iria perceber de
penso, sabia, mas o que pretendia arrancar dele era
um jeito de conseguir mais. Piotr lvnovitch esforou-se por
alvitrar alguns meios, mas terminou confessando que no era
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possvel ela auferir mais; entretanto, para ser agrad vel,
criti-cou severamente o governo por sua sovinice. Praskvia
Fidorovna deu um gemido e evidentemente comeou a dar tratos
 bola para se ver livre do visitante. Ele no era to tolo
que no a compreendesse e, apagando o cigarro no cinzeiro,
levantou-se, apertou-lhe a mo e retirou-se.
Na sala de jantar, onde estava a pndula que lvan
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Ilitch, com tanta alegria, descobrira num ferro-velho, Piotr
Iv novitch encontrou um sacerdote, vrios conhecidos vindos
para a encomendao e a filha do falecido, moa muito bonita e
que ele conhecia. Vestia-se ela de preto e sua deli-cada
cintura parecia mais fina do que nunca. Mostrava um ar
sombrio, decidido, quase agressivo, e cumprimentou Piotr lv
novitch como se ele fosse culpado de alguma coisa.  Atr s
dele, com a mesma expresso de pessoa ofendida, es-tava um
rapaz rico, juiz de instruo, que ele tambm co-nhecia e que
era, segundo ouvira dizer, noivo da moa. Fez a ambos uma
saudao grave e ia entrar na cmara mor-turia, quando, ao p
da escada, apareceu o filho de Ivan Ilitch, colegial ainda e
extremamente parecido com o pai.  Era bem uma miniatura de
lvan Ilitch, tal como Piotr Iv novitch se lembrava dele na
faculdade de direito. os olhos, vermelhos de chorar,
denunciavam a vulgaridade e o vcio to comuns nos meninos de
treze ou catorze anos.  Quando deu com Piotr lv novitch,
franziu o rosto, envergo-nhado. Piotr lv novitch fez-lhe um
aceno com a cabea e entrou no quarto do morto. Comeava a
encomendao: velas, gemidos, incenso, l grimas, soluos.
Piotr Iv novitch parou e ficou olhando, de cara amarrada, os
prprios ps e os dos que estavam  sua frente. Nem uma s vez
olhou para o defunto, no se deixou tomar por qualquer
influn-cia depressiva e foi um dos primeiros a sair. No
havia nin-gum na antecmara. Guerssim veio correndo do
quarto do morto, revolveu com as mos robustas todas as
pelias para encontrar a de Piotr Iv novitch e ajudou-o a
vesti-la.
* E ento, amigo Guerssim? - perguntou Piotr
Iv novitch, para no deixar de dizer alguma coisa. - Sente
muito?
Fez-se a vontade de Deus. Todos ns teremos de
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passar por isso - respondeu, mostrando os alvos e midos
dentes de mujique.
E, como pessoa muito ocupada, abriu rapidamente a porta da
frente, chamou um cocheiro, ajudou Piotr Iv novitch a subir no
carro e voltou, apressadamente, como se estivesse ansioso para
se entregar a qualquer outra tarefa.
Depois do cheiro de incenso, de cad ver e de feriol, foi um
verdadeiro prazer para Piotr Iv novitch respirar o ar puro.
* Para onde, senhor? - perguntou o cocheiro.
* Ainda  cedo toque para a casa de Fidor
Vasslievitch.
E para l  foi. Ao chegar, encontrou os jogadores aca-bando a
primeira partida, de maneira que ainda p"de parti-cipar da
seguinte.
N~
Avida de Ivan Ilitch era das mais simples, das mais vulgares
e, contudo, das mais terrveis.
juiz do Tribunal, falecia aos quarenta e cinco anos. Era filho
de um funcionrio que, tendo servido em vrios ministrios e
departamentos em Petersburgo, fizera aquele tipo de carreira
que leva as pessoas a uma situao da qual, pela antiguidade,
no podem ser demitidas, embora seja cabal e reconhecida a sua
incompetncia para exercer qualquer posto de maior
responsabilidade; por essa razo, recebem cargos fictcios,
com ordenados de seis a dez mil rublos, nada fictcios, com
que vivem at avanada idade.
Assim era o conselheiro privado Ili  lefmovitch Golovin,
funcionrio intil de vrias reparties suprfluas.
Teve trs filhos homens. Ivan Ilitch era o segundo. O
primognito seguira os passos paternos, apenas em outro
ministrio, e j  estava chegando ao ponto em que iria ser
premiado com uma sinecura idntica. O terceiro era uma
desgraa. Depois de fracassar em diversos empregos, servia no
departamento de estradas de ferro. O pai e os irmos, e muito
especialmente as cunhadas, odiavam encontr-lo e at, salvo
necessidade extrema, no tomavam o menor conhecimento de sua
existncia. Quanto  irm, casara-se com o
baro Graff, um funcionrio petersburgus, da mesma marca
do sogro. Ivan Ilitch era, na voz corrente, a avL rara da
famlia. No era frio e meticuloso como o irmo mais velho,
nem
destrambelhado como o mais novo; constitura um meio-termo
feliz: inteligente, ilustrado, agrad vel e decente. Cursara a
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I
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faculdade de direito junto com o caula, que fora expulso no
quinto ano, no se formando, ao passo que Ivan Ilitch,
bri-lhando nos estudos, recebera o diploma. E no seu tempo de
acadmico j  era aquilo que seria pelo resto da vida: capaz,
alegre, bonacho e comunicativo, conquanto severo no
cum-primento do seu dever, e considerava como seu dever tudo
quanto os seus superiores hier rquicos consideravam como tal.
No era um adulador, nem quando menino, nem quando homem
feito, porm, desde a infncia, sentira-se naturalmen-te
atrado pelas pessoas que ocupavam posio elevada na
sociedade, tal como as mariposas pela luz, e assimilava-lhes
as maneiras e as opinies, forando ainda relaes amistosas
com elas. Passou inclume por todos os entusiasmos da
in-fncia e da mocidade; mas se entregou  sensualidade, 
vai-dade e, nos ltimos anos do curso, ao liberalismo, embora
sempre dentro de determinados limites, que seu apurado
ins-tinto apontava como corretos.
Na vida acadmica praticou algumas aes que, antes, lhe
pareciam ignominiosas e que suscitaram nele repugnn-cia por
si mesmo, no momento em que as cometia; todavia, mais tarde,
verificando que tais procedimentos eram perpe-trados tambm
por pessoas de alto nvel social, que no as consideravam
erradas, sentiu-se capaz de no consider-las como boas, mas
esqueceu-as quase por completo e no se sentiu perturbado, nas
rarssimas vezes que elas lhe acudi-ram a memoria.
Ao colar grau de advogado, foi admitido como funcio-nrio de
dcima classe e, tendo recebido do pai o dinheiro para o
uniforme, ento obrigatrio no servio pblico, Ivan Ilitch
encomendou a indumentria no Charmer, que era o alfaiate da
moda, prendeu uma medalha com a inscrio Respice Finem na
corrente do relgio, despediu-se do pro-fessor e prncipe,
patrono da faculdade, jantou com os com-panheiros de turma no
famoso restaurante Donon e, muni-do de boas roupas de cima e
de baixo, apetrechos de toilette, de manta de viagem e
competente mala, todos os artigos adquiridos nas melhores
lojas, seguiu para uma pro-vncia, a fim de exercer um cargo
em comisso, requisitado pelo governador, graas ao empenho do
pai.
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Na provncia, Ivan Ilitch conseguiu desde logo uma si-tuao
to f cil e agrad vel quanto a que havia obtido na faculdade.
Dava perfeita conta das suas funes e fazia car-reira, ao
mesmo tempo que se divertia deleitosa e decente-mente; de
quando em quando, era encarregado de vistorias nos distritos,
onde se comportava com absoluta dignidade perante superiores e
inferiores, desempenhando as misses com uma exatido e
honestidade de que se podia conside-rar justamente orgulhoso.
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Dentro das funes oficiais, a despeito da sua mocida-de e da
sua ndole jovial, era extremamente controlado, exi-gente e
mesmo severo; em sociedade, porm, mostrava~se brincalho e
espirituoso, sempre bem-humorado, alinhado e bon enfant, como
costumavam dizer o governador e sua senhora, junto aos quais
era tido como pessoa da famlia.
Teve, na provncia, uma ligao com uma dama local que se
atirara nos braos do jovem e elegante advogado e ainda um
breve caso com uma modista; houve farras com oficiais da
guarda pessoal do czar de passagem pela cidade, com idas, aps
a ceia, a certa rua afastada e de duvidosa re-putao; havia
uma certa bajulao ao chefe e  esposa do chefe, mas
praticada de maneira to elevada e distinta, que no seria
possvel aplicar-lhes palavras desairosas. Tudo ca-bia no ad
gio francs: iI faut que Jeunesse se passe. Tudo era feito com
as mos limpas, com camisas limpas, com fra-ses francesas e,
principalmente, no seio da melhor socieda-de, por conseguinte
com a plena aprovao das pessoas al-tamente colocadas.
Assim Ivan Ilitch serviu pelo espao de cinco anos, at que
sobreveio uma reforma no servio pblico. Foram introduzidas
novas instituies judicirias, outras sofreram uma
ref"rmulao e houve a necessidade de gente nova.  Ivan Ilitch
viu-se includo na falange de novos valores. Ofe-receram-lhe o
lugar de juiz de instruo, que aceitou, em-bora o cargo fosse
em outro governo e se visse obrigado a deixar as boas relaes
que fizera e ter de criar outras. Os amigos presentearam-no
com uma cigarreira de prata, com-pareceram ao bota-fora e
posaram em grupo para uma foto-grafia. E ele foi ocupar o seu
novo cargo.
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i,
No exerccio da funo de juiz de instruo, Ivan Ilitch
demonstrou ser to co~ ilfaut quanto o era como fun-cionrio
em comisso - digno, respeit vel, incapaz de con-fundir sua
vida particular com a magistratura, inspirando geral
considerao. Ali s, suas obrigaes de juiz de instru-o
pareciam-lhe mais interessantes do que as anteriores.
Na antiga posio, dava-lhe um certo contentamento
envergar o seu uniforme talhado por Charmer, passar
desembaraadamente por entre os funcionrios e requerentes
que, trmulos, aguardavam ser recebidos pelo governador,
e deixar na sua esteira uma onda de inveja pela facilidade
com que livremente entrava no gabinete para saborear um
ch  ou fumar um cigarro na companhia da suprema autoridade
provincial; no entanto, poucas pessoas dependiam diretamente
dele no cargo, e eram, quando enviado em misso especial,
apenas os funcionrios da polcia distrital e os
sectrios aos quais o governo czarista movia tenaz perseguio
para defesa da Igreja Ortodoxa Oficial. E gostava de
trat-los com deferncia, quase camaradescamente, mas fazendo
claramente sentir que, com o poder de que dispunha, f cil
seria esmag-los se quisesse. Mas, agora, na qualidade de juiz
de instruo, Ivan Ilitch sabia que todos, sem
exceo, mesmo os mais poderosos e emproados, dependiam dele e
bastava que escrevesse umas poucas linhas
num papel timbrado para que o personagem mais importante e
mais auto-suficiente comparecesse  sua presena
como acusado ou como testemunha, e, se no quisesse que
ele se sentasse, ficaria de p suportando a sua argio.
_jamais abusou de tal autoridade, muito pelo contrrio,
procurava atenu-la, mas a conscincia do poder e a
possibilida~
de de abrand-lo constituam para ele o principal interesse
e a absorvente atrao do seu novo encargo. Quanto aos
processos de instruo, rapidamente encontrou meios de
simplific-los para maior clareza e rendimento do servio,
eliminando mincas suprfluas ao andamento do processo,
reduzindo os interrogatrios ao essencial, estabelecendo
normas gerais em que se enquadravam at os casos mais
complicados, excluindo inteiramente a sua opnio pessoal
sobre a matria e, sobretudo, obrigando a que se cumprissem
todas as formalidades exigidas. Tratava-se de um traba-lho
verdadeiramente novo e Ivan Ilitch foi dos primeiros a aplicar
os dispositivos do novo Cdigo de 1864, impregna-do de idias
liberais.
Mudando-se para uma outra cidade, Ivan Ilitch travou
novas relaes, fez novas amizades, assumiu novas atitudes e
mudou de tom. Manteve uma distncia altiva em relao s
autoridades provinciais, incorporou-se a um crculo de
maotrados e nobres ricos e comeou a emitir leves censuras ao
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governol alguns conceitos de um liberalismo moderado e certas
idias um tanto ou quanto avanadas. Ao mesmo tem-po, sem
alterar a elegncia dos trajes, deixou crescer a barba.
Na nova cidade, a vida de Ivan Ilitch tambm se organi-zou
muito agradavelmente: a sociedade que se opunha dis-cretamente
ao governador era am vel e coesa, seus venci-mentos
aumentaram, e se iniciou no uste, mais uma fonte de prazer,
pois era um jogador nato, sabendo enfrentar os riscos com bom
humor, raciocinando com prontido e esperteza as suas cartadas
e, por tal, sempre bem feliz nos ganhos.
j  residia ali havia quase dois anos, quando conheceu sua
futura esposa. Praskvia Fidorovna Michel era a moa mais
atraente, mais inteligente e vivaz do crculo que Ivan flitch
freqentava. E, entre os passatempos que os seus tra-balhos de
juiz exigiam, Ivan Ilitch incluiu as relaes cor-diais e
divertidas com essa moa.
Ao tempo de funcionrio em comisso, ele danara bastante,
mas, como juiz de instruo, s praticava dana em car ter
excepcional. Assim, quando se dispunha a faz-lo, apenas tinha
em mira provar que, embora estivesse ser-vindo nas novas
instituies e fosse funcionrio de quinta classe, sabia
bailar to bem ou melhor que os mais. Obede-cendo a tal sorte
de exibio, uma vez por outra, no final dos saraus, danava
com Praskvia Fidorovna, e foi duran~ te essas danas que ela
o conquistou. A princpio, Ivan Ilitch no tinha inteno de
se casar, mas quando a moa se enamorou dele formulou a si
prprio a pergunta: "Por que, afinal, no me casar?"
Praskvia Fidorovna pertencia a excelente famlia, no
era feia, e possua uma pequena fortuna. ivan Ilitch poderia
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ter aspirado a um partido melhor, mas aquele j  era bem
satisfatrio. Ele tinha apreci veis vencimentos e ela,
confor-me esperava o noivo, teria uma renda mais ou menos
igual.
Dizer que Ivan Ilitch se casou por ter se apaixonado pela moa
e por ter encontrado nela compreensao para a sua concepo da
vida seria to incorreto quanto afirmar que se consorciara
porque a sua roda social aprovara o en-lace. Esposou-a movido
por suas prprias razes: o casa~ mento lhe proporcionava
particular satisfao e era visto como uma boa soluo pelos
seus amigos mais altamente colocados.
E Ivan Ilitch se casou.
Os preparativos do matrim"nio e os primeiros dias da
vida conjugal com os carinhos recprocos, o mobilirio novo, a
baixela nova e o enxoval nupcial, tudo decorreu a contento, e,
quando a mulher engravidou, Ivan Ilitch che-gou a pensar que o
casamento no s no perturbava o rit-mo de uma vida c"moda,
divertida, sempre decente e apro-vada pela sociedade, que ele
considerava inerente  existncia em geral, como at
valorizava-o consideravel-mente. Mas, aos primeiros meses da
gravidez, algo novo, desagrad vel, penoso e inconveniente
aconteceu de modo inesperado e sem jeito de ser evitado.
A esposa, sem motivo real - de gait de coeur, como ele
julgava -, comeou a arruinar a alegria e a decncia da sua
vida. Eram cimes infundados, exigncias de cortej-la,
implicncias mesquinhas e cenas grosseiras por d  c  aque-la
palha.
A princpio, Ivan Ilitch cuidou neutralizar os dissabores
da situao assumindo aquela atitude superior e digna que,
at na vida corrente, proporcionara sempre bons resultados
- fingir que ignorava o mau humor da mulher e prosseguir
a viver na mesma despreocupada frivolidade, convidando
amigos para jogar em sua casa, freqentando o clube e matando
algumas noites na residncia de colegas. Mas, certo
dia, a mulher comeou a injuri-lo, gastando as palavras
mais inqualific veis; e, com redobrada violncia, continuou
a faz-lo, exigindo a submisso dele aos seus caprichos e
prometendo no parar enquanto no o conseguisse, seja
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que ele ficasse em casa, aborrecendo-se ao lado dela. Nessa
altura, Ivan Ilitch ficou alarmado. Compreendia que o convvio
conjugal, pelo menos com a esposa que escolhera,
nem sempre favorece os prazeres e as douras da existncia,
mas, pelo contrrio, contribui para perturbar a harmonia e a
dignidade dela, sendo, portanto, indispens vel proteger-se
contra tais infraes. E lvan Ilitch entrou a procurar
os meios para se defender. Suas obrigaes funcionais eram
a nica coisa que infundia respeito a Praskvia Fidorovna,
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de modo que Ivan Ilitch, valendo-se delas e dos deveres
de-correntes, comeou a levantar barreiras que preservassem a
sua independncia pessoal.
Nascido o filho, com as tentativas para amament-lo e os
vrios malogros delas, com as doenas reais ou imaginrias do
beb e da me, nas quais a participao de Ivan Ilitch era
exigida sem que pudesse compreend-la, pois nada en-tendia do
assunto, tornou-se ainda mais imperativa a necessi-dade de
assegurar para si um mundo  parte da famlia.
* proporo que a mulher se tornava mais irritadia e
exigente, ele ia transferindo o centro de gravidade da sua
vida para o trabalho, querendo melhor-lo cada dia e cada dia
ficando mais ambicioso.
E, no mais que um ano aps o casamento, Ivan Ilitch chegou 
concluso de que a convivncia familiar, embora oferea certas
vantagens, era uma coisa verdadeiramente complexa e difcil,
para a qual  preciso elaborar uma rela-o definida, tal como
perante o trabalho, a fim de se poder cumprir honradamente o
dever, ou seja, levar-se uma vida que, pela correo, a
sociedade aprove.
E Ivan Ilitch elaborou para si uma relao concreta. Do seio
familiar s exigia a mesa, a dona da casa e o leito, como
comodidades que ele poderia proporcionar, alm das
formalidades exteriores que a opinio pblica exige. Se
buscava alegria e cordialidade e encontrava-as, mostrava-se
agradecido, mas se se defrontava com resistncias e
desin-teligncias refugiava-se, incontinenti, no isolado mundo
das suas obrigaes e com ele se satisfazia.
Ivan Ilitch era tido e havido como funcionrio exemplar e,
transcorridos trs anos, nomearam-no promotor
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,os a importncia deles, a possi substituto. os novos encarg ,
adeia quem ben-l ele bilidade de denunciar e trancafiar na c
_ quisesse, a repercusso das suas acusaes, o xito que
ob-tinha, tudo enfim concorria para que mais se sentisse
atra-do para a vida pblica.
Nasceram mais filhos. A mulher foi ficando cada dia mais
impertinente e irascvel, mas as relaes estabelecidas com o
mbito domstico tornaram Ivan Ilitch quase impe-netr vel ao
ranzinzismo da cara-metade.
Depois de sete anos, foi removido para outra provncia como
promotor. Mudaram-se, mas o dinheiro comeou a faltar e
Praskvia Fidorovna no gostava da cidade. Con~ quanto
percebesse maiores vencimentos, o custo da vida era mais
elevado e, como, alm disso, perderam dois filhos, o ambiente
ntimo ficou ainda mais desagrad vel.
Praskvia Fidorovria culpava o marido por todos os
transtornos ocorridos na nova residncia. A maioria das
conversas entre os dois, sobretudo as referentes  educao
das crianas1 reanimavam passadas discusses e ameaavam, a
cada momento, degenerar em feias brigas. Restavam
apenas uns espor dicos perodos de atrao amorosa, de
curta durao. Eram pequenas ilhas em que ancoravam por
diminuto lapso de tempo, para depois novamente se lana~
rem ao mar de dio latente que lhes inundava a alma, revelado
no afastamento que guardavam entre eles. Tal
distanciamento poderia entristecer Ivan Ilitch, se no achasse
que tudo deveria ser assim mesmo, e no somente o considerava
normal, como o convertera em objetivo a alcanar
na vida privada. o seu objetivo consistia em se libertar cada
vez mais das contrariedades domsticas e dar a elas uma
aparncia inofensiva e decente; e conseguiu-o passando
cada vez menos tempo com os seus, e, quando era impraticvel
sair de casa, procurava resguardar a sua posio cercando-se
de pessoas estranhas. O principal, porm, era haver a sua vida
de funcionrio. Todo o interesse da sua
existncia se concentrou no mundo judicirio e esse interesse
o absorvia. A conscincia da sua fora, que permitia aniquilar
quem ele quisesse, a irriporincia da sua entrada no
tribunal, a deferncia que lhe tributavam os subalternos,
I I
seus xitos com superiores e subordinados e, sobretudo, a
maestria com que conduzia os processos criminais e da qual se
orgulhava - tudo isso lhe dava prazer e lhe enchia os dias, a
par das palestras com os colegas, os jantares e o uste. Assim
a vida de Ivan Ilitch decorria da maneira que achava
conveniente - agrad vel e digna.
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Dentro de tal ritmo viveu mais sete anos. A filha mais velha
j  contava dezesseis, perdera um outro filho, e ficara ainda
um menino, colegial e objeto de discusses. Ivan Ilitch
pretendera faz-lo estudar direito, mas Praskvia, por
pirraa, matriculou-o no colgio. A filha estudava em casa,
com bom aproveitamento; o menino tambm no ia mal.
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Assim passou Ivan ilitch dezessete anos de casado. j era h 
muito tempo procurador, e recusara diversas remo-es, na
expectativa de um posto mais interessante, quando uma
ocorrncia inesperada ameaou perturbar profunda-mente o
pacato curso de sua vida. Contava que lhe fosse oferecido o
cargo de juiz-presidente numa cidade universi-tria, mas
Hoppe, no se sabe como, passou na sua frente e obteve o
lugar. Ivan Ilitch ficou imensamente irritado, cen-surou o
colega e acabou brigando com ele e com os seus superiores
imediatos, que, por hostilidade, novamente o preteriram nas
designaes seguintes.
Isso foi em 1880, o pior ano da vida de Ivan Ilitch. Por um
lado ficou provado que os seus vencimentos eram
insu-ficientes, forando~o a contrair emprstimos para se
manter, e, por outro, que fora completamente esquecido, coisa
que lhe parecia a mais clamorosa e cruel injustia, conquanto
aos outros no passava de um caso bastante comum. O pr-prio
pai no se achou obrigado a socorr-lo. Sentiu que to~ dos o
abandonavam, considerando a sua situao, com trs mil e
quinhentos rublos de ordenado, perfeitamente normal e, at,
feliz. Somente ele sabia que, com a conscincia das injustias
que lhe eram feitas com as constantes azucri-naes da mulher,
com as dvidas que assumira, a sua vida estava longe de ser
normal.
Naquele vero, para aliviar as finanas, ele pediu uma licena
e foi pass-la no campo com a famlia, em casa do irmo da
mulher.
L , ocioso, Ivan Ilitch sentiu, pela primeira vez, o que era
tdio e, mais que tdio, uma insuport vel angstia. E decidiu
que era impossvel viver em tais condies e que precisava,
urgentemente, tomar enrgicas providncias.
Depois de uma noite de ins"nia, que Ivan Ilitch atra-vessou
andando de um lado para o outro no terrao, resol-veu ir a
Petersburgo a fim de manobrar para que fossem castigados
aqueles que no haviam reconhecido os seus mritos e conseguir
uma transferncia para outro ministrio.
No dia seguinte, apesar de todas as objees apresen-tadas
pela mulher e. pelo cunhado, marchou para Peters-burgo, tendo
em mira arranjar um lugar que lhe rendesse cinco mil rublos.
Pouco j  se lhe dava o ministrio ou a espcie de servio.
Tudo quanto queria era um lugar de cin-co mil rublos, fosse
numa administrao qualquer, num banco, na estrada de ferro,
nas instituies de caridade da imperatriz Maria, at na
alfndega, contanto que desse cin-co mil rublos e no
dependesse do ministrio onde no souberam recompensar o seu
valor.
Ora, a viagem de Ivan Ilitch foi coroada de xito
surpreendente e inesperado. Subiu em Kursk, para o mesmo
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compartimento de primeira classe em que viajava, o seu
co-nhecido F. S. Ilin, que lhe comunicou os termos de um
tele-grama, recebido pelo governador, ali, dando conta duma
iminente mudana no ministrio: Piotr Iv novitch substitui-ria
Ivan Sieminovitch.
A esperada mudana, alm da sua importncia para o pas, tinha
uma particular significao para Ivan Ilitch, pois a ascenso
ao poder de uma nova personalidade, no caso Piotr Iv novitch,
arrastaria seguramente a do seu amigo Zakhar Iv novitch, que
muito poderia favorec-lo.
A auspiciosa notcia foi confirmada em Moscou. E, chegando a
Petersburgo, Ivan Ilitch encontrou Zakhar e ar-rancou a
promessa de uma colocao no prprio ministrio da justia.
Uma semana depois, telegrafava  mulher: "Zakhar substituiu
Miller primeiro despacho minha nomeao".
Em virtude da mudana, Ivan Ilitch obteve inopinadamente, no
ministrio em que servia, um posto duas classes
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acima dos colegas, percebendo cinco mil rublos e mais trs mil
e quinhentos de ajuda de custo para a mudana. Ficou no auge
da felicidade e esqueceu todo o rancor que nutria pelos
inimigos de ontem e pelo ministrio.
Regressou ao campo alegre e bem disposto, COMO h muito tempo
no lhe acontecia. Praskvia Fidorovna tam-bm se alegrou e
entre os dois houve uma trgua. Ivan Ilitch contou-lhe como
fora obsequiado em Petersburgo, como hu-milhara os seus
antigos inimigos, que agora o adulavam e o invejavam, e como
toda gente gostava dele na capital.
A mulher ouvia, parecia acreditar em tudo, no o con-tradisse
uma vez sequer. Limitou-se a arquitetar planos para a sua
instalao na cidade onde iriam residir. Ivan Ilitch
alegre-mente viu que os planos coincidiam com os seus, que ele
e ela estavam se harmonizando e que a vida dele, aps a crise
sofrida, retomava o curso normal, agrad vel e decorosa.
Ivan Ilitch voltara para passar pouco tempo, pois a posse no
novo cargo estava marcada para 10 de setembro e tinha ainda de
arranjar a nova casa, efetuar o transporte das suas coisas,
encomendar muitas outras, em suma, organizar a vida de acordo
com os seus projetos, que praticamente eram os mesmos de
Praskvia Fidorovna.
E agora, que tudo tomava uma feio to favor vel, que ele e a
mulher se entendiam, as relaes do casal torna-ram-se
melhores do que haviam sido at mesmo nos pri-meiros tempos de
matrim"nio. E Ivan Ilitch pensou em le-var a famlia consigo,
mas diante da insistncia do cunhado e da cunhada, que se
tornaram repentinamente de amores por ele e pelos seus, acabou
por ir sozinho.
Partiu, e a excelente disposio de nimo provocada pelo
sucesso e pela harmonia conjugal no o abandonou.
Encontrou uma casa encantadora, exatamente como ele e a
mulher sonharam. As salas de recepo eram espaosas, de
alto p direito, em estilo antigo; um escritrio confort vel e
imponente, bons os quartos da mulher e da filha, e o de estudo
do filho; tudo parecia ter sido construido expressamente para
eles. Ivan Ilitch ocupou-se pessoalmente dos arranjos,
escolheu o papel de parede, comprou os mveis
que faltavarn, de preferncia antigos, que lhe pareciam to
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distintos, e tudo ia atingindo aquele ideal que ambicionara.
Quando chegou a meio da instalao, j  ela ultrapassava as
suas previses. Anteviu o requinte e a elegncia, longe de
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qualquer vulgaridade, que teria o conjunto quando pronto.
Antes de dormir, imaginava como ficaria a sala de visitas. 
Olhando-a, ainda inacabada, via j  a lareira, o guarda-fogo,
a vitrina, as cadeirinhas espalhadas aqui e ali, as bandejas e
pratos pendurados nas paredes, os bronzes. Alegrava-se corri a
surpresa que teriam a mulher e a filha, muito dadas tambm 
decorao. Seguramente, no esperariam tanto capricho. Teve a
sorte, principalmente, de poder comprar barato certas
antiguidades, que emprestavam  casa um ar pronunciadamente
aristocr tico. Mas, nas cartas que escre-via, propositadamente
no relatava tudo, para mais ainda as surpreender. Tudo isso o
absorvia tanto que seu novo em-prego perdia o interesse que
esperava, conquanto muito gostasse da sua atividade
profissional. Durante as sesses do tribunal, freqentemente
ficava com o pensamento lon-ge, conjeturando se devia fazer as
sanefas lisas ou preguea-das. Estava to dominado pela obra,
que, vrias vezes, mo~ vido pela impacincia, ele mesmo mudava
a posio de certos mveis ou pendurava uma cortina. De uma
feita, ao trepar numa escadinha, a fim de mostrar ao operrio,
que no o estava compreendendo, como queria que o servio
fosse executado, dando um passo em falso, escorregou, mas,
como era  gil e forte, conseguiu se aprumar e aperias bateu de
lado na moldura da janela. Sentiu a pancada, mas depressa
estava lpido. Naquela az fama, mostrava-se con-tente e bem
disposto. Escrevia  mulher, confessando-se re-minado uns
quinze anos. Cuidou que tudo ficaria pronto em setembro, mas
as obras se arrastaram at meados de ou-tubro. Em compensaao
' tudo ficaria maravilhoso, opinio que no era s dele, mas
de todos os que visitavam a casa.
Na verdade, havia ali o mesmo que se encontra nas casas de
gente remediada, mas que pretende aparentar opulncia e apenas
consegue que se paream extraordinariamente umas com as
outras: tapearias, bano, plantas,
pesados bronzes, cores escuras ou vivas, enfim, tudo aquilo
que as pessoas de certa classe possuem para se parecer
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com as pessoas da mesma classe. A casa de Ivan Ilitch era uma
perfeita imitao, mas ele a achava absolutamente ori-y ginal.
Ao ir buscar a famlia na estao, levava a felicidade dentro
do peito, e ao traz-la para a casa, onde um criado de gravata
branca abriu a porta da saleta de entrada, orna-mentada de
plantas, os gritos de admirao e elogios foram tamanhos, ao
percorrerem as dependncias, que ele usu-fruiu um
extraordinrio prazer. Naquela noite,  hora do h , quando
Praskvia Fidorovna perguntou-lhe, entre ou-tras coisas, como
fora a queda, ele, entre risos, representou como escorregara,
como batera na moldura da janela e como assustara o operrio.
* Felizmente eu sou um tanto atleta. Outro, no meu lugar,
estaria morto. Eu, porm, apenas me machuquei um pouquinho
aqui. Quando toco, ainda di, mas est  muito melhor. Ficou
somente uma mancha roxa.
Comearam a vida nova na casa e, como sempre acon-tece, depois
de devidamente acomodados, acharam que fal-tava ainda um outro
quarto; os recursos haviam dobrado, mesmo assim, como tambm
sempre acontece, consideraram que ainda precisariam de mais
uns quinhentos rublos; mas, afinal, tudo marchava bem. Sim,
tudo marchava bem, quando restavam algumas coisas para fazer:
comprar certos objetos, encomendar outros, mudar determinados
mveis de lugar, p"r em ordem as prateleiras. Conquanto
houvesse algumas controvrsias entre marido e mulher, ambos
estavam conten-tes e tinham tanto a fazer que terminavam sem
maiores bri-gas. Mas, quando no havia nada mais para arrumar,
sobre-vieram o tdio e a sensao de que faltava qualquer
coisa.  Foi a que as relaes, que j  estavam fazendo e
estabelecen-do outros h bitos, serviram para encher a vida.
Ivan Ilitch consumia as manhs no tribunal, voltava
para jantar, a princpio bem~humorado, embora s vezes se
irritasse, e sempre por causa do lar. (Uma mancha na toalha
ou nos estofados, um cordo de cortina arrebentado, qualquer
ninharia assim deixava-o fora de si; tanto suor lhe custara a
instalao, que o menor estrago desesperava-o.) Mas,
de um modo geral, a vida ia correndo dentro da sua concepo:
sossegada, amena e decente. Levantava-se s nove
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horas, tomava o caf, lia o jornal, depois envergava o
uniforme e batia para o tribunal. Ali o esperava a canga do
trabalho,  qual se submetia sem relutncia: partes,
inquritos,
recursos, pedidos de informaes de instncias superiores,
sesses pblicas e sesses deliberativas. Era mister eliminar
nas suas ocupaes o menor trao da refrescante realidade,
que perturba o bom andamento burocr tico, e manter contato com
as partes exclusivamente dentro das normas ofi#
       


ciais. Vem um cavalheiro, por exemplo, solicitar determina-da
informao. Na sua posio de funcionrio, Ivan Ilitch no
pode dispensar ao solicitante nenhuma ateno; mas, se os seus
mtuos entendimentos puderem ser expressos em papel timbrado,
dentro de tais limites Ivan Ilitch faz tudo quanto pode,
absolutamente tudo, mantendo uma aparencia de cordialidade e
polidez. Terminadas, porm, as relaes burocr ticas, cessa
tudo o mais. Ivan Ilitch possua no mais alto grau a
capacidade de isolar o lado funcional, no o confundindo
jamais com a vida real. Graas  longa prtica, aliada  nata
aptido, atingia ele tal perfeio que, s vezes, como um
virtuose, dava-se ao luxo de, por brinca-deira, misturar as
relaes humanas com as burocr ticas.
Permitia-se isso por sentir que poderia, a qualquer momento,
retomar a sua atitude rigorosamente funcional e repelir o
aspecto humano. E era coisa que fazia no s f cil, agrad vel
e decentemente, mas at artisticamente. Nos intervalos
das sesses fumava, tomava ch , dava dois dedos de prosa
sobre poltica, um outro tanto sobre generalidades, falava
um pouco sobre jogo de cartas e, mais que tudo, sobre
nomeaes e remoes. Fatigado, mas com o sentimento do
virtuose, por exemplo, de um primeiro violino que executou
primorosamente a sua parte na orquestra, voltava para
casa, onde tomava conhecimento de que a mulher e a filha
tinham sado para fazer visitas, ou algum as visitara, que o
filho, estava no colgio, fora s lies em casa de
explicadores e aprendia com aproveitamento as suas matrias.
Tudo estava perfeitamente bem, portanto, passado o
jantar, se no tinham visitas, Ivan Ilitch lia s vezes um
livro
muito comentado e, mais tarde, aproveitava a noite para
estudar certos processos, confrontando depoimentos de teste31
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munhas, catando nos cdigos o que podia ser aplicado a
cada caso. Fazia tudo sem aborrecimento e sem prazer. Era
chato quando poderia estar jogando uste; mas se no havia
jogo marcado era melhor do que ficar de mos abanando
ou conversar sozinho com a mulher. o maior prazer de Ivan
ilitch consistia em dar pequenos jantares a uma seleta roda
de convidados e, assim como a sua sala de visitas se parecia
com todas as salas de visitas, tais reunies assernelhavam-se
a todas as reunies.      com danas. Ivari
Certa vez, deram uma recepo to bem, salvo uma ilitch
apreciou bastante e tudo saiu mu briga que teve com a mulher
por causa de bolos e doces.  Praskvia Fidorovna tinha o seu
plano, mas Ivan Ilitch in-sistiu em encomendar o buf nutria
confeitaria cara, com-prou tortas demais e a desavena
resultou do fato de ter sobrado uma boa quantidade delas, e a
conta, que o confei~ teiro apresentou, chegou a quarenta e
cinco rublos. Foi uma briga comprida e infeliz. Praskvia
Fidorovna chamou-o de "diota e imbecil". Ele p"s as mos na
cabea e, desatina-do, aludiu ao divrcio. Mas o baile havia
sido divertido, A freqncia fora de gente fina e Ivan Ilitch
danara com a princesa Trufnova, irm da conhecida fundadora
da socie-dade beneficente Remova o Meu Sofrimento.
A alegria que Ivan Ilitch encontrava no trabalho era a alegria
da arribio; as alegrias da vida social eram as da vai-dade;
mas as verdadeiras alegrias eram as proporcionadas pelo uste.
Confessava que, acontecesse o que acontecesse, fossem quais
fossem os seus dissabores, a alegria que vinha como um raio de
luz, tudo fazendo olvidar, era se sentar a uma mesa de uste
com quatro bons parceiros, seguros e si-lenciosos (com cinco 
enfadonho, pois um tem de ficar de fora, mesmo que diga o
contr rio), jogar uma partida movi-mentada e inteligente
(quando as cartas vm boas), e de-pois cear com um bom copo de
vinho. Aps um jogo de uste, especialmente quando ganhava um
pouco (ganhar demais  deselegante), Ivan Ilitch ia para a
cama com o me-lhor humor possvel.
E assim viviam. O crculo social que formaram era o mais
escolhido, recebiam gente importante e muitos jovens.
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Marido, mulher e filha tacitamente se entendiam no que se
refere s relaes, e tranqilamente se livravam dos parentes
pobres e dos amigos de poucas posses, que acorriam,
cheios de amabilidades,  sala de visitas com pratos japoneses
nas paredes. No demorou que tais pobres-diabos deixassem de
visit-los, e os Golovin ficaram sossegadamente
recebendo somente a nata da sociedade. Os moos cortejavam
Lisanka, e Pietrichtchov, juiz de instruo e herdeiro
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nico de Dmtri Iv novitch Pietrichtchov, p"s-se a faz-lo
to assiduamente, que Ivan Ilitch j  alvitrava a Praskvia
Fidorovna a conveniencia de organizar um passeio de
trica em que os jovens pudessem ficar juntos ou um espet culo
de amadores tendo em vista o mesmo fim.
Assim eles viviam: tudo ia bem, sem alteraes,
agra-davelmente.
N~
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Todos desfrutavam boa sade. No se podia chamar de doena o
gosto esquisito que Ivan Ilitch dizia sentir de vez em quando
na boca, bem como certa sensaao incomo-da no lado esquerdo do
ventre.
Mas essa sensao inc"moda comeou a aumentar e, embora no se
manifestasse com dor, converteu-se num permanente peso, que
gerava em Ivan Ilitch um contnuo mau humor. E o mau humor,
cada dia mais acentuado, en-trou a perturbar a vida f cil e
decente que levava a famlia Golovin. As rugas entre o casal
se acentuaram, desapare-ceu a atmosfera amena, s ficando, a
muito custo, o deco-ro. As cenas voltaram a se repetir e
apenas bem poucas e pequeninas ilhas subsistiram que marido e
mulher pudes-sem abordar sem uma exploso. Praskvia
Fidorovna ti-nha agora motivos de sobra para dizer que o
marido era de gnio dificil. Com o peculiar h bito de
exagerar, dizia que sempre ele tivera um gnio horrvel e s
mesmo com a bondade de que era dotada pudera atur-lo durante
vin-te anos. E, verdade seja dita, era ele quem agora dava
in-cio s brigas. Comeavam as suas birras sempre na hora do
jantar, comumente no exato momento de tomar a sopa.
Ora notava que uma loua estava rachada, ora reclamava
que a comida no estava bem-feita; ora repreendia o filho
por apoiar o cotovelo na mesa, ora implicava com o penteado da
filha; e de tudo botava a culpa em Praskvia
Fidorovna. Nas primeiras crticas, ela rebateu com palavras
crespas, mas depois, quando em uma ou duas oca34
sies viu-o presa de um invulgar desespero, admitiu tratar-se
de alguma perturbao digestiva e se encolheu, mas passou a
apressar o jantar. Fez, ali s, de tal resignao um ttulo de
glria. Aps concluir que o marido possua um temperamento
insuport vel, e que a fizera tremendamente desgraada, comeou
a ter pena de si mesma e, quanto mais se compadecia de si,
mais detestava o marido. Passou a desejar que ele morresse,
mas, como a morte iria priv-la do ordenado, mais cresceu a
sua raiva. Considerava-se supremamente infeliz porque nem
mesmo a morte dele poderia salv-la e, embora escondesse o seu
desespero, a sua exasperao s fazia exaltar a do marido.
Depois de uma disputa, em que Ivan Ilitch fora inegavelmente
injusto e, passada a qual, nas explicaes que tiveram, ele
confessara que se sentia realmente irritadio,
mas que isso s podia atribuir a uma doena, ela lhe disse
que, se estava doente, devia se tratar e exigiu que fosse
#
       


consultar um mdico famoso.
Ele foi. Tudo se passou como previa e como se passa sempre: a
longa espera, o ar doutoral to seu conhecido, pois era o ar
que gastava no tribunal, a percusso, a auscul-tao, as
perguntas de praxe, que pediam respostas formu-ladas de
antemo e perfeitamente inteis, e a importncia com que dava
a entender: basta que se submeta a ns e tudo resolveremos -
sabemos muito bem como se resol-vem esses casos, sempre da
mesma maneira para qualquer paciente. Exatamente como no
tribunal. Assim como repre-sentava uma farsa diante dos
acusados, o famoso mdico representava para ele.
O clnico dizia: isto e aquilo indicam que o senhor tem
isto ou aquilo; mas se o exame no confirmar que o senhor
tem isto e aquilo, devemos levantar a hiptese de ter isto ou
aquilo. E supondo~se que sofre disto ou daquilo, ento e
assim por diante. Ivan Ilitch s se preocupava com uma coisa:
o que tinha era grave ou no? O doutor, porm, no ligava para
a descabida pergunta. Do seu ponto de vista, o caPital era
decidir entre um rim flutuante, uma bronquite
Crnica ou uma afeco do ceco. No estava em pauta a
vida de Ivan Ilitch, mas sim decidir pelo rim ou pelo ceco. E
35
I
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11
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36
o facultativo brilhantemente resolveu, segundo pareceu a Ivan
Ilitch, a favor do ceco, ressalvando, porm, que um exame
completo de urina poderia fornecer novos subsdios para a
possvel reconsiderao do diagnstico. Exatamente o que Ivan
Ilitch fizera mil vezes, e com o mesmo brilhan-tismo, em
relao a um acusado. De maneira igualmente brilhante, o
mdico fez a sua concluso e, triunfante, e at jubilosamente,
olhou por cima dos culos para o acusado.  Mas Ivan Ilitch,
pela concluso cientfica, inferiu que as coisas andavam mal
para seu lado, embora isso fosse indife-rente para o mdico e
talvez para todo mundo. E a conclu-so chocou-o profundamente,
despertando nele um grande sentimento de comiserao por si
mesmo e de dio ao mdico, pelo pouco caso com que encarava
matria de tamanha importncia.
Calado ficara. Levantou-se, pos o dinheiro da consulta na
mesa, deu um suspiro e s ento falou:
* Ns os doentes talvez faamos muitas perguntas
in-convenientes. Todavia, aventuro-me a perguntar se o que
tenho  grave ou no?
O mdico olhou-o severamente, por tr s dos culos, fechando um
olho, como se dissesse: "Acusado, se no se restringir s
perguntas que lhe foram formuladas, serei obrigado a mand-lo
retirar do recinto". Mas, na verdade, respondeu:
* Eu j  disse ao senhor aquilo que considero neces-srio e
oportuno. A an lise da urina indicar  o restante. - E fez-lhe
uma saudao de despedida.
Ivan Ilitch saiu vagarosamente do consultrio, sentou-se
melancolicamente no tren e mandou tocar para casa.
Em todo o trajeto, ruminava o que o clnico dissera,
procurando traduzir em palavras mais simples toda aquela
fraseologia cientfica e ler nelas uma resposta ao seguinte:
estou muito mal ou  coisa passageira? Tinha a impresso
de que as palavras do mdico escondiam a gravidade do
seu estado. Nas ruas, tudo lhe pareceu triste. Os fiacres, as
casas, os transeuntes, as lojas, tudo era tristeza. A dor,
aquela dor surda, abafada, que no parava um segundo sequer,
parecia ganhar, com as dbias palavras do mdico, um outro e
mais srio significado. Ivan Ilitch prestava agora aten-o a
ela com um sentimento diferente e penoso.
Chegando a casa, foi logo contar tudo  mulher. Ela
ouvia, porm, na metade do relato, eis que entra a filha, j 
de chapu, pronta para sair com a me. Contrafeita, sentouse
para ouvir aquela xaropada, mas no agentou por mui#
       


to tempo e a me tambm no ouviu at o fim.
* otimo, estou muito contente - falou. - Agora tra-te de tomar
o remdio direitinho. Passe pra c  a receita. Vou mandar Guer
ssim  farm cia avi ~la. - E foi se vestir.
Ele no parara de falar enquanto ela estivera na sala, mas
quando a viu sair suspirou fundamente e pensou que talvez no
tivesse mesmo nada de alarmante.
Tomava os medicamentos e seguia regularmente as prescries do
mdico, alteradas aps o resultado do exa-me de urina. Mas
nesse ponto verificou-se uma certa diver-gncia entre o que o
mdico predissera e os sintomas que se manifestaram. E
possvel que Ivan Ilitch tivesse esqueci-do ou confundido
alguma preconizao, ou o mdico ocul-tasse qualquer coisa,
pelo que no podia ser culpado. E Ivan Ilitch continuou a
obedecer fielmente s prescries e, nos primeiros tempos,
encontrou consolo nisso.
Desde que fora se consultar, a principal ocupao de Ivan
Ilitch passou a ser a execuo rigorosa das determina-es do
clnico quanto  higiene e  ingesto dos remdios, e a
observao da sua dor e de todas as funes do seu or-ganismo.
O seu interesse concentrou-se todo em torno das doenas e da
sade. Quando, na sua presena, se falava em pessoas enfermas,
falecidas ou restabelecidas, mormente quando a enfermidade era
parecida com a sua, ele atenta-mente ouvia com maldisfarada
inquietao, fazia mil per-guntas e relacionava o que diziam
com o seu caso.
A dor no diminua, mas Ivan Ilitch fazia o possvel
para se persuadir de que ela estava melhorando. E conseguia
enganar-se, enquanto nada o perturbava. Mas bastava
um aborrecimento com a mulher, um insucesso no trabalho ou
falta de sorte no uste para que seu estado imediatamente se
agravasse. Antes suportava essas contrariedades, confiando
poder acertar o que estava errado, superar
37
#
       


as dificuldades, conseguir no jogo uma espetacular vitria. 
Mas agora o menor insucesso prostrava-o, levava-c, ao de~
sespero. E dizia consigo mesmo: "Logo agora, que eu co-meava
a melhorar e a medicao vinha fazendo efeito, vem esta
maldita infelicidade ou este contratempo!" E fi-cava possesso
com os infortnios ou com as pessoas que os provocavam e o
assassinavam, pois sentia que o enfurecimento o estava
matando, sem que pudesse evit - lo. Parecia ver com clareza
que a irritao, contra as cir-cunstncias e contra as
pessoas, no fazia seno aumentar seu mal e, por conseguinte,
no deveria dar ateno aos fatos desagrad veis; mas agia
exatamente ao contrrio: di-zia precisar de calma, vigiava
atentamente tudo quanto pudesse perturb-lo e se exasperava
com a menor contra~ riedade. O seu estado ainda era agravado
pela leitura de li-vros de medicina e pela consulta aos
mdicos. A evoluo de sua doena se fazia com lentido, de
sorte que podia iludir-se a si prprio, comparando um dia com
outro - a diferena era mnima. Mas se consultava os mdicos a
coi-sa mudava de figura - parecia que piorara
consideravel-mente. No obstante, continuamente procurava-os.
No correr do mesmo ms, foi consultar outra celebri-dade, que
quase repetiu o que a outra dissera, mas interro~ gando-o de
modo diferente. E a visita s fez crescer as dvi-das e o medo
de Ivan Ilitch. Um clnico excelente, amigo de um amigo dele,
diagnosticou a molstia de forma interes-sante, diversa dos
outros e, embora vaticinasse a cura, as suas inquiries e
suposies ainda mais confundiram Ivan llitch, que viu
aumentar a incerteza. Um mdico horneopata externou uma
opinio diferente de todos e, por uma sema-na, lvan llitch
tomou, s escondidas, o remdio que ele re-ceitara. Passada a
semana, no sentindo nenhuma melhora, perdeu tanto a confiana
no tratamento homeop tico quan-to no alop tico e ficou mais
abatido. Certo dia, uma senhora de suas relaes referiu-se a
curas rcalizadas por uni cone inilagroso. lvan flitch
surpreendeu-se ouvindo-a atentamen-te e procurando dar crdito
ao que contava, E ficou alarma-do "Ser  que eu j  estou de
miolo mole?", PCr.1_1LIntOU-SC.
"Besteiras! Tudo besteiras. N-o me devo entregar s supers38
ties- j  que escolhi um ~1dico, devo obedecer
estritaalente ao seu tratamento. E o que vou fazer. Palavra de
honra' No pensarei mais em baboseiras. Seguirei severamente o
tratamento at o vero e, ento, veremos Chega
de vacilaes!" Era f cil de dizer, mas impossvel de
executar. A dor do lado no parava de atorment-lo, parecendo
mais forte, mais permanente, enquanto o mau gosto na
boca ficava mais esquisito, pareceu-lhe que se transformara
em mau h lito, e a inapetncia se acentuava, e as foras lhe
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fugiam. No tinha iluses: algo terrvel e novo, e mais
im-portante do que tudo quanto lhe acontecera na vida, se
de-senvOlvia dentro dele e somente ele percebia. Todos os que
o cercavam no compreendiam ou no queriam compreen-der,
cuidando que o mundo tudo continuaria como de cos-tume. E tal
pensamento atormentava lvan llitch mais que tudo. Via que as
pessoas da casa, sobretudo a mulher e a fi-lha, que
atravessavam uma fase de intensa vida mundana, no
desconfiavam de nada, e ficavam muito aborrecidas porque ele
andava macambzio e exigente, como se tivesse alguma culpa.
Embora disfarassem, via que era um estorvo no caminho delas e
que a mulher adotara uma premeditada atitude para com a
molstia que o prostrava e persistia em mant-la a despeito do
que ele pudesse dizer ou fazer. A atitude era a seguinte:
* Vocs sabem - dizia ela aos amigos - que Ivan
Ilitch no pode, como qualquer outra pessoa o faria, seguir 
risca o tratamento indicado. Se num dia ele toma as gotas, faz
a dieta e vai cedo para a cama, no outro, se eu me dis-traio,
esquecer  de tomar o remdio, comer  esturjo, que lhe 
proibido, e ficar  jogando uste at uma hora.
* Ora, no exagere - replicava lvan flitch, vexado.
* S aconteceu isso uma vez, na casa de Piotr Ivnovitch.
* E ontem, em casa de Chebek.
* De qualquer forma, eu no conseguiria dormir, por causa da
dor
-  desculpa esfarrapada. Mas, do jeito que vai, uma coisa eu
digo: assim no ficar  bom e sempre nos dar aborrecimentos.
A atitude de Praskvia Fidorovna para com a doena
39
#
       


I
do marido consistia, em resumo, em declarar a todos e ao
prprio Ivan Ilitch que ele era o nico culpado da molstia e
que esta no passava de mais um dos inumer veis dissa-bores
que causava a ela. lvan Ilitch sentia que as palavras dela
saram involuntariamente, mas, mesmo assim, no se tornavam
mais aceit veis para ele.
No tribunal, Ivan Ilitch tambm notava, ou julgava no~ tar,
uma estranha atitude em relao  sua pessoa: ora tinha a
impresso de que o olhavam como algum que, em bre-ve, deixar 
uma vaga; ora os colegas caoavam afetuosa-mente da sua
hipocondria, como se a pavorosa, atroz e in~ crvel coisa que
se desenvolvia dentro dele, sugando-o sem trguas e
arrastando-o irresistivelmente no sabia para onde, no
passasse de um divertido tema para graolas.  Schwarz, entre
todos,  o que mais o irritava, aquele Schwarz que, com o seu
gnio folgazo, sua vivacidade e a sua elegncia, lembrava o
que ele prprio fora h  dez anos passados.
Aparecem amigos para um joguinho. Abancam-se, do as cartas,
ele recebe sete ouros. O parceiro diz: "Sem trun-fos", e o
apia com dois ouros. Que mais poderia desejar?  Devia se
sentir alegre, animado - iria fazer uma grande jo-gada. De
repente, lvan llitch sente a dor obstinada, o gosto
nauseabundo na boca, e parece-lhe estpido, no estado em que
se encontra, rejubilar-se com um grande lance.
Olha para seu parceiro, Mikhail Mikh ilovitch, que for-temente
bate com o punho na mesa e, por delicadeza, no arrasta a
vaza, mas empurra~a para ele, a fim de lhe dar o prazer de
apanh-la sem fazer esforo, sem mesmo ser pre-ciso estender o
brao. "Ser  que Mikhail Mikh ilovitch me acha to fraco que
nem posso estender muito o brao?", pensa, e esquece de contar
os trunfos, desperdia um deles numa vaza j  ganha e perde
por trs vazas. E o pior  que v como o parceiro sofre,
enquanto para ele aquilo  indife-rente. E  horrvel pensar
porque aquilo lhe  indiferente.
Todos vem que ele no se sente bem e dizem-lhe: "Se
est  cansado, podemos parar. Descanse um pouco". Descansar?
No. De modo nenhum! E acabou a partida. Todos esto
calados e sombrios. ivan ilitch no ignora que inspirou aque40
Ia atmosfera, mas no pode dissip-la. Ceiam e cada um vai
para o seu lado, e Ivan llitch ficou solitrio, com a
conscin-cia de que sua vida est  envenenada e que envenenava
a dos outros e que o veneno no iria ser eliminado, mas sim
pene-trar cada dia mais fundamente no seu ser.
E, com a conscincia disso e com a sua dor fsica, alm
do terror, tinha de ir para a cama, onde freqentemente fi#
       


cava rolando, insone, a maior parte da noite. E de manh era
preciso levantar-se, vestir-se, ir para o tribunal, falar,
es-crever, ou ento ficar em casa as vinte e quatro horas do
dia, cada uma das quais era uma tortura. E sozinho tinha de
viver assim  beira do abismo, sem ningum que o
compre-endesse e tivesse pena dele.
N~
#
       


Assim correu um ms, depois outro. Dias antes do Ano Novo, o
cunhado veio  cidade e se hospedou em sua casa. Ivan Ilitch
fora ao tribunal e Praskvia Fidorovna es-tava fazendo
compras. Voltando do trabalho e entrando no escritrio,
encontrou o cunhado, um tipo vermelhaol es-banjando sade,
que desfazia a mala. Ouvindo os passos de Ivan Ilitch, ergueu
a cabea e olhou-o um instante, sem di~ zer nada. Ivan Ilitch
leu tudo naquele olhar. O cunhado abriu a boca para uma
exclamao de surpresa, mas se con-teve. Esse movimento
confirmava tudo.
* Estou mudado, no estou?
* Sim. Um quase nada.
E, por mais que ele depois forasse o cunhado a voltar ao
assunto, nada conseguiu. Praskvia Fidorovna chegou e o irmo
foi conversar com ela. Ivan Ilitch passou a chave na porta e
ficou se observando no espelho, primeiro de frente, depois de
perfil. Apanhou um retrato que tirara com a mulher e
comparou-o com o que o espelho lhe revelava.  Era enorme a
diferena. Em seguida arregaou as mangas at o cotovelo,
examinou os braos, clesceu as mangas, sen-tou~se num div e
ficou mais sombrio do que a noite.
"No  possvel, no  possvel"', monologou e, levantando-se
bruscamente, foi at a secretria, abriu um processo, comeou
a l-lo, mas no conseguiu continuar. Abriu a
porta e foi para a
42
sala de visitas. Estava ela cerrada. Aproxi-mou-se, na ponta
dos ps, e ficou escutando.
* N,o, voc  exagerado! - dizia Praskvia Fidorovna.
* Exagerado, eu? Voc  que est  cega. Ele est  um cad ver!
Veja os olhos dele como esto baos. Mas o que  que ele tem,
afinal?
* Ningum sabe. Nikol iev - era outro mdico - disse qualquer
coisa, mas eu no entendi. Liechtchetchitzki - era outro
mdico de nomeada - disse o contr rio
Ivan Ilitch retirou-se para o seu quarto, estirou-se na cama e
ficou remoendo: "Rim, rim flutuante". Relembrou tudo quanto os
mdicos lhe haviam dito sobre o desloca-mento renal. E, num
esforo de imaginao, procurou agar-rar o rgo rebelde,
prend-lo, fix-lo. "De to pouco se precisava para
consegui-lo", pensava. "No, voltarei a falar com Piotr iv
novitch." (Era o amigo que tinha, como amigo ntimo, um grande
especialista.) Tocou a campainha, man-dou preparar o carro e
comeou a se vestir para sair.
* Aonde voc vai, Jean? - perguntou a mulher, com um olhar de
tristeza e bondade, que no lhe era comum.
Aquela expresso bondosa provocou-lhe raiva. Olhou-a
sombriamente:
#
       


* Tenho que ir  casa de Piotr Iv novitch.
Foi procurar o colega e, juntos, saram para a casa do grande
especialista. L  o encontraram e Ivan Ilitch manteve com ele
uma longa conversa.
Recapitulando as mincias anatmicas e psicolgicas fomecidas
pelo especialista para explicar o que lhe aconte-cia, Ivan
Ilitch compreendeu tudo. Havia uma coisinha no ceco, de f cil
resoluo. Bastava estimular a energia de um orgo e reduzir a
de um outro, para que a reabsoro se processasse e tudo
ficaria em ordem. Chegou atrasado para o jantar. Depois da
comida, conversou alegremente e ficou algum tempo indeciso
sobre se iria ou no trabalhar. Por fim, decidiu-se: foi para
o escritrio e meteu mos a obra.
Pegava um processo, estudava-o corri argucia, mas a convico
de que havia um assunto importante e pessoal, que
teria que enfrentar depois, no lhe saa da mente. Concluda
a tarefa, lembrou-se de que o assunto cra o funcionamento
do seu ceco. Mas no se deixou dorninar por ele e foi toinar
ch  na sala de visitas. Havia visitantes, Ixilestrava-se,
tocavase piano, cantava-se e presente estava o Juiz de
instruo, o
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i
I
desejado noivo de sua filha. Conforme observou Praskvia
Fidorovna, o marido estava, naquela noite, mais bem dis-posto
do que costumeiramente, mas, nem por um instante.  ele se
esqueceu de que tinha um importante assunto para tratar - o
seu ceco. As onze horas deu as boas-noites e se recolheu.
Desde que enfermara, dormia sozinho num pe-queno quarto pegado
ao escritrio. Despiu-se, pegou um romance de Zola, mas nem o
abriu - ficou meditando. Em sua imaginao, se operava a to
ambicionada cura - ha-via a acomodao e a absoro e a
atividade dos rgos en-trava na normalidade. "Sim,  assim
mesmo", disse com os seus botes. "Mas  preciso ajudar a
natureza." Lembrou-se do remdio, correu a torn-lo e
deitou-se depois de costas,  espera do efeito, que era
atenuar a dor. "Basta que eu o tome com regularidade e no
faa imprudncias. j  estou me sentindo melhor, muito
melhor." Apalpou o lado - no doa. "Felizmente j  no sinto
mais nada, Estou muito me-lhor, no h  dvida." E apagou a
vela e se virou de lado.  "Sim, a absoro est  se
processando. Breve estarei cura-do." De repente, sentiu nsias
de v"mito. "Meu Deus! Meu Deus!", exclamou de si para si.
"Recomeou! Recomeou!  Nunca desaparecer !" E bruscamente a
coisa se apresentou sob uma face inteiramente outra. "Que
ceco! Que rim!", pensou. "Nada! Nada! Trata-se  da vida e da
morte. Sim, a vida era uma coisa minha e agora ela se esvai,
se esvai, sem que possa impedir. E isso, s isso' Por que me
iludir' No  patente a todos, menos a mim, que eu estou
morrendo e que  apenas uma questo de semanas, de dias,
talvez ago-ra mesmo? Havia luz na minha frente, mas agora s
h  tre-vas. Eu estava no mundo e vou abandon-lo! Para onde
irei?" Um arrepio percorreu-lhe o corpo, a respirao ficou
suspensa e ele s ouvia as batidas do corao.
"Eu deixarei de existir, mas o que haver  depois? Nada.
Ento, onde estarei quando no mais existir? Ser  realmente
a morte? No, no quero morrer!" Soergueu-se, quis acender
a vela, tateou-a no escuro com as mos trmulas, derrubou
o castial, que caiu no cho, deixou-se tombar sobre os
travesseiros. "Por qu? Tanto faz", e perscrutava a escurido
com os olhos arregalados. "A morte. Sim, a morte. E ne~
44
nhum deles sabe nem quer saber e no tem d de mim.
Divertern-sel" (Atravessando a porta fechada, chegava a voz
distante de uma cano e do seu acompanhamento.)---Para
eles tanto faz, inas tambm iro morrer. Bestalhes! Primeiro
vou eu, eles depois, mas passaro pelo mesmo que pas#
       


sei. E, agora, esto alegres Animais!" A raiva sufocou-o, um
peso imenso comprimia seu peito. "No  possvel que todos os
homens estivessem condenados a sofrer um medo assim." E
levantou-se da cama. "Qualquer coisa est  errada.  Tenho que
me acalmar, tenho que pensar em tudo desde o princpio." E
p"s-se a recapitular. "Sim, desde o incio da doena. Bati com
a ilharga, mas no senti grande coisa.  Nem no dia, nem no
outro. Depois doeu um pouquinho, e depois ainda mais.
Consultei os mdicos, veio o abatimen-to, a angstia, outros
mdicos e eu cada vez mais perto do abismo. As minhas foras
diminuram, fui chegando cada vez mais perto, mais perto, e
agora estou liquidado, meus olhos esto baos. A morte est 
na minha frente e eu s penso no ceco. Penso em curar o ceco e
 a morte que vem!  Mas ser  mesmo a morte?" O pnico
novamente se apode-rou dele. Ofegante, abaxou-se, p"s-se a
procurar os fsfo-ros, bateu com o cotovelo na
mesinha-de-cabeceira. Furio-so com a dor que sentiu, atirou-se
contra o mvel que a causara e derrubou-o. Sufocado,
desesperado, caiu de cos-tas, esperando morrer naquele
instante.
No mesmo momento, as visitas se retiravam. Praskvia
Fidorovna as acompanhava  porta. Ouviu o barulho e correu ao
quarto.
* Que  que houve?
* Nada. Derrubei-a sem querer.
Ela saiu e voltou com uma vela. Ele estava estendido de
costas, respirando com dificuldade, tal um homem que houvesse
corrido muitos quil"metros sem parar. Cravou nela um olhar
fixo.
* Que  que voc tem, Jean?
* No no  na  da. Derru  bei-a - ("Para que
falar?jamais ela entenderia", pensou.)
Realmente ela no entendeu. Levantou a mesinha-decabeceira,
apanhou a vela no cho, acendeu-a e saiu apres45
i
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sada, pois tinha que acompanhar outra visita  porta. Quan-do
retornou, ele continuava deitado de costas, os olhos pos-tos
no teto.
* O que  que sente? Voc est  pior?
* Estou.
Ela balanou a cabea e se sentou.
* Sabe duma coisa, Jean~ Eu acho que seria bom a gente chamar
o Lieclitchetchitzki.
Isso significava chamar o clebre especialista, sem olhar as
despesas. Ele sorriu amargamente e respondeu:
"No". Ela permaneceu sentada mais um pouco, depois
le-vantou-se, aproximou-se dele e deu-lhe um beijo na testa. 
Ele odiou-a com todas as foras da alma e, penosamente,
refreou o mpeto de empurr-la.
* Boa noite. Queira Deus que voc durma direito.
* Sim.
       
vi
Ivan Ilitch via que estava se finando e o desespero no o
largava. No fundo da alma, sabia bem que ia morren-do, mas no
s no se acostumava com a idia, como no a compreendia mesmo
- uma absoluta incapacidade de compreend-la.
O exemplo de silogismo que aprendera no compndio de lgica de
Kiesewetter - "Caio  um homem, os homens so mortais, logo
Caio  mortal" - sempre lhe parecera exa-to em relao a Caio,
jamais em relao a ele. Que Caio, o homem abstrato, fosse
mortal, era perfeitamente certo; ele, porm, no era Caio, no
era um homem abstrato, era um ser completa e absolutamente
distinto de todos os demais. Ele fora o pequeno V nia, com sua
mame e seu papai, com Mtia e Voldia, com os brinquedos, o
cocheiro, a ama, de-pois com K tienka e com todas as alegrias,
tristezas e entu-siasmos da infncia, da adolescncia e da
mocidade. Porven-tura conheceu Caio o cheiro da pequena bola
de couro listrado de que V nia tanto gostava? Por acaso Caio
beijava a mo da me como V nia? Era para Caio que a seda do
vesti-do da me fazia aquele frufru? Fora Caio quem
protestara, na escola, por causa dos pastis? Tinha Caio amado
como V nia?  Seria Caio capaz de presidir, como ele, uma
audincia?
"Caio  de fato mortal e, portanto,  justo que morra, mas
quanto a mim, o pequeno V nia, Ivan Ilitch, com todos os meus
sentimentos e minhas idias, o caso  inteiramente Outro. 
impossvel que eu tenha de morrer. Seria demasia-do horrvel."
#
       


I
Era assim que ele sentia.
,,Se eu tivesse de morrer como Caio, liaveria de sab-lo
muito bem. Minha intuio me diria. Mas jamais me disse coisa
alguma. Eu e os meus amigos sabemos que nada te-mos de comum
com Caio. E eis que a morte se apresenta!", pensava. "No pode
ser. No pode, mas est  a! Como?  Como poder  se entender
uma loucura igual?"
No conseguia entender e procurava afastar tal idia
* falsa, anormal, mrbida - valendo-se de outras sensatas e
sadias. Mas aquela idia, ou melhor, aquela realidade,
vol-tava como para enfrent-lo.
Para venc-la procurava convocar uma srie de outras,
esperando encontrar nelas algum apoio. Tentou restabele-cer
uma velha corrente de pensamentos com que anterior-mente
escondia a idia da morte. Mas, estranhamente, tudo quanto
antes escondia, anulava, destrua a conscincia da morte, j 
no surtia efeito. Ivan Ilitch passou, ento, a con-sumir a
maior parte do seu tempo nas tentativas de revigo-rar a
primitiva corrente. Por vezes, dizia consigo mesmo:
"Vou de novo me dedicar ao dever. Antes ele era toda a minha
vida". E ia para o tribunal, escorraando todas as dvidas e
hesitaes. Conversava com os colegas, sentava-se e,
conforme antigo h bito, passava pela assistncia um olhar
distrado, apoiando as mos emagrecidas nos braos da poltrona
de carvalho. Depois virava-se ligeiramente para o assessor,
empurrava-lhe uns autos, trocava em voz baixa algu~
mas consideraes funcionais e, bruscamente, levantando
os olhos, reaprumava-se na poltrona, proferia as palavras
de praxe e abria a sesso. De repente, no meio de um julga~
mento, a dor do lado, indiferente ao processo em curso,
recomeava a sua teimosa ao. Ivan Ilitch voltava a atenao
para ela, tentava enxotar a idia que ela sugeria, mas no o
conseguia. A idia voltava e estacava diante dele, e
encarava-o, e ele ficava lvido, e o brilho se apagava em seus
olhos, e novamente comeava a se interrogar: "Ser  crvel
que somente ela seja verdade?" Os colegas e subalternos
viam, espantados e desgostosos, que ele, um juiz brilhante
e sutil, confundia-se, claudicava. Ele se mexia, esforandose
para se dominar, levava de qualquer maneira a sesso at
o fim e regressava a casa com a dolorosa certeza de que as
suas funes de magistrado no podiam mais esconder, corrio
outrora, aquilo que no desejava ver, nem tinham mritos
bastante para p"-lo a salvo dela. E, o pior de tudo, ela
obrigava~o a concentrar nela toda a sua ateno, no para agir
contra ela, mas to-somente para v-la frente a frente,
incapaz, sofrendo indescritivelmente.
E, para escapar a tal opresso, Ivan Ilitch buscava outras
consolaes, outros tapumes, atr s dos quais conse#
       


guisse se resguardar; mas pouco duravam, desmoronando-se ou se
tornando transparentes e assim permitindo que ela os
atravessasse e nada pudesse encobri~la.
Nos ltimos tempos, se entrava na sala de visitas, que ele
prprio decorara - a mesma em que sofrera a queda, e pela
qual, pensava agora com amarga ironia, sacrificara a vida,
pois sabia que os seus males comearam com aquela pancada - se
entrava, procurava ver se a mesa enver-nizada estava
arranhada. Se estava, investigava a causa e constatava que
fora o enfeite de bronze de um  lbum. Pega-va o rico  lbum,
que ele mesmo amorosamente organizara e ficava indignado com o
desmazelo da filha e das amigas dela, pois ora havia rasges,
ora os retratos estavam coloca-dos de cabea para baixo. Punha
tudo cuidadosamente em ordem e endireitava as cantoneiras de
bronze.
Acudia-lhe a idia de dar um outro arranjo  sala, colo-cando
a mesa com os  lbuns num canto, perto das plantas.  Chamava um
criado, mas a mulher ou a filha se antecipava; no
concordavam, discutiam, a mulher lhe dizia coisas, e ele se
zangava. Mas tudo estava bem, pois se esquecia dela, no a
estava vendo.
Certo dia, quando estava sozinho remexendo alguns objetos, a
mulher observou-o: "Deixe isso para os criados.  Voc pode se
machucar novamente". E eis que ela atraves-sa o tapume e ele a
v. Era apenas uma viso e Ivan Ilitch tinha esperana que ela
logo desaparecesse, mas, involun-tariamente, apalpou o lado
doente - a dor continuava l a verrum-lo. j  no podia
esquec-la e ela, evidenternen-te, o estava espiando por tr s
das plantas. Por qu?
"Ser  que, perto daquela cortina, eu perdi realmente a
,ig
I
#
       


vida como num assalto a uma fortaleza? Ser  mesmo? Como 
terrvel e estpido! No pode ser. No pode ser, mas ."
Ia para o escritrio, deitava-se e novamente ficava a ss com
ela. Cara a cara e sem nada poder fazer, salvo encar-la,
enquanto o corao gelava-se no peito.
44~
vil
Eimpratic vel dizer como se dera aquilo, pois viera passo a
passo, imperceptivelmente. Mas no terceiro ms da doena
aconteceu que a mulher, i filha, o filho, os colegas e
conhecidos, os mdicos, os criados e, sobretudo, o pr-prio
Ivan Ilitch se inteiraram de que todo o interesse que ele
podia despertar nos outros consistia em saber quando abri-ria
uma vaga, quando descansariam os vivos da angstia que causava
a sua presena, e quando ele mesmo iria se li-vrar dos seus
padecimentos.
Dormia cada vez menos. Davam-lhe pio por via oral e injees
hipodrmicas de morfina, sem que o aliviassem.  A vaga
angstia que sentia na sonolncia trouxe-lhe a prin-cipio um
certo relaxamento, mas apenas como novidade, pois logo se
tornou to penosa quanto a dor pura e simples, talvez at
mais.
De acordo com a determinao mdica, tinha uma ali-mentao
especial, que cada dia se tornava para ele mais insossa e
nauseante.
Para as suas excrees havia tambm providncias es-peciais
que as tornavam em verdadeiro suplcio, pela incon-venincia
do ato, pela sujeira, pelo mau cheiro e pela humi-lhante e
obrigatria ajuda de uma pessoa.
Mas foi exatamente graas a to penosa circunstncia que Ivan
Ilitch experimentou um dado consolo. Quem sempre vinha limpar
o vaso era o camareiro Guer ssim.
Tratava-se de um jovem mujique, asseado e saud vel, que
engordara um pouco com a comida da cidade, se mostrava
#
       


I
I
~ I
sempre bem-humorado. No comeo, Ivan Ilitch ficara
constrangido com a presena daquele homem limpo, na sua branca
roupa de campons, desempenhando um ser-vio to nojento.
Um dia, quando se levantou do vaso, no teve foras para
suspender as calas, deixou-se cair numa poltrona e ficou
horrorizado olhando para as coxas nuas, bambas, descarnadas,
cujos msculos desenhavam-se nitidamente sob a pele. Foi nesse
instante que entrou Guer ssim, num passo ligeiro e firme, com
suas grossas botas, que espalha-vam ao redor um cheiro bom de
alcatro e uma frescura de inverno. Trazia um avental
listrado, uma camisa muito branca, de algodo, e as mangas
arregaadas mostravam um par de braos jovens e slidos.
Aproximou-se da ca-deira furada na qual se encaixava o vaso,
sem olhar para o amo enfermo, a fim de no ofend-lo com a
alegria de vi-ver que ostentava no rosto.
* Guer ssim - chamou fracamente Ivan Ilitch.
O rapaz estremeceu, visivelmente temeroso de que houvesse
cometido algum descuido, e rapidamente volveu o rosto fresco,
bondoso, simples e quase imberbe.
* Que deseja, senhor?
* Deve ser muito desagrad vel para voc. Desculpe-me. Mas eu
no posso me limpar.
* Que desagrad vel coisa nenhuma' - Os olhos de Guer ssim
cintilaram e ele mostrou a dentadura alvssima:
* 1
* O senhor est  doente, no est ? Portanto nao e mais do que
a minha obrigao.
E, com as mos ageis; e rudes, desempenhou a tarefa, saindo
logo depois com o vaso. No demorou muito a vol-tar e
encontrou o amo ainda sentado na poltrona.
* Venha c , Guer ssim, - disse Ivan Ilitch, depois que o outro
recolocou o vaso lavado na cadeira furada.  Ajude-me por
favor.
Guer ssim acercou-se.
* Levante-me. Sozinho,  muito difcil para mim, eu mandei o
Dmtri embora.
Guerssim segurou-o com seus braos fortes, suspendeu-o
cuidadosamente, e, sustentando-o num brao s,
con a outra mo levantou-lhe as calas. Ia sent-lo
nova-mente, quando Ivan Ilitch pediu que o levasse para o
div, Sem esforo, amparando-o suavemente, Guer ssim carre-gou
o doente para o div, onde o deixou.
#
       


* Muito obrigado. Como voc faz tudo com facilida~ de. E faz
bem!
Guerssim esboou um sorriso e virou-se para ir em-bora. Mas
Ivan Ilitch sentia-se to bem com ele que quis ret-lo.
* Outra coisa, por favor. Chegue esta cadeira para junto de
mim. No, a outra. Ponha as minhas pernas em cima dela.
Sinto-me melhor com os ps mais altos.
Guer ssim trouxe a cadeira, pousou-a no cho sem fa-zer
barulho e, delicadamente, colocou as pernas de Ivan Ilitch
sobre a cadeira. O doente teve uma sensao de al-vio, quando
Guer ssim levantou-lhe os ps.
* Sinto-me muito melhor quando meus ps esto mais alteados -
disse, - Ponha mais uma almofada.
Guer ssim obedeceu. Levantou novamente as pernas do amo,
ajeitou a almofada, deixou-as repousar cautelosa-mente. Outra
vez, Ivan Ilitch sentiu-se melhor, quando lhe suspendiam as
pernas e, quando Guer ssim as largou, teve a impresso de que
piorava.
* Guer ssim, voc estava ocupado?
* Nem um pouco, senhor - respondeu Guer ssim,
       
que aprendera com a gente da cidade a falar com os pa-tres.
* Que  que voc tem ainda a fazer?
* O que tenho a fazer, senhor? j  fiz tudo. S falta pi-car
um pouco de lenha para amanh.
* Se  assim, fique segurando um pouco meus ps no alto Pode
ser?
* Como no?
Guer ssim manteve mais altas a~ pernas do amo e Ivan Ilitch
achou que em tal posio no sentia dor nenhuma.
* E a lenha, como vai ser?
* No se preocupe, senhor. Eu arranjarei tempo.
Ivan Ilitch ordenou a Guer ssim que se sentasse, segurando-lhe
as pernas, e puxou conversa com ele. E, curioso,
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53
#
       


tinha impresso de que passava sensivelmente melhor en~ quanto
Guer ssim sustinha no alto as suas pernas.
Desde a, Ivan Ilitch costumava chamar Guer ssim, obrigando-o
a manter seus ps sobre os ombros - ficando de prosa com ele.
Gurassim prestava-se a isso de bom gra-do, com tanta
singeleza e bondade que Ivan Ilitch ficava co-movido. A sade,
a fora, a vitalidade de outros ofendiam Ivan Ilitch, mas o
vigor e a energia de Guer ssim, longe de mortific-lo,
acalmavam-no.
O que mais fazia Ivan Ilitch sofrer era a mentira, aque-la
mentira aceita por todos, no sabia por qu, de que ele se
encontrava apenas doente e no moribundo, e que seria
su-ficiente repousar e seguir  risca o tratamento para
arribar.
E, no entanto, sabia perfeitamente que, por mais coisas que
fizesse, tudo seria intil e os sofrimentos se prolongariam,
ainda mais cruis, at a morte. E a mentira o atormentava
pelo fato de no quererem admitir uma coisa que todos
viam claramente, inclusive ele e, descaradamente mentindo,
o obrigassem a participar daquela farsa. Aquela mentira,
que lhe era pregada nas portas da morte, aquela mentira
que rebaixava o solene e terrvel desenlace ao nvel das
suas visitas, das suas cortinas, do esturjo que comera no
jantar, era horrivelmente dolorosa para Ivan Ilitch. E, coisa
estranha, quando eles  sua volta comeavam com tais
fingimentos, mil vezes teve vontade de desmascar-los: "Chega
de embustes! Vocs sabem, to bem quanto eu, que estou
morrendo! No quero mais ouvir mentiras!" Mas nunca
teve nimo de faz-lo. o monstruoso, o horrendo ato da
morte - bem o via - era por todos rebaixado ao nvel de
um incidente fortuito, desagrad vel, quase inconveniente
(mais ou menos como se trata algum que entrasse numa
sala, tresandando a catinga), e tudo era praticado em nome
daquela decnc.ia, que ele tanto defendera durante toda a
vida. Via que ningum tinha piedade dele, porque ningum
tentava sequer compreender a sua situao. Somente
Guer ssini compreendeu-o e compadeceu-se. E era por isso
que Ivan Ilitch s se sentia hern na companhia dele.
Mostrava-se aliviado clinindo Guer ssim segurava-lhe as
pernas, as
c~ vezes por uina noine inteira, e se recusava a ir para a
cama:
5-i
a~ se incomode por minha causa, Ivan Ilitch, Eu darei um
jeito de dormir"; ou quando, subitamente passando  intimidade
e tratando-o por "tu", acrescentava: "Se no estivesses
doente, seria outra conversa; mas, no estado em que est s,
por que no te ajudar um Pouco?" Guer ssim era o nico
que no mentia e tudo indicava que tambm era o nico a
compreender plenamente o que se passava e no considerava
necessrio ocult-lo, singelamente condoa-se do pa#
       


tro to fraco e esqueltico. Uma vez at, disse com toda a
franqueza, quando Ivan Ilitch mandou que ele fosse des-cansar:
"Toclos ns temos de morrer um dia. Por que no me sacrificar
um pouco agora?", e com tais palavras queria explicar que no
considerava pesado o seu trabalho, justa-mente por ser feito
para um moribundo, e confiava que me-recesse o mesmo quando
chegasse a sua vez.
Alm daquela mentira, ou resultante dela, o que tam-bm
atormentava Ivan Ilitch era que ningum o lastimasse conforme
gostaria de ser lastimado. Momentos havia, depois de demorados
sofrimentos, em que queria acirria de tudo, por mais que se
envergonhasse de confess-lo, ver-se tratado como se fosse uma
criana doente. Queria ser acarinhado, mimado, beijado, tal
como se faz com as crianas. Sabia que era um juiz importante,
dono j  de uma barba grisalha e que por isso mesmo o que
ambicionava era impossvel, mas ain-da assim ambicionava. E no
comportamento de Guer ssim para com ele havia qualquer coisa
prxima daquilo que queria e de tal forma sentia-se um pouco
confortado. Ivan Ilitch queria chorar, queria ser acariciado e
consolado, mas quando chegava o seu colega Chebek, em vez de
l grimas e enterne-cimentos, Ivan Ilitch punha no rosto uma m
scara de serieda-de, dignidade e profundeza e, pela fora do
h bito, trocava opinies sobre determinado acrdo da Corte
de Apelao e obstinadamente defendia seu ponto de vista. A
falsidade  sua volta e dentro dele envenenou mais do que tudo
os seus derradeiros dias.
N~
#
       


vM
I
Era de manh. Ele sabia que era de manh unicamen-te porque
Guer ssim se fora e o criado Piotr viera apagar as velas,
levantar as cortinas e silenciosamente comear a arru-mao do
quarto. Fosse manh ou noite, sexta-feira ou do-mingo, no
havia diferena, tudo era igual para Ivan Ilitch: a dor surda,
implac vel, incessante; a sensao de que a vida no parava de
fugir; a certeza de que a odiosa e temida morte se aproximava
como a nica realidade; e sempre a mesma mentira. Que
importncia tinham, portanto, as se-manas, os dias, as horas?
* O senhor quer que sirva o ch ?
"Ele  ordeiro e acha que os patres precisam tomar ch  de
manh", pensou Ivan Ilitch, e respondeu apenas:
* No.
* O senhor no quer passar para o div?
"Ele precisa arrumar o quarto, mas eu o atrapalho. Sou a
sujeira e a desordem", pensou, e disse somente:
* No, deixe~me aqui.
O criado continuou nos arranjos. Ivan Ilitch estendeu a mo.
Piotr acercou-se, solcito:
* Que deseja o senhor?
* Meu relgio.
Piotr apanhou o relgio, que se encontrava bem  mo de Ivan
Ilitch, e entregou-o ao amo.
* Oito e meia. j  se levantaram?
* Ainda no, senhor, a no ser Vasslii Iv novitch era o filho
-, que foi para o colgio. Mas Praskvia
       
56
Fidorovna deu ordem para que a acordassem se o senhor a
chamass~uer que eu a acorde?
* No. No  preciso. - "Talvez fosse bom eu tomar um ch ",
pensou. E pediu: - Bem, traga-me o ch .
Piotr encaminhou-se para a porta. Ivan Ilitch teve medo de
ficar s. "Como ret-lo? Ah, o remdio!"
* Piotr, me d a poo. - E pensou: "Por que no?
Talvez me faa bem."
Tomou uma colher cheia. "No. No adianta nada.  Tudo 
bobagem, tapeao", e o gosto enjoado, desespe-rante, que to
bem conhecia. "No. No acredito em mais nada! Mas por que
aquela dor? Que bom se ao menos pa-rasse um pouquinho." E
gemeu. Piotr virou-se.
* No v  embora. Traga-me o ch .
Piotr foi busc-lo. S, Ivan Ilitch gemia, no tanto da
dor, por mais insuport vel que fosse, mas de aflio. "E
sempre a mesma coisa, a mesma, por dias e noites interrni#
       


n veis. Se ao menos viesse mais depressa Mais depressa o qu?
A morte, a treva? No, no! Tudo, menos a morte!"
Quando Piotr voltou com a bandeja do ch , Ivan Ilitch olhou-o
longamente, perplexo, sem compreender quem era ele e o que
fazia ali. Piotr ficou perturbado com aquele olhar e Ivan
Ilitch se recompos.
* Ah, o ch  Muito bem, ponha-o aqui. Mas me aju-de primeiro a
me lavar e me arranje uma camisa limpa.
E Ivan Ilitch comeou a se lavar. Fazendo inmeras pausas,
lavou as mos e o rosto, escovou os dentes, pen-teou os
cabelos e mirou-se no espelho. Assustou-se ao ver a sua
imagem, principalmente os cabelos escorrendo, lisos, na testa
lvida.
Ao mudar a camisa, no tinha dvida de que ainda fi-caria mais
assustado ao ver o seu corpo, e desviou o olhar do espelho.
Afinal, se aprontou. Pusera o roupo, cobrira-se com a manta e
sentara-se na poltrona para tomar o ch . Por um momento,
sentiu-se refrescado, mas, mal comeou a to-mar o ch , sentiu
voltar o mesmo gosto e a mesma dor. Foi com grande esforo que
acabou de tom-lo. Deitou-se de-pois, estendendo as pernas, e
dispensou Piotr.
A coisa no mudava. Se brilhava um raio de esperana,
i
#
       


logo vinha um tempestuoso mar de desespero e sempre aquela
dor, sempre aquela agonia invariavelmente. Sozi-nho, sente uma
aflio tremenda, tem vontade de chamar algum, mas sabe de
antemo que se viessem ainda seria pior. "Mais uma dose de
morfina seria bom para me tontear, esquecer tudo. Vou pedir ao
mdico que me arranje qual-quer coisa.  impossvel,
impossvel continuar deste jeito."
Uma, duas horas se escoam assim. Eis que a campai-nha toca.
"Ser  o mdico?" . Chega fresco, gordo, jovial, com o ar de
quem diz: "Esto se assustando  toa. Num mi-nutinho vou botar
tudo nos eixos". Sabe perfeitamente que tal ar no tem o menor
cabimento ali, mas fixou-o  sua indumentria e no pode
dispens-lo, assim como um homem que vestiu de manh o seu
fraque para fazer visitas.
Esfrega as mos, decidido e tranqilizador:
* Que frio! Est  nevando que no  brincadeira! Deixe-me
esquentar-me um pouco! - diz como se bastasse ele se reaquecer
para resolver tudo.
* Muito bem. Como vai?
Ivan llitch tem a ntida impresso de que o mdico gostaria de
dizer: "Como vo os negcios?" Como isso, porm, no tem
propsito ali, diz:
* Como passou a noite?
Ivan Ilitch olha o mdico, como a perguntar: "Ser  cr-vel que
voc no tenha vergonha de mentir?" Mas o mdico no quer
saber de tal pergunta e Ivan llitch se queixa:
* To mal como ontem. A dor no cessa. Se fosse possvel fazer
alguma coisa para atenu-la
"Todos os doentes so a mesma coisa Bem, agora j estou com
as mos quentes. At Praskvia Fidorovna, que  to exigente
em matria de mos frias, nada teria a dizer das minhas. Posso
j  cumprii-nent-lo." E o mdico aperta a mo do paciente.
E, a, opera~se nele uma transformao. No  mais o
cavalheiro jovial. Pe-se circunspecto e comea a examinar o
enfermo. Toma-lhe o pulso e a temperatura, ausculta-o, faz a
percusso.
lvan llitch sabe perfeitamente que tudo aquilo  bobagem,
mentira sem sentido. Mas quando o mdico se ajoelha
r~,s
e se inclina Sobre ele, encostando o ouvido aqui e ali,
exe-Cutando, com o arWlaiS serio, uma serie de movimentos de
ginastica, Ivan Ilitch submete-se a tudo, tal como se
entre-gava aos discursos dos advogados, ciente muito bem de
que todos mentiam e no ignorando por que mentiam.
o mdico, vergado sobre o div, continuava a
examin-lo, quando o ruge-ruge do vestido de seda de
praskvia Fidorovna anunciou a entrada dela no quarto.
imediatamente, ela ralhou com Piotr por no lhe ter comu#
       


nicado a chegada do doutor. Beija depois o marido, e co-mea a
provar que Ja se levantara h  muito tempo e que so-mente
devido  falta do criado no se encontrava ali quando o doutor
chegara.
Ivan Ilitch olha-a de alto a baixo, censurando intima-mente a
brancura e a maciez da pele, o brilho dos cabelos, o fulgor
dos olhos vivazes. Odeia-a com todas as fibras do corao. E o
seu contato provoca nele um assomo de raiva que lhe aumenta o
sofrimento.
A atitude dela, em relao a Ivan Ilitch e  doena dele, no
se modificou. Da mesma maneira que o clnico estabele-cera
para com os seus clientes uma linha de conduta, da qual no
podia se afastar, ela tambm traara uma - a de dizer que Ivan
Ilitch fazia tudo ao contrrio do que devia ser feito, sendo,
portanto, passvel de censura, e ela, em tom amig vel, no
deixava de censur-lo. E de tal linha no recuava um p.
* Ele no obedece a ningum, doutor! No toma a medicao nas
horas certas. E, sobretudo, fica numa posi-o que
positivamente no pode lhe fazer bem: de pernas para cima.
E contou que ele obrigava Guerssim a ficar manten-do-lhe as
pernas suspensas. O mdico teve um sorriso de af vel
superioridade, que parecia traduzir: "Que vamos fa-zer! Os
doentes tm a mania de inventar uma infinidade de asneiras.
Mas devemos desculp-los".
Terminado o exame, o doutor consultou o seu relgio e ento
Praskvia Fidorovna comunicou a Ivan Ilitch que, quer ele
fizesse cara feia ou no, j  mandara chainar certo famoso
especialista para unia conferncia com Mikhail DamlovitcIi (o
indico da famlia).
51)
#
       


-  favor no p"r objees. Fao isso por mim mesma
* disse com ironia, dando a entender que fazia tudo pelo
esposo, o que no deixava a ele o direito de recusar.
Ele no abriu o bico, limitando-se a franzir as sobran-celhas.
Sentia que a fraude tecera em volta dele um tal ema-ranhado
que j  era impratic vel ver claro.
Tudo quanto Praskvia Fidorovna fazia por ele era unicamente
visando ao seu prprio interesse; mas, ao afir-mar, frisando-o
bem, que o fazia por si mesma, cuidava que ele tivesse a
obrigao de compreend-la ao contrrio.
Realmente, s onze e meia chegou o famoso especialis~ ta.
Recomearam as auscultaes e percusses entremeadas de
consideraes cientficas, ora na presena do enfermo, ora no
aposento contguo, sobre o rim e o ceco, que no funcio-navam
corretamente. E foi uma chuva de perguntas e respos-tas, em
tom solene, em que a questo da vida ou da morte de Ivan
Ilitch no interessava absolutamente nada - o que im-portava
exclusivamente era a questo de o rim e o ceco se comportarem
rebeldemente, mas que o clebre facultativo e Mikhail
Damlovitch prometiam colocar no bom caminho.
O famoso especialista despediu-se com ar grave, mas no
desencorajador. E, quando Ivan Ilitch perguntou-lhe
ti-midamente, os olhos brilhando de temor e esperana, se
havia qualquer possibilidade de cura, respondeu que no
poderia garantir, mas que sempre havia uma probabilidade.  O
olhar esperanoso com que Ivan Ilitch acompanhou o mdico at
a porta era to pattico que Praskvia Fidorovria no p"de
conter as l grimas ao pagar os hono-rrios da celebridade no
escritrio.
Pouco durou a confiana inspirada pelas palavras do
especialista. Novamente o mesmo quarto, o mesmo papel de
parede, os mesmos quadros, cortinas, vidros de rem-dios, o
mesmo corpo sofredor. E Ivan Ilitch comeou a ge-mer.
Aplicaram-lhe uma injeo de morfina e ele tombou num estado
de torpor.
Quando tornou a si, j  escurecia. Serviram-lhe o jantar.  Com
dificuldade engoliu o caldo. E novamente a noite sem-pre
igual.
Aps o jantar, s sete horas, Praskvia Fidorovna entroi,
60
no quarto em vestido de noite, o cheio busto comprimido num
espartilho, o rosk@ empoado. Pela manh avisara-o de que
ti-nham de ir ao teatro. Sarah Bernhardt apresentava-se na
cida-.de e eles haviam comprado um camarote por insistncia do
prprio Ivan Ilitch. Ele se esquecera e o vestido de gala da
mu-lher ofendeu-o, porm escondeu o amargor ao lembrar que a
~tiva da reserva do camarote partira dele mesmo, achando que
seria um espet culo esttico e educativo para os filhos.
Praskvia apareceu muito satisfeita, mas ao mesmo tem#
       


po com um certo qu de culpa. Sentou-se um instante e inda-gou
do seu estado, mas, segundo ele percebeu, apenas por
formalidade, pois sabia plenamente que ele continuava na ~ma.
E logo entrou a falar naquilo que de fato queria: que de
nenhum modo pretendia ir, mas que o camarote j  estava
comprado, que iriam tambm Helena, Lisanka e Pietrichtchov (o
juiz de instruo, pretendente da filha) e que no ficaria
di-mito deix-los ir sozinhos; que para ela seria muito mais
agra-d vel ficar ao lado dele; e que no se esquecesse de
seguir, na sua ausencia, as prescries do mdico.
* Ah, uma coisa, Fidor Pietrichtchov - o pretenden-te -
gostaria de v-lo. E Lisa tambm. Podem?
* Est  bem.
A filha veio, elegantemente vestida, decotada, exibin-do o
corpo. Era forte, sadia, visivelmente apaixonada, e irri-tada
com a doena, os padecimentos e a perspectiva da morte, porque
perturbavam a sua felicidade. Fidor Pietrichtchov entrou em
seguida, de traje a rigor, cabelo fri-sado  Ia Capou4 o
pescoo de veias salientes entalado num alto colarinho branco,
um largo peitilho tambm engo-mado, as calas pretas muito
justas nas pernas musculosas, luvas brancas numa das mos e,
na outra, a claque. Atr s dele, escondia-se o colegial, metido
num uniforme novo em folha, pobrezinho, de luvas, as olheiras
arroxeadas, cuja sig-nificao Ivan Ilitch sabia muito bem.
O filho sempre lhe parecera lastim vel. E era atroz ver agora
o olhar dele, assustado e compadecido. Parecia a Ivan Ilitch
que, alm de Guerssim, o menino era a unica Pessoa que o
compreendia e tinha pena dele.
Todos se sentaram e perguntaram como ia. Depois, um
61
#
       


silncio. Lisa interrogou a me sobre o binculo. Houve un
breve bate-boca entre me e filha, que se acusavam mutua mente
de t-lo perdido, o que gerou um sensvel mal~estar.
Fidor Pietrichtchov perguntou a Ivan Ilitch se ele j vira
Sarah Bernhardt. No primeiro momento Ivan Ilitch n(
compreendeu a pergunta, mas depois respondeu:
* No. E voc j  viu?
* Sim. j  vi. Em AdtIenne Lecouvreur.
Praskvia Fidorovna referiu-se a alguns papis que Sarah
Bernhardt desempenhara magnificamente. A filha dis-cordou. A
conversa, ento, recaiu sobre a elegncia e o rea-lismo que a
atriz imprimia a certas cenas, e tomou o rumo de todas as
conversas de tal natureza.
No meio da conversao, Fidor Pietrichtchov deitou um olhar a
Ivan Ilitch e calou-se. Os outros tambm olharam para o
enfermo e ficaram silenciosos. Ivan Ilitch enfrentou-os com os
olhos brilhando, visivelmente indignado. Era uma situao
pe-nosa - o silncio tinha de ser quebrado. Mas ningum se
deci-dia, medrosos todos de que a convencional mentira ficasse
evi-dente e que imperasse a dura realidade. Lisa tomou,
afinal, a iniciativa, mas ao tentar ocultar o que todos
sentiam traiu-se.
* Bem, j  que temos de ir, est  na hora - disse con-sultando
o relgio, que fora presente do pai, e trocando com o jovem um
imperceptvel sorriso, cujo significado so-mente os dois
sabiam.
E levantou-se num frufru de sedas. Todos a imitaram, deram as
boas-noites e se foram.
Quando se viu s, Ivan Ilitch foi tomado por um breve alvio:
a falsidade sara com eles. Mas ficara a dor, a mesma dor e o
mesmo pavor que tornavam tudo to monotona-mente semelhante.
Os minutos tornaram a seguir-se a outros muitos, as horas a
outras horas, sempre na mesma toada, e o fim inevi-tvel
parecia cada vez mais prximo.
* Sim, mande c  o Guer ssim - respondeu a uma pergunta de
Piotr.
       
V
inascA mulher voltou tarde. Entrou nas pontas dos ps,
le ouviu. Abriu os olhos e logo fechou-os de novo. Ela
       quis                                  mandar Guer ssim
embora e ficar junto dele. Ivan
       Ilitch                                abriu os olhos e
disse:
* No. V  dormir.
* Est  doendo muito?
* Como sempre.
* Tome um pouco de pio.
Ele concordou e ingeriu a poo. A mulher saiu.
At perto das trs horas, permaneceu imerso num penoso
entorpecimento. Parecia-lhe que o empurravam dolo-rosamente
para dentro de um saco preto, estreito e fundo;
#
       


       
foram-no, mas no consegue passar pela boca do saco; est 
apavorado, porm, quer cair l  dentro, como para se li-vrar
da terrvel dor que sente; luta, luta, cooperando, e, de
repente, o saco se rompe, ele cai e torna  realidade.  Guer
ssim permanece sentado no p da cama, cochilando, calmo e
paciente, enquanto ele est  estendido de costas, os ps,
magros, calados de meias, se apiam nos ombros do criado. A
vela continuava a se queimar no castial. E a dor persistia.
* Pode ir dormir, Guer ssim - sussurrou.
* No estou cansado, senhor. Posso ficar mais um pouco.
* No. Pode ir.
Tirou os ps da c"moda posio, deitou-se de lado sobre um
brao e teve pena de si mesmo. Aguardou, apenas,
63
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que Guer ssim deixasse o quarto para, incontidamente, de-satar
em pranto. Chorava a sua impotncia, a sua terrvel so-lido,
a crueldade dos homens, a crueldade de Deus, que o abandonava.
"Por que me reduziste a isto? Por que me trouxeste ao mundo?
Com que fim me martirizas tanto?"
No esperava resposta, e mais chorava porque no ha-via nem
podia haver resposta. A dor fez-se mais aguda, mas no se
mexeu, nem chamou ningum. Ouvia uma voz den-tro dele: "Est 
bem, continua! Bate-me com mais fora! Mas por que razo? O
que foi que eu Te fiz? Por qu?"
Depois, sossegou, deixou de chorar, prendeu a respi-rao,
ficou atentamente ouvindo a voz que vinha silencio-samente, a
voz da sua alma, a torrente de pensamentos que dentro dele se
acumulara.
"O que  que tu queres?", foi a primeira coisa que ou-viu,
claramente. "O que  que tu queres9 O que  que tu queres?",
repetiu. E respondeu: "O que eu quero  viver. Vi-ver sem
sofrer."
E novamente prestou ateno e to concentradamente que nem a
dor o desviava.
"Viver? Como?", perguntou a voz interior. "Ora, viver como
sempre vivi. Bem, agradavelmente", respondeu. "Como viveste
antes, bem e agradavelmente?", tornou a voz.
E ele comeou a repassar na imaginao os melhores momentos da
sua vida. Mas - coisa estranha! - tais mo-mentos no lhe
pareciam agora to agrad veis como cuida-va que fossem, salvo
as primeiras recordaes da infncia.  Na meninice, sim, havia
certas coisas verdadeiramente pra-zenteiras, que gostaria que
se repetissem se pudesse viver outra vez. Mas aquele menino
estava morto, era como a re-miniscncia de uma outra pessoa.
Quando entrou a repassar o perodo que gerara o atual Ivan
Ilitch, tudo o que lhe parecera ser alegria se desmoro-nava
ante seus olhos, reduzindo-se a algo desprezvel e vil.
E quanto mais longe da infncia e mais perto do presente,
tanto mais as alegrias que vivera lhe pareciam insignificantes
e vazias. A comear pela faculdade de direito. Nela conhecera
alguns momentos realmente bons: o contentarnen64
to, a amizade, as esperanas. Nos ltimos anos, porm, tais
momentos j  se tornavam raros. Depois, no tempo do seu
primeiro emprego, junto ao governador, gozara alguns belos
momentos: amara uma mulheSEm seguida tudo se embrulhou e bem
poucas eram as coisas boas. Para adiante,
ainda menos. E, quanto mais avanava, mais escassas se faZiam
elas. Veio o casamento, um mero acidente e, com ele,
a desiluso, o mau h lito da esposa, a sensualidade e a
hipocrisia. E a montona vida burocrtica, as aperturas de
dinheiro, e assim um ano, dois, dez, vinte, perfeitamente
idnticos. E,  medida que a existncia corria, tornava-se
mais oca, mais tola. " como se eu estivesse descendo uma
montanha, pensando que a galgava. Exatamente isso. Perante a
opinio pblica, eu subia, mas, na verdade, afunda-va. E agora
cheguei ao fim - a sepultura me espera.
"Mas o que significa isso, afinal? Por qu? Impossvel! A vida
no pode ser assim to sem sentido e nojenta! Mas, se ela foi
to nojenta e sem sentido, por que devo eu morrer e morrer
sofrendo? Alguma coisa, positivamente, est  errada!"
"Talvez eu no tenha vivido como deveria", acudiu-lhe
de sbito. "Mas de que sorte, se eu sempre procedi como
era preciso?" - e imediatamente afastou a nica hiptese
possvel para o enigma da vida e da morte,
"E o que queres agora? Viver? Viver de que maneira?  Viver
como viveste no tribunal, quando o oficial de justia
anunciava: - Est  aberta a sesso!" " Est  aberta a
ses-so!", repetiu. "O julgamento vai comear. Mas eu no sou
culpado!", exclamou, indignado. "Por qu?"
E parou de chorar. Com o rosto voltado para a parede, p"s-se a
martelar a mesma coisa: Por qu? Para que tal hor-ror? Mas,
por mais que repisasse a questo, no encontrava soluo. E
quando lhe vinha a idia de que no vivera como deveria, o que
amiudadamente acontecia, lembrava-se logo da correo da sua
vida e repelia o inslito pensamento.
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Mais uma quinzena se escoou. Ivan Ilitch j  no dei-xava o
div. No queria ficar na cama. E quase todo o tem-po, com o
rosto voltado para a parede, sofria solitrio os mesmos
insolveis tormentos, martirizava-se com o mesmo insolvel
problema: "O que  isso? Ser , realmente, a mor-te?" E a voz
interior lhe respondia: "Sim,  a morte". "Mas para que tanto
sofrimento?" E a voz tornava a responder:
"Para nada. Alm disso no h  nada".
Desde a primeira consulta ao mdico para ver o que tinha, a
vida de Ivan Ilitch dividira-se em dois estados de esprito,
opostos e alternados: ora desespero e expectativa de uma morte
absurda e atroz, da qual nada o salvaria, ora esperana e
acurada observao dos seus rgos, que se recusavam a
funcionar regularmente. E, quanto mais pro-gredia a doena,
mais ilusrias e fant sticas eram as suas esperanas no rim e
no ceco, e mais real o sentimento da morte iminente.
Era suficiente comparar o que fora h  trs meses com o que
era agora e, da simples constatao da derrocada, vi-nha a
certeza de que se afastava de qualquer possibilidade de
salvao.
Nos ltimos tempos da sua solido, solido no meio
de uma grande cidade, cercado por inmeros amigos e parentes e
que no poderia ser mais completa nem mesmo no
fundo do mar ou nas entranhas da terra, na sua terrivel
solido, Ivan Ilitch, com o rosto voltado para o encosto do
div, vivia somente das recordaes do passado. Diante
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dele, um aps outro, surgiam os acontecimentos antigos. 
comeava sempre pelo mais prximo no tempo, ia depois se
transportando para os mais reJotos at que chegava  infncia,
onde parava. Se Ivan Ilitch pensava nas ameixas cozidas que
lhe serviram naquele dia, vinham-lhe logo  memria as ameixas
secas da sua infncia, muito enruga-das, com um gosto todo
especial e que provocavam uma abundante saliva quando mordido
o caroo; e a lembrana desse gosto desencadeava uma sequencia
de outras daque-la poca: a ama, o irmo, os seus brinquedos.
"No devo pensar em tais coisas.  triste demais", pensava, e
voltava ao presente e, bem diante dos olhos, estavam o boto
no encosto do div e as pregas do marroquim. "O marroquim 
caro e pouco dur vel e ns discutimos bastante a respeito. 
Mas houve um outro marroquim e uma outra discusso, quando
rasgamos a pasta de meu pai, fomos castigados e mame nos
trouxe bolos s escondidas_" E novamente se detinha na
infncia, mas as lembranas lhe eram dolorosas e procurava
afast-las pensando em outra coisa.
Paralela a essa cadeia de recordaes, perpassava em
seu esprito uma outra, relacionada com a evoluao e o
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agravamento da doena. Tambm a,  medida que remon-tava no
tempo, se via mais vivo. Havia mais bondade na existncia e a
vida, propriamente dita, era mais vida. O bem e a vida se
fundiam. "Assim como a dor tem sido cada vez pior, tambm a
minha vida fica cada vez pior", pensava. "S um ponto
luminoso, l  longe, no comeo da vida. Depois tudo se torna
negro, cada vez mais negro e mais r pido, na razo inversa do
quadrado da distncia da morte." E a ima-gem da pedra que rola
com crescente velocidade calou-lhe na mente. A vida, uma srie
de sofrimentos crescentes, rola-va cada vez mais veloz para o
seu termo, para o ltimo e mais terrvel sofrimento. "Eu estou
rolando" Sobressalta-Va-se, agitava-se, tentava lutar, mas j 
sabia que qualquer resistncia era impossvel e, de novo, com
os olhos fatiga-dos, mas incapazes de deixar de ver aquilo que
estava dian-te deles, fixava o encosto do div e aguardava a
medonha queda, o choque, o aniquilamento.
"No se pode resistir", pensou. "Se ao menos pudesse
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i
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entender por qu? Mas tambm no posso. Talvez houvesse uma
explicao, se se pudesse admitir que eu no vivi como
deveria. Mas  absolutamente inadmissvel", e se lem-brava da
honestidade, da correo, da decncia de sua vida. 
"Absolutamente inadmissvel", repisava, sorrindo levemen-te,
como se algum pudesse ver o seu sorriso e se iludir com ele.
"No h  explicao' Os sofrimentos, a morte  Para qu?"
Outras duas semanas transcorreram, no meio das quais ocorreu
aquilo que Ivan Ilitch e a esposa tanto dese-javam:
Pietrichtchov fez um pedido formal de casamento.
Foi de noite. No dia seguinte, Praskvia Fidorovna entrou no
quarto do marido pensando na melhor maneira de
lhe comunicar o acontecimento, mas deu-se que naquela
noite se agravara o estado dele. Encontrou-o no div, nias
numa posio diferente: de costas e olhando fixamente para o
alto.
Comeou a lembrar-lhe os remdios; ele, porem, virou o . s
olhos para ela, que no terminou a frase, tal o dio que se
lia naquele olhar, muito especialmente contra ela.
* Pelo amor de Jesus Cristo, deixe-me morrer em paz! - falou.
Ela ia se retirar, mas, no exato momento, entrou a Pilha
para dar bom-dia. Olhou-a do mesmo jeito que olhara a inulher,
e, como ela indagasse como ele ia, respondeu com secura que
bem depressa todos ficariam livres dele. As mulheres ficaram
mudas e, aps se sentarem um pouco, saram.
* Que culpa  a nossa? - disse Lisa  me. - No fomos ns que
inventamos a doena! Tenho pena de papai,
       
mas por que razo ele nos atormenta assim?
Na hora costumeira, o mdico veio. Ivan Ilitch respon~ dia
apenas "sim" e "no", sem tirar dele os olhos pesados de
rancor. Por fim disse:
* o doutor est  farto de saber que no pode fazer nada por
mim. Ento, me deixe quieto.
       
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I
* Podemos aliviar os seus sofrimentos.
* No podem, no. Deixem-me!
o mdico foi para a sala de visitas e comunicou a Praskvia
Fidorovna que as coisas iam mal e que s lhe restava o
recurso do pio para abrandar as dores, que se-riam tremendas.
No mentia o doutor, mas as dores morais de Ivan Ilitch eram
infinitamente piores do que as fisicas. Resultavam do fato de,
naquela noite, ao contemplar o rosto de Guer ssim, sonolento,
bondoso, de mas salientes, acudira-lhe  mente a seguinte
indagao: "E se toda a minha vida, a minha vida consciente,
tivesse sido realmente errada?"
Ponderou que aquilo que antes acreditava ser total-mente
impossvel, isto , no ter vivido como deveria, po-dia ser
verdade. Considerou que as pequeninas tentativas que fizera,
tentativas quase imperceptveis e que logo sufo-cava, para
lutar contra o que era considerado acertado pelas pessoas mais
altamente instaladas na sociedade, podiam re-presentar o lado
autntico das coisas, sendo falso tudo o mais. E que os seus
deveres profissionais, sua vida regrada, a ordem familiar e
todos os interesses mundanos e oficiais, no passassem de
grandes mentiras. Tentou defender tudo aquilo perante si mesmo
e, de repente, atinou com a fragili-dade da sua defesa. No,
no havia nada a defender.
"Mas, se assim , estou eu saindo da vida com a plena
conscincia de ter destrudo tudo o que me foi concedido e, se
a perda  irrepar vel, que irei fazer?", pensou. E, deitado de
costas, p"s-se a passar em revista a sua vida de maneira
completamente diversa.
De manh, quando apareceram sucessivamente o cria-do, a
mulher, a filha e o mdico, cada palavra, cada gesto deles era
a confirmao da tremenda verdade que lhe fora revelada de
noite. Reviu-se em cada um - sua existncia fora precisamente
o que era a deles. E viu de forma espan-tosamente clara que
no passava ela dum imenso e horren-do embuste, que escondia a
vida e a morte. Tal certeza in-tensificou, decuplicou os seus
sofrimentos fisicos. Gemia, remexia-se, empurrava as cobertas
que o incomodavam, o abafavam. E odiava todos os que o
cercavam.
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Deram-lhe uma dose forte de pio e ele adormeceu, mas, na hora
do jantar, tudo recomeou. Enxotou todos do quarto e entrou a
se debater no div.
Praskvia Fidorovna acercou-se dele e disse:
* Jean, meu querido, faa isto por mim. No pode lhe fazer mal
e at muitas vezes alivia. Mesmo as pessoas sas
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Ele arregalou os olhos:
* O qu? A extrema-uno? Para qu? No, no  preciso.
Todavia
Ela rompeu em pranto.
* Faz, meu querido? Eu vou mandar chamar o nosso padre. Ele 
to bom!
* Est  bem. Mande.
Veio o padre e ouviu a confisso. Ivan Ilitch relaxou-se,
sentiu como que um atenuamento das suas dvidas e,
conseqentemente, dos seus sofrimentos. Baixou sobre ele um
pequenino raio de esperana e entrou a pensar no ceco e nos
meios de cur-lo. Comungou com os olhos cheios de l grimas.
Quando de novo o deitaram, aps a comunho, mos-trou-se
aliviado por uns instantes e reacendeu-se nele a pe-quena
chama da esperana. Comeou a pensar na operao que lhe
haviam aconselhado. "Viver! Eu quero viver!", grita-va
intimamente.
A mulher veio felicit-lo, disse as costumeiras palavras e
acrescentou:
* Est  se sentindo melhor, no est ?
* Sim - confirmou ele, sem olh-la.
Seu vestido, seu porte, sua fisionomia, o tom da sua voz, tudo
lhe dizia: "No  nada disto. Tudo aquilo pelo que voc viveu,
e ainda vive,  falsidade, empulhao, 9 ue esconde de voc a
vida e a morte". E, apenas pensou isso, reanimou-se nele o seu
dio e, com o dio, os sofri-mentos fisicos e, a par deles, a
certeza do fim prximo e inevit vel. E uma nova sensao de
dor verrumava-o, transpassava-co, sufocava-o.
A expresso do seu rosto, quando disse "Sim", fora
atroz. Depois de ter proferido o "Sim", fixou duramente a
71
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mulher e, com uma rapidez incomum para o seu depauperamento,
virou-se de bruos, afundou o rosto no travesseiro e berrou:
* Vo embora! Vo embora! Deixem-me em paz!
       
X/I
Apartir daquele momento, comearam os gritos, que se
prolongaram por trs dias, e to horrveis que no se po-dia
ouvi-los, mesmo atravs de duas portas fechadas, sem que os
nervos no se abalassem. No mesmo instante em que respondera 
mulher compreendera que estava liquida-do, que chegara ao
irremedi vel fim, mas que as suas dvi-das permaneciam sem
resposta.
"Ai! Ai! Ai!", gritava em diferentes tons. Comeara por um
"No quero!" e continuara naquele "Ai! Ai! Ai!", sem
in-terrupo.
Durante trs dias inteiros, nos quais o tempo deixou de
existir para ele, debateu-se con~ra aquele saco negro, para
dentro do qual era empurrado por uma fora invisvel e
irresistvel. Debatia-se como um condenado  morte nas mos do
carrasco, sabendo que no poderia escapar. E a cada segundo
percebia que, no obstante seus desespera-dos esforos, mais
se aproximava daquilo que o atemoriza-va. Sentiu que a sua
agonia era devida  penetrao no saco negro e ainda mais pelo
fato de no poder escorregar logo para dentro dele. E o que o
impedia de entrar era a convic-o de que a sua existncia
tinha sido boa. E tal justificativa o retinha, impedia de ir
para a frente, e o torturava mais que tudo.
Sbito, uma fora desconhecida vibrou no lado do seu
peito um violento golpe, que lhe cortou a respirao, e ele
entrou no saco e, l  bem no fundo, viu brilhar uma luz.
Experimentou, ento, o que antes j  experimentara num trem
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* quando pensava que estava andando para a frente, e o trem
recuava, bruscamente verificara a verdadeira direo da
marcha.      coisa", pensou. "Mas no tern iIII,,Sim, era tudo
outra fazer aquilo. Mas aquilo o qu?", portncia. Pode-se
ainda perguntou, e de repente ficou sereno.
isso foi no terceiro dia, poucas horas antes da sua mor-te. E,
precisamente nesse momento, o menino entrou no quarto sem
fazer rudo e acercou-se do leito. o moribundo no parava de
berrar desesperadamente agitando os braos.  Sua mo encontrou
a cabea do filho e o menino agarrou-a, apertou-a contra os l
bios e desatou a chorar.
justamente a, Ivan Ilitch caa no fundo do saco, divisa~ va a
luz e percebia que a sua vida no fora o que deveria ter sido,
mas ainda podia ser reparada. Perguntou a si mesmo:
"O que  aquilo?" E ficou silencioso, atento. Sentiu, ento,
que algum lhe beijava a mo. Abriu os olhos, viu o filho e
teve pena dele. A mulher se aproximou. Olhou-a. Ela tam-bm o
olhava, corri a boca aberta, numa expresso de de-sespero, as
l grimas escorrendo pelo nariz e pelas faces.
Teve pena dela tambm,
"Sim, estou a atorment-los", pensou. "Eles lamenta-ro, mas
estaro melhor quando eu tiver morrido." Quis di-zer o que
sentia, porm no teve fora. "Ali s, para que fa-lar? Devo 
agir", pensou. Com um olhar  mulher, indicou o filho e falou:
Leve-o daqui Tenho pena dele E de voc tambm Tentou
acrescentar: "Perdoe-me", mas disse: - Passe bem - e, no
tendo mais fora para corrigir o lapso, esboou um gesto com a
nio, sabendo que Aquele a quem se entregava devia
compreend-lo.
E, de repente, percebeu com nitidez que aquilo que o
atormentara e o oprimia se ia dissipando, escoando para fora
do seu corpo por todos os lados ao mesmo tempo.
"Ivan Ilitch tem piedade deles, no deve mais faz-los sofrer.
 preciso libert-los e libertar ele prprio de tais
tormentos. Corno  bom, como  simples", pensou. "E a dor?",
perguntou em seu ntimo. "Que fim levou? Onde est s, minha
dor?" E prestou ateno. "Ah, ei-la! E da?  deix-la
doer. E a morte? Onde est ?" Procurou o seu habitual medo
, A
da morte e no o encontrou. "Onde ela est ? Que morte?" No
tinha mais medo, porque tambm a Morte desaparece-ra de sua
frente. Em lugar dela, via luz. "Ento  isso!", ex-clarnou de
repente em voz alta. "Que alegria!"
Foi tudo isso obra de um instante, e a significao des-se
instante no se modificou mais. Para os que o cercavam, porm,
a sua agonia ainda durou duas horas. Seu peito estertorava, o
corpo, esqueltico, estremecia. Pouco a pou-co os estertores e
tremores foram rareando.
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* Acabou! - disse algum perto dele.
Ele ouviu a palavra e repetiu-a na alma. "Acabou a mor-te. A
Morte j  no mais existe!", ainda pensoli. Aspirou
pro-fundamente, deteve-se a meio, inteiriou-se e morreu.
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SENHORES E SERVOS
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Corria a dcada de 1860-1870. Na nIOlh seguinte ao
dia de Natal, vasslii Andritch Brckhunov, n"g)ciante da
segunda corporao, no podia se ausentar Aa parquia.
precisava estar na igreja - da qual era o teour,~ito eleito e
ainda receber em casa os parentes e araigOs- Mas, to depressa
a ltima das visitas se despediu, Vass%i Andritch
comeou a se preparar para sair: necessitava '~titrar em
entendimentos com um proprietrio das redon&~Zas para concluir
a compra de uma floresta que, h  Muito ternpo, tinha
em vista.        gncia, pois Vassl'I Andritch teo assunto
requeria ur mia ser prejudicado naquela tirria trarisaa%
pelos nego-ciantes da cidade vizinha. o jovem proprietri,~
pedia dez mil rublos pela floresta, s porque Vassli'
An'lritch lhe ha-via oferecido sete mil. Acontece que esses
~-'ete mil repre-sentavam, na verdade, apenas um tefO dO
"7~ilr das terras.
Vasslii Andritch procurara, manhosanente, retardar a
aquisio na esperana de um abatimento tio preo, pois
contava a seu favor a combinao feita entre lis negociantes
do distrito pela qual nenhum subiria o valor das florestas
situadas perto da dos vizinhos, e aquela esta7~ justamente na
sua regio. Mas, tendo chegado ao seu CO,~hcimento que
compradores de matas da capital da PfOvincia projetavam
comprar a floresta de Goriatchkir'O, decidiu apressar o remate
do negcio.
Com tal propsito, mal a festa terll"n(u, abriu o cofre
e retirou mil e setecentos rublos. Tirou O"n~a mil e trezentos
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da caixa da igreja, que ficava sob a sua guarda, para
perfa-zer trs mil rublos, cuidadosamente recontou o dinheiro,
enfiou-o na carteira e se preparou para partir.
Nikita, o nico criado de Vasslii Andritch que no es-tava
bbado naquele dia, correu a atrelar o tren. Nikita cumpria a
promessa, que a si mesmo fizera, de nunca mais beber desde a
ocasio, uns dois meses antes, em que havia vendido as botas e
roupas novas para gastar o apurado no vcio. E bem que ele
fora tentado, naqueles dias de festa, pela vodca que caa no
fundo dos copos com um rudo que se assemelhava a um apelo.
Nikita era campons, tinha cinqenta anos e nascera numa
aldeia prxima. Passara a maior parte da vida traba-lhando em
casas e terras alheias, o que levara a dizerem dele "que no
era um propriet rio". Desfrutava geral estima, tanto pela sua
natural bondade e jovial temperamento, como pelo entusiasmo e
energia que dedicava ao trabalho, mas infelizmente no parava
muito no mesmo lugar porque duas vezes por ano, e s vezes
mais at, deixava-se dominar inteiramente pelo  lcool. Nessas
ocasies, no s se despo-java de tudo o que possusse para
saciar o vcio, como se tornava brigo e desordeiro. Vasslii
Andritch mesmo Ja fora obrigado a despedi-lo por mais de uma
vez, chaman~ do-o novamente por vrios motivos: sua
honestidade, sua bondade para com os animais, e principalmente
- por que no dizer? - por suas humildes pretenses relativas
ao sa-lrio. Vasslii Andritch pagava a Nikita no oitenta
rublos, ordenado normal de um trabalhador como ele, mas somen~
te a metade, e assim mesmo em pequenas parcelas e muito mais
vezes em mercadorias que o armazm de Vasslii Andritch lhe
vendia por preos exorbitantes.
Marfa, mulher de Nikita, que noseu tempo de moa
fora muito bonita, era criatura afeita ao trabalho, esperta e
habilidosa, e vivia em companhia de um filho adolescente e
duas filhas. No insistia com o marido para morar com a
famlia porque, se fazia de Nikita o que bem queria quando
ele estava sbrio, tinha-lhe um medo pnico se o via
embriagado. Certo dia, ele tomou uma bebedeira em casa e,
provavelmente aproveitando a oportunidade para se vingar
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da submisso domstica, arrebentou o ba da mulher, tirou
todas as roupas e bugigangas que l  encontrou e, a
macha-dadas, picou-as em mil pedaos.
sem nunca protestar, Nikita entregava  mulher todo o
dinheiro que ganhava. Foi exatamente o que aconteceu
dois dias antes da festa. Maria foi ao armazm de Vasslii
Andritch, comprou farinha, ch , acar, meia garrafa de
vodca, trs rublos no total, e ainda levou cinco rublos em
moedas. E agradeceu a Vasslii Andritch como se ele tives#
       


se lhe prestado um grande favor, quando, sem exagero, passara
a perna nela em, pelo menos, uns vinte rublos.
* Ns no temos nenhum contrato, no  mesmo? - dizia Vasslii
Andritch a Nikita. - Sempre que precisar de alguma coisa,
venha c  ao armazm. Depois acertaremos as contas. Em minha
casa no  como nas outras. Voc nunca ouvira: "Agora, no.
Vamos primeiro liquidar as contas atra-sadas. Temos que
descontar isso e aquilo" No, Nikita.  Quem trabalha para mim
tem toda a minha proteo.
Falava com a veemncia de quem, sinceramente, se achava o
benfeitor de Nikita. muitos eram os que depen-diam do seu
dinheiro, a comear por Nikita, e a fora de persuaso que
empregava era tarnanha que acabou por se convencer de que,
realmente, no explorava os emprega-dos, mas, muito pelo
contrrio, os cumulava de benefcios.
-  claro, Vasslii Andritch. No  por outra coisa que dou
duro no trabalho. Como se trabalhasse para meu prprio pai. 
claro que sei.
Intimamente Nikita estava certo de que era enganado, mas sabia
ao mesmo tempo que no podia largar o empre-go enquanto no
arrumasse trabalho em outro lugar e assim se sujeitava a
aceitar, sem discutir, o que lhe dava Vasslii Andritch.
Agora, recebida a ordem de preparar o tren, Nikita, jovial e
diligente como sempre, se dirigiu para a cocheira, com aquele
passo firme e r pido que lhe era peculiar, em-bora andasse com
os ps para dentro como os gansos. Ti-rou de um gancho as
pesadas rdeas enfeitadas de borlas e, fazendo retinir os
metais do freio, foi para a baia onde se encontrava o cavalo
que o amo mandara atrelar.
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_ Como ~ est  muito aborrecido, meu velho? - dis-se em
resposta ao relincho corri que o Baio o recebeu. Era um animal
de mdio porte, beni-conformado, ancas arre-dondadas, e,
naquela hora, estava sozinho na cocheira.
* Vamos, companheiro! No tenha pressa. Primeiro tem de beber
a sua aginha como se falasse COM
Falava corri o cavalo exatamente uma pessoa. com a aba do
capote limpou cuidadosamente o lombo luzidio do animal, um
lombo rolio cortado ao meio por uma risca pelada, enfiou-lhe
o cabresto na cabea, ajeitando as orelhas e a crina, e
levou-o ao bebedouro.
Assim que deixou a cocheira atapetada de esterco, o Baio
manifestou sua satisfao saltando e fingindo querer pregar um
par de coices em Nikita, que o acompanhava correndo at o
poo.
* Est  querendo brincar comigo, no , seu patife! -
alegrerriente Nikita, que sabia corri que prudncia o a aba
       
disse      ta traseira, procurando apenas roar
Baio atirava a pa costume engraado do cavalo, que muisebenta
do capote,
to o divertia.     lada, relinchou fracamente sao cavalo bebeu
a  gua ge cudindo os beios grossos e ainda molhados, dos
quais; dei-xou cair algumas gotas transparentes dentro do
tanque. De-pois, ficou imvel por um instante, como mergulhado
em seus pensamentos, paray de sbito, bufar estrondosamente.
* Se no quer beber mais, no  preciso fazer tanto barulho,
rapaz! Mas no me venha depois pedir mais - disse Nikita
corri a maior severidade, depois do que levou o Baio para o
alpendre, puxando-o pelo cabresto, enquanto o animal
alegremente enchia o p tio com os seus barulhos.
Todos os criados estavam ausentes. Havia no P tio
apenas um estranho - O marido da cozinheira, que viera
para as festas. eu querido, a que tren
* Vai perguntar ao amo, ri,        Ao grande ou ao devo
atrelar o Baio - pediu-lhe Nikita. - pequeno?                  
 incipal da o marido da cozinheira entrou na casa pr herdade,
de slida construo, e jogo voltou trazendo a or-dem de
atrelar o cavalo ao treno menor. Nikita acabou de
       
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arrear o animal e arrastou-o para o galpo onde se guardavam
os trenos.                 urmurou,
* Ento vamos no menor, meu amigo - m
metendo entre os varais o inteligente animal, que fingia o
tempo todo querer mord-10.    rider as r~
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Quando tudo estava pronto, s faltando este
ao marido da cozinheira que fosse buscar
deas, Nikita pediu
uni pouco de palha e a manta de pano de saco.      r tanto
* A coisa marcha bem! No precisa se arrepia disse Nikita
acomodando no tren a palha de aveia re-cni-batida, que
acabava de lhe ser trazida. - Agora  s estender a manta
Assim, assim Vamos ficar otimamente instalados - e ajeitou a
serapilheira em cima da palha acamada no assento. - Prontoi
Tudo a preceito, meu ami-go. Muito obrigado! - agradeceu ao
marido da cozinheira.
* O trabalho a dois vai mais depressa.
E Nikita subiu ao tren, aps ter desembaraado as r-deas de
couro que terminavam numa argola, e tocou o ani-mal, que
ansiava por trotar, para o porto principal, atravs do p tio
coberto de esterco gelado.
* Tio Nikita! Tiozinho! - gritou com voz esganiada um
garotinho de sete anos, enfiado numa pelia preta, gor       
ro de pele e botinhas novas de couro branco, que sara da casa
correndo. - Quer me levar? - e abotoava apressada-mente a
pelia curta.
* Corra, meu anjinho - respondeu~lhe Nikita.
       
Estacou o cavalo e ajudou o filho do patro a subir no tren.
O rostinho p lido e magro do menino se iluminou de alegria.
Eram mais de duas horas e fazia muito frio, pelo menos uns dez
graus abaixo de zero. Metade do cu estava coberta por uma
nuvem baixa e escura. No p tio, o ar esta-va calmo, mas l 
fora o vento soprava,  spero, varrendo a neve amontoada no
telhado do galpo vizinho e formando redemoinhos junto  casa
de banhos.
Assim que Nikita transp"s o porto e parou o treno
diante da escada da entrada, Vasslii Andritch saiu do
vestbulo, fazendo estalar, com as botas de couro forradas de
feltro, o gelo que se acumulara nos degraus. Trazia um cigarro
na boca e vinha muito agasalhado numa pelia de carneiro,
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ajustada por um cinto muito largo. Parou para saborear uma
ltima tragada e jogou a ponta do cigarro, esmagando-a
com o p. com a fumaa saindo ainda atravs do bigode,
examinou o cavalo com o rabo do olho~ enquanto levantava a
gola da pelia para defender as faces vermelhas e
escanhoadas do frio.        quer' - excla* Vejam s este
pndego! Est  COMO
mou ao dar com o filho no tren.
A vodca bebida com os amigos excitara Vasslii Andritch e ele
se sentia mais satisfeito que de costume e muito orgulhoso dos
bens e do seu poderio. A presena do filho, a quem na
intimidade chamava sempre de "meu her-deiro", provocou-lhe
naquele momento um imenso prazer, e contemplava-O com Os olhos
meio fechados e com um sorriso que mostrava os dentes grandes.
Uma mulher gr vida, magra e lvida , com a cabea e os ombros
embrulhados num xale de l, que no deixava ver seno os
olhos, apareceu na porta. Era a esposa de Vasslii Andritch,
Timidamente avanou e aconselhou num fio de voz:   Oc fosse
com Nikita.
* Achava melhor que v  aborreceu Vasslii A recomendao
evidentemente o lado, franziu o Andritch, que deu uma
cusparada para rosto e no respondeu.
* Vai levar dinheiro consigo~ - prosseguiu a mulher no mesmo
tom choroso. -  bom se precaver. Olhe que o tempo tende a
ficar pior. so, que eu no co* Para que guia? Pensa, por aca
rando bem as sla-nheo o caminho? - retrucou ele, sepa bas,
que era o seu jeito caracterstico de falar com vendedo-res ou
compradores.
* Pelo amor de Deus, leve Nikita.  um favor que me faz -
insistiu ela, puxando o xale mais para os ombros.
* voc  pior do que sarna' Corno Posso lev -'( comigo?
* Que est  dizendo, vasslii Andritch? Eu estou S suas
ordens - declarou Nikita, radiante. - S  Preciso que algum
cuide dos cavalos na minha ausncia  acrescentou, virando-se
para a patroa.
* Fique descansado, meu amigo. Vou mandar Semion cuidar deles
- respondeu ela.
* Ento, vou ou no vou, Vasslii AndritcW
* Faa-se o gosto da patroa! Mas vai vestir qualquer coisa
mais quente se quer mesmo vir comigo - disse vasslii
Andritch, sorrindo e mostrando, com uma especial olhadela, a
sebenta pelia de Nikita, de abas muito gastas, com um rasgo
nas costas e toda descosida debaixo dos braos, provas
evidentes da sua antiguidade e dos maus-tra-tos que sofrera.
* Ol , meu santol D uma mozinha aqui'  s segu#
       


rar o cavalo! - gritou Nikita para os lados do p tio, onde
estava o marido da cozinheira.
* Deixe que eu seguro! - exclamou o menino com sua voz
esganiada. E, tirando dos bolsos as mozinhas ver-melhas de
frio, pegou as rdeas geladas.
* Olhe l ! No leve muito tempo a se embonecar, ou-viu? -
troou Vasslii Andritch.
* Vou num p, volto no outro, Vasslii Andritch, meu
paizinho! - garantiu Nikita correndo para a isb  reservada aos
criados.
* Arimuchka, minha adorada, me d depressa o meu cafet que
est  secando ao lado do fogo. Vou viajar com o patro -
anunciou Nikita, embarafustando pela isb  aden-tro e pegando o
cinto que estava pendurado num prego.
A cozinheira, que estava preparando o samovar, depois de ter
tirado uma soneca aps o jantar, recebeu alegre-mente Nikita
e, contaminada pela pressa dele, apanhou, r-pida, o
surradssimo cafet que pusera a secar e p"s-se a desamass-lo
e a sacudi-lo.
* Agora, vai ficar  vontade com seu mardol - disse
Nikita para ela.
Quando se encontrava a ss com quem quer que fos-se, sempre
achava uma coisa agrad vel para dizer. Tal era o bom Nikita.
E, tendo posto o cinto muito estreito e torcido na cin-tura,
por cima da pelia, apertou-o valentemente como se quisesse
que a barriga ficasse ainda mais Murcha do que naturalmente
era.
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* Assim  que vai bem! - disse, no  cozinheira, mas ao
cinto, cujas pontas enfiou para dentro. - No desa-marrar 
nunca!
Levantou e abaixou os ombros para ter a certeza de que seus
braos estavam com os movimentos livres, envergou o cafet,
esticando as costas tambm para verifi-car a liberdade de
ao, e pegou nas malfeitas luvas de l que estavam na
prateleira.
* Pronto! Estou em forma!
* Voc devia mudar as botas, Nikita Step nitch - su-geriu a
cozinheira. - As que voc cala esto muito estragadas.
Nikita parou como se se lembrasse de alguma coisa:
* Tem razo No seria nada mau Mas vou com es-tas mesmo.
Afinal, no iremos muito longe. - E saiu em disparada.
* No ir  sentir frio, meu amigo Nikita5 - perguntou a patroa,
quando ele chegou perto do tren.
* Acho que no. Isto aqui esquenta muito! - respon-deu,
levantando a palha para cobrir os ps, e metendo por baixo
dela o chicote, do qual o Baio, como bom cavalo que era, no
precisava.
Vasslii Andritch j  estava acomodado no tren. Suas largas
costas, agasalhadas com duas pelias, tomavam todo o curvo
encosto do assento traseiro. Nikita saltou para o tre-n em
movimento e se ajeitou o melhor que p"de na parte dianteira,
com uma perna para fora.
c om os patins rangendo levemente, o tren foi leva-do pelo
robusto cavalo e, em breve, alcanou a estrada co-berta por
uma camada de neve endurecida.
* Que diabo voc est  fazendo a? D-me o chicote,
       
Nikita! - exclamou Vasslii Andritch, visivelmente admi-rando
o seu herdeiro, que encontrara meios de se agarrar na parte de
tr s do tren. - Saia j  da, menino! Volte para casa logo!
Quer enlouquecer sua me?
O garoto pulou para o cho. O Baio deu um espirro e acelerou a
marcha, passando da andadura ao trote.
Kresti, a aldeia onde morava Vasslii Andritch, no ti-nha
mais que seis casas. Quando o tren passou pela lti-ma, que
era a do ferreiro, repararam que o vento era mais impetuoso do
que a princpio julgaram. A estrada quase de-saparecia sob a
neve.
As marcas dos patins eram apagadas pelo vento e no
se podia distinguir a estrada, se no por ficar mais alta do
que a plancie que cortava, No se divisava a linha do
horizonte - turbihes de neve redemoinhavam pelos campos
ocultando tudo. At a floresta de Teli tino, que em geral se
via to bem, mal se deixava antever, por um instante, como
uma mancha escura atravs da alva cortina de neve. So#
       


prando da esquerda, o vento obstinadamente jogava para a
direita a crina do Baio e a sua farta cauda, que terminava num
grosso n. A grande gola do cafet de Nikita colava-se-lhe ao
nariz e a uma das faces.
* A neve est  danada e impede-o de mostrar o seu
       
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88
valor - observou Vasslii Andritch, orgulhoso do cavalo que
tinha. - Fui uma vez com ele a Pachutino e fique sa-bendo que
em meia hora me p"s l .
* O que est  dizendo? - perguntou Nikita, que no ouvira
direito por causa da golai.
* Estou dizendo que o, io me levou a Pachutino em meia hora -
berrou Vasslii Andritch.
* Ningum nega que  um timo cavalo - opinou
Nikita.
Durante um momento no trocaram palavras. Mas Vasslii estava
com vontade de falar e perguntou em voz bem alta:
* Voc ainda pretende comprar um cavalo na primavera?
* No tenho outro remdio - respondeu Nikita abai-xando a gola
do cafet e se inclinando para o amo. - Meu rapaz j  est 
quase um homem e  preciso que comece a trabalhar no campo.
* Se  assim, por que no compra o meu parigar? Eu o venderei
barato! - gritou Vasslii Andritch, animado com o prov vel
comprador e j  pronto, como sempre que entabulava negcios de
animais, a lesar o mais que fosse possvel, pois, sendo o seu
negcio favorito, sentia que nele as suas faculdades
intelectuais mais se avivavam.
* Talvez fosse melhor o senhor me dar quinze rublos para eu
comprar um na feira de cavalos - defendeu-se Nikita, sabendo
claramente que Vasslii queria lhe impingir o pangar, que
valia na melhor das hipteses uns sete ru-blos, mas que o amo
avaliaria em vinte e cinco, a fim de no lhe pagar, depois do
ajuste, nem um msero copeque durante uns seis meses.
-  um cavalo de primeira. Voc far  um negcio da China! Eu
digo de conscincia limpa! Brekhunov nunca pre-judicou
ningum. No sou como os outros, palavra de hon-ra! Eu at
prefiro perder dinheiro a prejudicar algum! - gritou com
aquele seu jeito de lidar com compradores e vendedores. - Eu
reafirmo:  um cavalo de primeira!
* Sim,  verdade - suspirou Nikita, e, vendo que o amo se
calava, soltou a gola, que o vento logo empurrou contra a face
e a orelha.
       
Em silncio viajaram maismeia hora. Nikita sentia o glido
vento entrar pelas mang do agasalho. E':-icolhido, respirava
com a boca colada ;ola que a tapava, mas no sentia frio no
corpo.
* O que  que voc achi Vamos direto ou passamos em
Karamichevo? - perguntouc, amo.
A estrada que levava a Ka~michevo era melh or e mais
movimentada porm mais long~. A outra, embora mais curt a, era
muito m  e os marcos ou eram raros ou se achavam
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cobertos pela neve.
Nikita refletiu um pouco. Depois, resolveu:
* Por Karamichevo  i~ais longe, mas a estrada  mais segura.
* Concordo, mas se seguirmos em frente s<5 precisa-mos
atravessar a ravina e no h  perigo de errar, Dois a
flo-resta fica logo depois - cont5disse Vasslii Andritch,
de-sejoso de tomar o caminho mais curto.
* Como o senhor quiser- respondeu Nikita, tornan-do a
suspender a gola.
E foi o que fez Vasslii Aridritch. Percorridos uns
qui-nhentos metros, tomou  esquerda, num ponto onde um gaiho
de carvalho, com as suas ltimas folhas secas, se agi-tava ao
vento.
A partir dali, o vento Passou a vir de frente, e no tar-dou a
nevar. Vasslii ia guiando o tren; enchia as boche-chas de ar
e soprava os bigodes. Nikita cochilava.
Mais de dez minutos se escoaram em silncio. De re-pente,
Vassli Andritch rompeu-o com poucas palavras.
Nikita abriu os olhos:
* Que  que h 5
O amo no respondeu. Preocupado, curvava-se, olha-va para a
frente e para tr s. o cavalo ia a passo, o plo, mo-lhado de
suor, empastava-se no pescoo e nas Pernas.
* Que  que h ? Que  que h ? - repetiu Nikita.
* Que  que h ? Que  que h ? - arremeciou vasslii
Andritch, visivelmente agastado. - H  que no vejo mais os
marcos e certamente estamos perdidos!
* Vamos com calma. Vou dar uma olhada na estrada
* e Nikita saltou do tren, tirou o chicote de sob a palha e
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caminhou para a esquerda do lado em que estivera sentado.
A neve no estava muito espessa, de maneira que p"de avanar
serri dificuldade. Mesmo assim, em certos pontos, enterrou as
pernas at os joelhos e no demorou a ficar com as botas
cheias de neve. Nikita sondava o solo com os ps e corri o
cabo do chicote, porm, no conseguiu encontrar a estrada.
* Como ? - interrogou-o Vasslii Andritch, quando
Nikita voltou para junto do tren. o lado.
* Do lado de c  no encontrei. Vamos ver do outr
* Repare naquela mancha escura l na frente.  bom ver o que 
- disse o amo em tom de ordem.
Nikita caminhou na direo indicada e chegou perto da mancha
escura. Tratava-se de um carripo que fora lavra-do no outono e
cuja terra, espalhada pelo vento, escurecia a neve numa grande
extenso. Aps ter procurado a estrada pelo lado direito,
Nikita sacudiu-se para fazer cair a neve que o salpicava, deu
umas patadas para tirar das botas a neve que a elas se
apegara, e subiu no treno.
* A estrada fica  direita - decidiu ele. Ns receba-mos o
vento pela esquerda e agora ele est  vindo de frente.  Temos,
portanto, de virar para a direita.
Vasslii Andritch no discutiu, e tocou para a direita.  Mas
nem um sinal da estrada. Continuaram avanando, o vento nao
diminura, nem a neve parara de tombar.
* Estou achando que nos perdemos, Vasslii
Andritch - disse, de repente, Nikita, como se estivesse muito
satisfeito com o caso. E imediatamente ajuntou, apontando para
umas manchas escuras que emergiam da neve: - Que troo 
aquele?
Vasslii Andritch estacou o Baio, que j  estava
com-pletamente molhado de suor e cujos flancos palpitavam ao
ritmo da ofegante respirao. E perguntou:
* Que  que acha?
* Acho que estamos nos campos de Zakharov, sem ti-rar, nem
p"r.  no que d  a gente abandonar a estrada!
-  mentira sua!
* No, no estou mentindo, Vasslii Andritch. E a pura
verdade. o barulho do tren estava dizendo. Acaba       
mos de atravessar um campo de batatas. Quer prova melhor do
que aquele monte de folhas e aquelas hastes que saem da neve?
Sim, estamos na fazenda de Zakharov.
* No me faltava mais nada! - berrou Vasslii
Andritch. - E que iremos fazer?
* Ora, ora, meu senhor, vamos seguir direitinho em frente e
acabaremos por chegar a algum lugar. Pode ser  sede da
fazenda ou  casa do capataz.
Mais uma vez Vasslii obedeceu. Avanaram durante
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bastante tempo, ora atravessando plancies sem vegetao, e
onde os patins do tren rangiam sobre torres de terra
congelada, ora cortando os campos de cereais semeados, uns no
outono, outros na primavera, e cujas hastes secas emergiam da
neve e se agitavam ao sopro do vento, ora afundando na neve
espessa que, na sua alvura uniforme, tudo tornava sem feitio.
A neve caa do alto, e por vezes o vento a levantava do
cho em turbilhes. O Baio mostrava-se extremamente fatigado,
o plo, ensopado de suor, encrespava-se de gelo, e j 
s caminhava a passo. Sbito, pisou em falso e caiu numa vala
ou barranco. Vasslii Andritch tentou ret-lo, mas Nikita
gritou:
* No puxe o freio! D mais rdea! Upa! Upa! Meu queridinho! -
e, saltando do tren, enterrou-se, por sua vez, na neve.
O animal reanimou~se e, num arranco, conseguiu se firmar num
lugar endurecido pelo gelo. Tinham, natural-mente, cado num
fosso.
* Onde estamos agora? - perguntou Vassliii Andritch.
* Logo o saberemos - teve como resposta. - Vamos tocando para
diante e teremos que chegar a algum lugar.
* Aquilo l  no ser  a floresta de Goriatchkino? - in~ dagou.
o amo, apontando para uma massa escura que a ne-vasca deixava
entrever.
* Vamos para l  e veremos se  a floresta ou no respondeu
Nikita.
Notara ele que o vento trazia daquele lado folhas secas de
pereira e deduzira que no podia ser uma floresta e sim um
lugar habitado, mas no quis afirmar nada.
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#
       


I
No haviam andado mais que trinta metros, quando distinguiram
silhuetas negras de  rvores e ouviram uma es-pcie de
queixume. Nikita acertara. No era uma floresta, mas um renque
de pereiras, as quais tinham umas ltimas folhas secas, Era
claro que haviam sido plantadas ao longo de uma vala e perto
de uma fazenda.
Tendo chegado at elas, que batidas pelo vento solta vam
aquele gemido, o cavalo empinou de repente, subiu um barranco
e tomou para a esquerda. Tinham encontrado a estrada.
* C  est  ela - disse Nikita. - Mas no sabemos onde.
Sem vacilar, o Baio foi pela estrada coberta de neve e
no tinham percorrido mais que cinqenta metros quando
depararam com um celeiro, cujo telhado desaparecia sob
densa capa de neve. Contornaram-no e se viram de novo
fustigados de frente pelo vento e diante de um vasto monte
de neve,
Era dificil ver a ruazinha estreita que se abria entre duas
casas. O vento  que formara aquele monte de neve bem no meio
da estrada e era preciso venc-lo. Consegui~ ram transpor o
obst culo e enveredaram pela ruela, Perto de uma das ltimas
casas, peas de roupas congeladas pen-diam de uma corda e eram
agitadas furiosamente pelo ven-to - uma camisa branca, outra
vermelha, ceroulas, meias grossas e uma saia. A camisa branca,
ento, parecia frenti-ca, acenando com os braos vazios.
* Que grande preguiosa! Nem para um dia de festas passou a
sua roupa! - condenou Nikita, mas logo acrescen~ tou: - Mas
quem sabe? Talvez a mulherzinha esteja doente.
       
Aentrada da aldeia ainda ventava e a estrada estava tomada
pela neve, mas,  medida que avanavam, sentiam a temperatura
mais suave e certo calor e alegria. Um co Ia-tiu num quintal
e uma mulher, que corria Com o casaco pu-xado sobre a cabea,
parou  porta da isb , para ver os des-conhecidos. Do centro
da aldeia vinha um coro de moas.
Viram que a neve era menos abundante ali e que o frio e o
vento no se mostravam to fortes.
* Estamos em Grichkino! - exclamou Vasslii
Andritch.
* Estamos sim - concordou Nikita.
De fato, estavam em Grichkino. Depois de terem se desviado
para a esquerda, cerca de dez quil"metros, cons-tatavam que
ainda assim haviam se aproximado do trmino da viagem, pois
Grichkino no distava de Goriatchkino mais de cinco
quil"metros.
No meio da aldeia, encontraram um homem muito alto, que ia
pelo meio da rua, conduzindo um cavalo.
#
       


* Quem vem l ? - gritou ele, parando. Mas, reconhe-cendo
imediatamente Vasslii Andritch, segurou um dos varais e,
tateando, chegou-se e se sentou numa borda do tren.
Era Issai, campons muito conhecido de Vasslii An-dritch e
famoso em todo o distrito como ladro de cavalos.
* Ento, Vasslii Andritch, que  que veio fazer c por estas
paragens? - perguntou, e Nikita sentiu bem o h - lito
impregnado de vodca.
       
93
I
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* Vamos a Goriatchkino.
* Ali, tem muita graa! Como  que vieram parar aqui? Deviam
ter tomado a estrada de Malakhovo.
* Nem tudo d  certo na vidal Que se h  de fazer? - respondeu
Vasslii Andritch, freando o Baio.
* Bom cavalo - tornou Issai examinando o animal e, num gesto
habitual, apertando o n da cauda, que se afrou-xara na
caminhada. - E vo passar a noite aqui?
* No, meu velho, Temos que prosseguir viagem.
* Se  preciso, no digo nada. Mas quem  o compa~ nheiro? Oh,
nem mais nem menos que Nikita Step nitch!
* Ora, quem havia de ser? - respondeu Nikita. - E s rogo a
Deus que no nos percamos outra vez1
* No veio como. Dem meia-volta e sigam em fren-te. No fim da
aldeia continuem sempre em frente. Quando chegarem  estrada,
ento, dobrem para a direita.
* Mas onde devemos dobrar certo? - indagou Nikita.
* A certa altura encontraro umas moitas. Defronte delas est 
o marco.  um velho galho de carvalho. No h como errar.
Vasslii Andritch instigou o Baio, fez a meia-volta e se
foram em frente.
-  possvel que tenham de pernoitar aqui! - gritou-lhes
Issai.
Mas Vasslii Andritch no lhe deu resposta. Apressou mais o
cavalo, achando f cil vencer cinco quil"metros, dois dos quais
na floresta e os restantes numa estrada plana, tan-to mais que
o vento amainara e a neve cessara de cair. Se-guiram em
sentido inverso  rua que j  haviam percorrido, pintalgada de
estrume fresco, e a camisa branca estava ago-ra presa por uma
manga s, passaram pelas gemedoras pe-reiras e se encontraram,
outra vez, em campo aberto. O vento voltara a soprar
fortemente e a neve j  estava to alta que a estrada
desaparecera, engolindo os marcos quase at a ponta, o que
tornava dificil distingui-los.
Vasslii Andritch apertava os olhos, inclinava a cabe-a, ora
para a direita, ora para a esquerda, tentando divisar os
marcos, mas afinal deixou que o Baio os levasse, mais
confiante no instinto dele do que nos seus prprios olhos.
(4
E, realmente, o animal no se enganava, e avanava, umas vezes
mais pela direita, outras vezes mais pela esquerda, mas sempre
obedecendo s sinuosidades da estrada, expe-rimentando se o
solo estava firme sob as suas patas. E to bem se portava o
Baio que, a despeito da impetuosidade do vento e da neve, que
voltara a cair em abundncia, uma que outra vez conseguiram
distinguir um marco  direita ou  esquerda.
Decorridos uns dez minutos, perceberam em frente
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deles uma massa escura que se aproximava atravs da den sa
cortina de neve, que o vento impelia obliquamente. Eram
viajantes que seguiam o mesmo caminho. Depressa o Baio os
alcanou, chegando a bater com a pata na parte traseira do
tren.
* Eh! Eh! Cuidado! Mais para o lado! - gritavam os passageiros
do outro tren.
Vasslii Andritch emparelhou com o veculo e viu que conduzia
trs homens e uma mulher. Certamente voltavam para casa depois
da festa na aldeia. Um dos camponeses fus-tigava com um galho
seco a garupa do pequeno cavalo salpi-cado de neve. Os outros
dois berravam qualquer coisa, ace-nando com os braos, e a
mulher ia muito encolhida dentro do agasalho coberto de neve,
imvel, no fundo do tren.
* De onde so vocs? - perguntou Vasslii Andritch.
* A a a
* Estou perguntando: de onde vocs so?
* A a a - berrava com todos os pulmes um dos camponeses,
sem que fosse possvel entender o que dizia.
* Depressa! Eles querem passar na nossa frentel No deixemos -
berrava o outro campons com o m ximo das suas foras e
batendo furiosamente no pobre cavalinho.
* Esto voltando da festa, no ?
* Mais depressa, Siomka! Bata com fora! Toque para frente!
Os trens se chocaram, estiveram quase parando, enganchados,
mas se separaram, e o de Vasslii Andritch passou 
dianteira.
O cavalinho, peludo, barrigudo, coberto de neve, em-penhava
suas derradeiras energias, ofegando penosamente.
95
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Em vo se esforava para escapar s pancadas que levava e
corria o quanto podia, enterrando as pernas curtas na neve
profunda e atirando-a para tr s. Quando os trens se
empa-relharam, durante alguns segundos, Nikita sentira, na
altura do ombro, o focinho do cavalinho, que tinha o beio
infe-rior entrado como o dos peixes, com as narinas dilatadas
e as orelhas murchas de pavor. Mas, logo, ficara para tr s.
* Veja s o que o vinho faz! - comentou Nikita. Vo rebentar o
cavalinho, coitado! So uns verdadeiros selvagens!
Ainda se ouviu, durante alguns momentos, o resfole-gar do
animal e a gritaria dos brios. Mas foram diminuindo,
diminuindo, at que no se ouvia mais que o assobiar do vento
e o ranger dos patins.
O encontro alegrara Vasslii Andritch, aumentara a confiana
em si mesmo e, j  sem se importar com os mar-cos da estrada,
deixou tudo ao instinto do Baio, forando-o a andar mais
depressa.
Nikita nada podia fazer. E, como de costume, sempre que se via
relegado a um segundo plano, cochilava, procu-rando descansar
um pouco. Repentinamente, o cavalo esta~ cou e quase Nikita
era jogado fora do tren.
* Estamos perdidos outra vez! - exclamou Vasslii
Andritch.
* No diga!
* Digo. No vejo mais os marcos. Na certa ns nos afastamos da
estrada novamente,
* Ento  preciso procur-la outra vez - respondeu
simplesmente Nikita.
E se erguendo, como da vez anterior, p"s~se a cami-nhar na
neve com seu andar lpido, os ps virados para dentro.
Vasculhou as redondezas atentamente, ora desapa-recendo na
bruma, ora reaparecendo de chofre para de novo sumir Afinal,
voltou ao tren.
* Por aqui perto posso garantir que a estrada no passa.
Talvez fique um pouco mais adiante - disse, subin-do no
veculo.
Escurecia. A nevasca no crescera de intensidade, mas tambm
no abrandara.
9
* Se ao menos pudssemos ouvir aqueles campone-ses - lamentou
Vasslii Andritch.
* Eles no nos alcanaram mais. O cavalinho no ajudou. Mas
talvez tenhamos nos afastado bastante da estra-da. Ou quem
sabe se eles tambm se extraviaram?
* Que rumo tomaremos agora? - indagou o amo.
* Vamos deixar o Baio agir por sua conta. Tenho cer-teza que
nos livrar  desta esparrela. Passe-me as rdeas.
Com a maior satisfao, Vasslii Andritch passou-as
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para as mos de Nikita, pois comeava a sentir as suas muito
frias, no obstante as grossas luvas de l. Nikita
con-tentou-se em segur-las, permitindo que seu cavalo
favori-to as guiasse com a sua inteligncia. E no demorou que
o pobre animal, empinando uma orelha e depois a outra, desse
umas voltas e depois arrancasse.
* Esse bicho s falta falar! - exclamou Nikita. Veja como 
sabido. Vamos! Vamos! Muito bem!
O vento, agora, vinha pelas costas e minorava a sensa-o de
frio.
* Animal inteligente est  aqui' - exultava Nikita. O pequeno
quirguiz  forte, mas estpido como ele s! O Baio no1 
outra coisa Preste ateno nas orelhas dele.  No precisa de
telgrafo. Ouve tudo quanto se passa em volta num raio de um
quil"metro.
Dito e feito. No havia passado meia hora e eis que
di-visaram, bem diante do nariz, qualquer coisa escura - uma
floresta ou uma aldeia - e  direita os marcos da estrada.
* Com a breca, estamos outra vez em Grichkino! - bradou
Vasslii Andritch.
Pura verdade.  esquerda surgira o mesmo celeiro com o telhado
coberto de neve e, mais alm, a corda com as roupas
dependuradas - as camisas e as ceroulas batidas
desesperadamente pela ventania.
Enveredaram pela conhecida ruazinha e novamente a atmosfera
era suave, mais quente e mais alegre. Mais uma vez passaram na
ruela pintalgada de estrume fresco, torna-ram a ouvir as
vozes, os cantos, os latidos dos ces. A noite descia e nas
isbs iam acendendo as luzes.
Vasslii Andritch mandou parar o tren diante da entrada
i
97
I
#
       


Encaminharam-se para uma jariela de um casaro de tijolos.   1
facintilar os flocos iluminada e a claridade que vinha de a '.
zia abo do chicote.
de rleve ao cair. Nikita bateu r10 vidro col o c
,9 _ perguntou algum l  dentro Quem e.      , de Kresti, meu
born senhor.
* so os BrekhunOv                    eu Nikita.
Faa o favor de abrir a porta - respondvi* se da janela e, no
fim de dois minutos, Ou
Afastaram              o na porta da rua.
ram o complicado barulho de uni cadead e apareceu, esco~
Em seguida, houve o ranger do ferrolho
rando a porta externa, que o vento teimava em fechar, uni
velho campones de avantajada estatura e barba grisalha,
con, unia camisa branca e unia curta pelia atirada
rios Ofribros, acompanhado de um moo de camisa vermelha e
botas de couro.  mesmo Vass"' Andritch? - perguntou O
* voc
velho.      arne e osso. imagine que nos perdemos!
* sim, em cAndritch. - Pretendamos ir a
* explicava Vasslli                 ar aqui. Tentamos outra
vez e no-Goriatchkino e viemos par vamente voltamos serri
querer!
* riu o velho, e, virando-se para o rapaz
Vejarri s!        chka, abra o porto
de camisa vermelha, ordenou: - PCtru
dos carros.            o moo alegremente, e
* Num instante - respondeu
saiu em disparada.          - meu amigo
* Mas ns no vamos pernoitar aqui,
declarou Vasslii Andritch. t  muito escuro.  me* Mas onde
vo se meter? Es
lhor que fiquerri!
* Bem quisera eu. Mas temos que prosseguir viagem.  sabe? 
impossvel ficar, ecer um pouco. CheNegcios,
* Ao menos entrem para se aqu
garam. exatamente na hora do sarnovar. deu Vasslii
ch; ' ' eu aceito - respon
uni  sim o vai ficar mais escura do que est  e,
Andritch. - A noite n        hor o caminho. O que
quando vier a lua, enxergaremos mel ssos?
acha voc, Nikita, se entrarmos para esquentar os o replicou
* Como no?  coisa que no se recusa
Nikita, que sentia todo o corpo enregelado.
98

#
       


Vasslii Andritch entrou. Petruchka abrira o porto e Nikita
conduziu o tren para o p tio, metendo o Baio no ga,po~ cujo
piso estava coberto de estrurtie. As galinhas e o galo, que ia
se achavan-i erripoleirados, no gostaram da in-vaso e se
puseram a cacarejar e a se remexer. Assustadas, as ovelhas
corriam de um lado para o outro, batendo ruido-samente con, os
cascos no cho gelado. o cachorro rece-beu Os intrusos com
latidos de medo e de raiva.
Nikita gastou palavras con, todos- Pediu desculpas s gali~
Lais- ralhou com as ovelhas nhas, jurando no as incomodar ir
,   va o Baio, por se amedrontarem sem motivo; e, enquanto
amarra no parou de pedir ao cachorro que se mantivesse Calmo.
* Aqui estou como quero - disse, sacudindo a neve que se
acumulara na roupa. E virando-se para o cachorro:
* voc sabe latir, heiril Mas chega, meu parvo'J  passou da
conta. No somos ladres, no. Est  se cansando  toa.
* Estes so Os trs conselheiros da casa, conforme est  na
histria - disse o moo, arrastando para dentro do galpo o
tren que ficara de fora.
       
ue conselheirW - quis saber Nikita.
Q                            plicou
-  o que vem escrito no livro de Paulsen - ex
o Outro~ com uni sorriso. - o ladro chega, de mansinho,
perto da casa e o co ladra; isso quer dizer: no fique a
como um bobo, preste ateno. o galo canta e  como quem diz:
levante-se. O gato se lava; isso significa: teremos visita,
prepare tudo para receb-la beiri.
Petruchka sabia ler e escrever e conhecia quase de cor o livro
de Paulsen, o unico que possua. E quando abusava um pouco do
copo, como acontecia naquele dia, gostava de citar certas
frases dele, que lhe pareciam ajustadas s circunstncias.
* Sim, meu rapaz.  isso mesmo - concordou
Nikita.
* Acho que est  com muito frio, no est , tiOzinhO?
* tornou Petruchka.
* sim. Estou gelado.
       
Atravessaram o p tio e entraram em casa.
#
       


IV
Vasslii Andritch parara numa das casas mais ricas da
aldeia. Aquela famlia possua cinco jeiras de terra
cultivagurrias. Tinha seis cavalos na das e ainda arrendava
algvinte ovelhas.  estrebaria, trs vacas, duas novilhas e
umas Compunha-se de vinte e duas pessoas: quatro filhos
casa-dos, seis netos, dos quais Petruchka era o nico casado,
dois bisnetos, trs rfos e quatro noras com os seus filhos. 
Era uma dessas raras famlias aldes que no se desagregara e
que, por tal razo, no efetuara a partilha de seus bens;
porm a discrdia j  surgira entre as mulheres, como  do
costume, e ia surdamente se agravando, de sorte que seria
inevit vel uma prxima partilha. Dois dos filhos trabalha-vam
em Moscou como carregadores de  gua e um terceiro era soldado.
Naquela ocasio viviam em casa: o velho, a mulher, o
primognito, que viera de Moscou para a festa da aldeia, o
segundo filho, que administrava a propriedade, to-das as
mulheres e seus filhos e ainda um vizinho e compa-dre, que ali
estava hospedado.
Sobre a mesa pendia uni lampio que aclarava crua-mente a
loua do ch  e uma garrafa de vodca, pratos de sal-gados e
bolos e estendia a luz s paredes de tijolos e o can-to
devoto, onde estavam os cones.
Trazendo no corpo s a pelia negra, Vasslii Andritch
ocupava na mesa o lugar de honra. Mordendo o bigode,
ainda com traos de neve, repassava os olhos saltados e
frios de gavio pelas paredes e pelas pessoas. Alm dele,
encontravam~se na inesa o velho de barbas grisalhas, e que
100
era completamente calvo, com uma camisa de linho branco tecido
em casa, o primognito vindo de Moscou, homem de robusta
compleio, vestindo uma camisa de algodo fino, o filho que
dirigia a propriedade, tambm espadado, e o vizinho, um
campons magro e ruivo.
Comidos e bebidos, os homens se dispuseram a saborear o ch . O
samovar fervia ruidosamente. junto ao fogo,
dormiam crianas, e, num banco encostado  parede, uma
mulher embalava um bero com o p. A dona da casa, com o rosto
todo cortado pelas rugas da velhice e que lhe mar-cavam at
mesmo os l bios, atendia polidamente o visitan-te. E, no
momento em que Nikita entrou na sala, estava ela enchendo um
grande copo de vodca, que ofereceu a Vasslii Andritch com as
seguintes palavras:
* No recuse, Vasslii Andritch, Beba  nossa sade.
Ao ver o lquido claro e sentindo-lhe o cheiro, Nikita,
que morria de frio e cansao, ficou profundamente pertur#
       


bado. Seu rosto contraiu-se. Sacudiu o gorro e o cafet e,
como se no houvesse ningum na sala, virou-se para o
lado dos cones, persignando-se trs vezes. S, ento, deu
ateno aos que estavam na mesa. Cumprimentou primeiramente o
velho, depois os convivas e, por ltimo, as mulheres que se
achavam junto ao fogo. E, aps desejar um geral
"Boas Festas", p"s-se a tirar o cafet sern olhar para a mesa.
* Deve estar roxo de frio, tiozinho! - comentou o primognito,
vendo que as sobrancelhas e as barbas de Nikita estavam
salpicadas de neve.
Despido o cafet, Nikita sacudiu-o mais uma vez, pendurou-o
num prego perto do fogo e se encaminhou para a
mesa. Foi um momento difcil para ele: por um triz no
pega o copo para emborcar de uma talagada o lquido claro
e cheiroso. Mas deitou um olhar a Vasslii Andritch,
lembrou-se da promessa que fizera, das botas novas que vendera
para beber, do filho a quem prometera comprar um cavalo logo
que chegasse a primavera e, com um longo
suspiro, resignou-se a ficar com a goela seca.
* Muito obrigado. No bebo - disse, franzindo as sobrancelhas.
E foi se sentar num banco perto da janela.
* Mas por qu? - interrogou o prirriognito.
#
       


* Porque no bebo, nada mais - respondeu sem le-vantar os
olhos. E comeou a cofiar as barbas e os ralos bi-godes,
livrando-os dos pedacinhos de gelo que se haviam acumulado
neles.
* A bebida no faz bem a ele - esclareceu Vasslii
Andritch, mordendo um bolo e pegando no copo para mais uma
golada de vodca.
* Se  assim, tomar  ch  - disse a boa dona da casa.
* Voc deve estar gelado, criatura. - E virou-se para as
mu-lheres: - Como ? Que esperam para nos passar o samovar?
* O ch  j  est  pronto - respondeu uma das noras, que,
limpando com um pano o samovar fumegante, levan-tou-o a custo
e colocou-o pesadamente em cima da mesa.
Vasslii Andritch comeou a relatar como haviam se perdido e
dado, por duas vezes, com os costados ali. Por~ menorizou tudo
quanto acontecera na procura do rumo cer-to e enfatizou o
encontro com o tren carregado de campo-neses bbados. O velho
se impressionou muito com o extravio, explicou onde e por que
acontecera, esclareceu quem eram os indivduos embriagados e
para que lugar de-viam ter ido.
* Para se ir a Moltchanovka  muito simples. Nem uma criana
se engana no caminho. Basta virar quando se chega ao primeiro
bosque.
* Mas o certo  que se enganaram - ponderou o vi-zinho.
* No ser  melhor dormir aqui? Resolvam. Num instantinho
arrumaremos camas - disse a velha.
* Sim, ser  muito melhor. Amanh, bem cedinho, continuariam a
viagem - apoiou o velho.
* Impossvel, meu caro. Tenho negcios Urgentes - retrucou
Vasslii Andritch. - Aquilo que a gente pode per-der numa
hora, s vezes nem em um ano pode recuperar - acrescentou, ao
se lembrar da floresta e dos negociantes que no trepidariam
em lhe dar uma rasteira. E, voltando-se para Nikita: - Havemos
de chegar l , no  mesmo?
Nikita no respondeu logo, fingindo estar entretido com as
barbas e os bigodes, mas, por fim, murmurou em tom aborrecido:
102
vendo.
* Desde que no nos percamos outra vez
Estava chateado porque sentia uma grande vontade de beber
vodca. O ch  poderia atenu-la, mas ainda no lhe haviam
oferecido.
-  preciso somente ficar atento  curva. Depois no haver 
como errar. A floresta fica logo adiante.
* O senhor  quem sabe, Vasslii Andritch. Por mim,
#
       


estou pronto - disse Nikita, recebendo o copo de ch , que
finalmente lhe estendiam.
* Pois est  feito. Bebamos o ch  e depois vamos em frente!
Nikita nada disse. Contentou-se em balanar a cabea, derramar
o ch  num pires e esfregar as rudes mos endure-cidas no vapor
que se desprendia, para aquec-las. Depois, levando  boca um
torrozinho de acar, saudou o velho e a velha dizendo:
-  sua sade! - e ingeriu duma vez o ch  quase fer* No seria
mau que algum nos levasse at a curva
* sugeriu Vasslii Andritch.
       
I
* Por que no? Petruchka atrelar  um tren e os guia-r  at l 
- disse o primognito.
* E um grande favor que me presta, amigo. Nem sei
1    como agradec-lo.
* No tem nada que agradecer, meu amigo. Fazemos isso de
corao - disse a velha.
O primognito ordenou:
* ~etruchia, atrele a gua.
* E para j ! - respondeu Petruchka sorrindo, e, ten-do
apanhado o gorro que estava pendurado num prego, correu para
executar o mandado.
Enquanto Petruchka preparava o tren, a conversa,
in-terrompida pela chegada de Vasslii Andritch, foi
reen-cetada. O velho se queixava ao vizinho de que seu
terceiro filho no lhe mandara nada de festas e presenteara a
mu-lher apenas com um leno francs. E concluiu:
* Os moos no respeitam mais nada.
* Tem inteira razo! No se pode mais com eles. Tm a cabea
cheia de coisas! Veja o Diemotcliikin. Quebrou o
       
103
#
       


brao do pai!  uma prova da falta de respeito que tm Pelos
mais velhos.         servando a fisionoNikita ouvia tudo
atentamente, ob mia dos que falavam. Teria prazer em
participar da conver-sa, porm, por demais ocupado com o seu
ch , restringia-se a assentir com a cabea. Esvaziava um copo
atr s de outro e ia se sentindo melhor  medida que se
aquecia. A con-versao voltava ao tema principal. Era
evidente que no falavam do caso em geral, mas precisamente do
que aconte-cia na famlia. O segundo filho, calado e
carrancudo, sen-tado junto do pai, andava a exigir que se
promovesse logo a diviso dos bens. Era uma questo que
aborrecia todos da famlia, mas no achavam conveniente
discutir assunto to particular na presena de estranhos,
Contudo, o velho no conseguiu mais se conter e, entre l
grimas, declarou que, enquanto vivesse, no faria partilha
nenhuma, pois, graas a Deus, desfrutavam grande fartura e, se
fossem dividir o que tinham, acabariam pedindo esmolas pelas
portas alheias.
* Foi exatamente o que aconteceu com os Matviev
* lembrou o vizinho. - Quando unidos, nada lhes faltava.
Depois da partilha so uns mendigos.
Este no respondeu e fez-se um constrangedor silncio,
quebrado por Petruchka, que, tendo atrelado a gua, voltara e
ficara escutando a conversa com um sorriso nos l bios.
* No livro de Paulsen h  uma f bula sobre um caso parecido.
Um pai desafiou os filhos a quebrarem um feixe de vimes.
Nenhum deles conseguiu. Ento o pai, separando as hastes, foi
partindo uma a uma e num instantinho o feixe estava quebrado.
- Com um sorriso maior, arrematou: - E um caso parecido! - E,
logo, virou-se para os visitantes: - Est  tudo pronto para a
partida.
* Como, est  tudo pronto? timo! Ento  marchar!
* exclamou Vasslii Andritch. - E quer um bom conse-lho,
vovozinho? No faa partilha nenhuma. Foi voc quem juntou
tudo o que tem, no foi? Pois, ento,  o ni-co dono de tudo.
Procure o juiz de paz e ele dir  o que deve ser feito.
* Meu filho cria tantas complicaes, tantas - falou
       
I
o velho com voz chorosa - que a gente no sabe o que h de
fazer. Parece que  movido pelo diabo!
Tendo terminado o quinto copo de ch , Nikita no o
emborcou sobre o pires; colocou-o bem  vista na esperana de
que o enchessem de novo. Mas o samovar j  estava vazio e a
dona da casa no lhe ofereceu mais nada, e,
alm disso, o amo j  comeava a se aprontar. No havia outro
remdio se no se conformar e Nikita levantou-se,
recolocou. no aucareiro o torro de acar que roera de to#
       


dos os lados, enxugou com a aba do cafet o suor que escorria
do rosto e vestiu a pelia. Pronto, suspirou profundamente,
agradeceu aos donos da casa pela hospitalidade,
cumprimentou todos e saiu da sala iluminada e aquecid
para o vestImulo sombrio, frio e coberto de neve, onde o
vento uivando penetrava pelas frestas da porta e das pare-des.
E desceu para o p tio escuro como breu.
Petruchka, enfiado numa pelia, estava de p ao lado da gua,
no meio do p tio, e recebeu-o, sorrindo, com uns versos do
livro de Paulsen:
i
"A tempestade escurece o cu
Levantando turblbes de neve,
E ora uiva como umafera,
ora cbora como uma criana".
       
Nikita aprovava, balanando a cabea, enquanto desa
marrava as rdeas. Vasslii Andritch com uma
o velho veio acompanhar no vestbulo para que os lanterna na
mo. Quis pous ~la viajantes pudessem enxergar melhor, porm,
a ventania apagou-a logo, Era patente que a nevasca estava
mais forte do que antes.          sou vasslii Andritch.
"Que tempo desgraado!", pen
ais prudente pernoitarem ali. Mas os negoTalvez fosse ril
cios? No, no era possvel! Demais, tudo j  estava pronto
para a partida, a gua atrelada Haviam de se safar daquela.
"Deus  grande"'
o velho tambm achava perigosa a viagem com aquele tempo.
Melhor fariam se ficasseni. Conselhos tinha dado,
105
#
       


sem que lhe dessem ouvidos, achou intil insistir mais e
pensou: "Talvez a velhice esteja me pondo medroso. No vai
acontecer nada de mau. E, se eles se vo, poderemos 1 dormir
mais cedo, sem amolaes"
Quanto a Petruchka, a idia do perigo no lhe passava pela
cabea: conhecia o caminho como a palma das mos!  E, alm
disso, os versos que recitara incutiam-lhe mais cora-gem, pois
descreviam exatamente o que ele estava vendo com os seus
prprios olhos.
E Nikita, conquanto no tivesse a mnima vontade de partir,
desde muito estava habituado a no ter vontade e a obedecer 
dos outros. Assim, nada impediu que prosse-guissem viagem.
4A
I
I
As apalpadelas na escurido, pois a lua ainda no aparecera,
Vasslii Andritch acomodou-se no tren e to-mou as rdeas.
* V  na frente - pediu a Petruchka.
O moo, ajoelhando~se no treno, que era baixo, largo e sem
assento, tocou a gua. O Baio, que se pusera a relin-char com
a presena da gua, lanou-se em seu encalo. E os dois trens
se foram pela rua afora.
Vasslii Andritch e Nikita iam pelo mesmo caminho que os
trouxera. Tornaram a passar pela casa onde as rou-pas na
corda, inteiramente congeladas, rangiam batidas pelo vento sem
que mais pudessem ser vistas na escuri-do; tornaram a passar
diante do celeiro, que quase desa-parecera sob a neve, e pelas
pereiras, que, vergando sob as rajadas do vento, gemiam mais
que nunca, e, finalmen-te, entraram, mais uma vez, num
verdadeiro mar de neve, cujas enfurecidas ondas os assaltavam
por todos os lados.  A ventania era to poderosa que, quando
os pegava de lado, fazia o tren se inclinar e empurrar o
cavalo para o lado contrrio.
Petruchka, na dianteira, estimulava a bela gua com berros
estridentes e o Baio tudo fazia para alcan-la.
Assim j  haviam andado uns dez minutos, quando
Petruchka voltou-se e gritou-lhes algumas palavras, que
nem Vasslii Andritch nem Nikita conseguiram compreender por
causa do vento. Mas perceberam que tinham chegado  falada
curva. Realmente, Petruchka voltava pela direita
10-7
#
       


e sentiram que o vento, at ali os fustigando de lado, vinha
bater-lhes em cheio na cara.
Apesar da densa neve, entreviram,  direita, uma man-cha negra
- era o mencionado bosque.
* Que Deus os leve!
* Muito obrigado, Petruchka!
* "A tempestade escurece o cu!" - declamou
Petruchka pela ltima vez.
* Este camarada tem mania de dizer versos! - co-mentou
Vassli Andritch, e bateu de leve com as rdeas nas ancas do
Baio.
-  um bom rapaz. Um verdadeiro campons - dis-se Nikita.
E avanaram rapidamente.
Enroscado na pelia, a cabea to enterrada nos ombros que a
barba lhe espetava o pescoo, Nikita guardava absoluto
silncio, a fim de no perder nem um pouco do bom calor que
armazenara com tanto ch  bebido. Divisava na sua frente as
duas linhas retas dos varais e constante-mente se enganava,
cuidando que fossem sulcos da estrada.  Divisava ainda a
garupa bamboleante do Baio, com a cauda em n e que o vento
impelia sempre para o mesmo lado, e, mais adiante, a cabea do
animal e o seu pescoo com a cri-na eriada. De quando em
quando, procurava os marcos, ora de um lado, ora de outro,
para se certificar de que conti-nuavam na estrada e que,
portanto, bastava confiar no cava-lo para nada temer.
Vasslii Andritch guiava de modo a permitir que o ca-valo se
mantivesse por si mesmo na direo certa. Mas o Baio, apesar
de haver descansado, parecia trotar de m vontade, e vrias
vezes se desviou do meio da estrada, obri-gando o condutor a
usar as rdeas para endireit-lo.
"L  est  um marco  direita..outro     mais outro     ia
contando Vasslii Andritch. "A floresta fica mais adiante",
raciocinava, tentando ver o que era a massa negra que se
elevava na sua frente. Mas o que pensava ser a floresta no
era mais do que um bosquezinho. Passaram por ele e percorreram
mais uns trinta metros sem verem mais nenhum
marco nem a almejada floresta. "Ela s pode estar ali  dizia
de si para si Vasslii Andritch. E, animado pela vodca e pelo
ch , no cessava de instigar o animal, que, dcil e co-rajoso,
ora a trote, ora mais devagar, ia sempre na direo que lhe
imprimiam, no ignorando estar em rumo errado.  Transcorreram
mais dez minutos e a floresta no aparecia.
* Outra vez nos perdemos - disse Vasslii Andritch detendo o
cavalo.
Sem falar nada, Nikita desceu do tren, segurando o cafet,
que o vento ora colava ao corpo, ora abria todo, e comeou a
andar na neve para um lado e para o outro.
Por trs vezes sumiu da vista do amo. Por fim, voltou e pe#
       


diu as rdeas.
* Temos de tomar pela direita - decidiu firme e se-veramente,
fazendo o cavalo se virar.
* Est  bem, tomemos a direita - concordou o amo transferindo
sem relutncia as rdeas e logo escondendo as mos geladas
dentro das mangas.
Nikita no lhe deu resposta, mas gritou para o Baio:
* Como , meu querido! Mais um arrancozinho!
O cavalo, porm, no atendia ao apelo e ia passo a passo, por
mais que Nikita sacudisse as rdeas. Em certos pontos,
enterrava-se at os joelhos e o tren s avanava aos
arrancos. Nikita tomou o chicote, que pusera na frente do
tren, e aplicou umas lambadas no lombo do Baio. O brioso
animal, no habituado a castigos, fez um tremendo esforo e
comeou a trotar. Logo, porm, diminuiu o anda-mento e voltou
a ir a passo. Assim prosseguiram por uns cinco minutos. Estava
to escuro e o vento levantava tais nuvens de neve, que em
certos momentos no viam nada dentro do tren e, em outros,
parecia que ele parara e que era a plancie que se deslocava
para tr s. Sbito, o cavalo estacou bruscamente como se
pressentisse um perigo.  Nikita largou as rdeas, desceu e
adiantou-se para averiguar o motivo da parada; nem
ultrapassara a cabea do cavalo, quando escorregou
"Pare! Pare! Pare!", dizia a si mesmo, fazendo o pos108
svel para parar. Mas no conseguia firmar os ps e s parou
quando eles se prenderam na grossa camada de neve que o
vento acumulara no fundo da ravina. A espessa neve que
109
#
       


cobria os bordos da ravina, abalada pela queda de Nikita,
desprendeu-se e caiu sobre ele, quase o sepultando.
DesvenCilhou-se, comeou a se sacudir todo e berrou:
* Ento a coisa era esta, no ?
* Nikita!  Nikita! - gritava l de cima o amo.
Mas Nikita no respondia. Continuava se sacudindo e procurando
o chicote, que lhe escapara da mo quando ro-lara a
ribanceira. Custou, mas encontrou-o e tratou de subir pelo
mesmo lugar por onde despencara, Foram em vo as tentativas -
no conseguia encontrar um ponto de apoio.  No perdeu a
cabea, e procurou, andando no fundo da ravina, um lugar
propcio  escalada. Pouco alm donde cara, encontrou-o e,
com imensa dificuldade, quase engati-nhando, atingiu o alto da
ravina. Cautelosamente pela beira, caminhou para o lado onde
supunha estar o tren. No o encontrou. Mas como estivesse
andando contra o vento, an-tes de v-lo, ouviu os gritos de
Vasslii Andritch e os relin-chos do Baio.
* j  vou l ! j  vou l ! Por que esse berreiro todo, meu
Baio? - bradou ele.
E s quando chegou pertinho do tren  que viu o ca-valo e, ao
lado dele, Vasslii Andritch, que lhe pareceu enorme.
* Onde se meteu? Raios o partam' Precisamos voltar sem demora.
Vamos ver se ao menos conseguiremos chegar a Grichkino - e
Vasslii Andritch estava colrico.
* Chegar a Grichkino? Outra coisa no queria eu'
Mas de que maneira? Ali na frente h  uma ravina que no tem
tamanho. Se cairmos nela, de l  no sairemos. Rolei at o
fundo e sei bem o quanto me custou safar-me.
* Mas aqui  que no iremos ficar! Temos que tocar para diante
- e Vasslii Andritch falava em tom categrico.
Nikita nada retrucou. Sentou-se no tren, de costas para o
vento, tirou as botas e sacudiu a neve que as enchia.  Em
seguida apanhou um punhado de palha e com todo o cuidado
tapou, pelo lado de fora, um buraco que havia no p esquerdo.
O amo emudeceu como se dependesse em tudo, agora, da esperteza
de Nikita, que, aps se calar de novo, su110

       ,
       
biu no tren, enfiou as luvas, pegou nas rdeas e, mano-brando
o cavalo, fez que ele avanasse lentamente pela beira da
ravina. O Baio, porm, no havia dado nem cem passos, quando,
de sbito, empacou outra vez. Havia ali outra ravina.
Nikita desceu e foi procurar outra passagem. Demorou
bastante tempo, mas, afinal, reapareceu no lado oposto
#
       


quele donde tinha partido.
* Como , Vasslii Andritch, ainda est  vivo? - per-guntou
aos berros.
* Estou aqui! - respondeu o amo. - H  alguma coisa?
* No consigo encontrar o caminho. Est  escuro como o diabo!
H  ravinas a cada passo. Precisamos andar no sentido do
vento.
Avanaram mais um pouco. Novamente Nikita apeou, arrastou-se
pela neve, farejando uma escapatria. Ia, vinha, por fim, sem
f"lego, parou junto ao treno.
* Que h  agora? - perguntou Vasslii Andritch.
* H  que no me agento mais. E o Baio tambm j no vai l 
das pernas.
* Que vamos fazer, ento?
* Espere um pouco.
Nikita mais uma vez se embarafustou na nvoa, mas desta feita
no se demorou. Colocou-se na frente do cavalo e comandou:
* Siga-me!
O amo no dava mais ordens, obedecendo sem restri-es a tudo
quanto o empregado decidia.
* Siga-me! - gritou novamente Nikita.
Deu um passo para a direita, segurou o Baio firme-mente pelo
freio e, r pido, puxou-o para o monte de neve que cobria as
bordas da ravina. A princpio, o animal relu-tou, mas acabou
cedendo ao pulso de Nikita e, de um salto, tentou vencer o
obst culo. No conseguiu, e enterrou-se na neve at o pescoo.
* Desa da! - gritou Nikita para o amo, que conti-nuava muito
bem instalado no tren.
Vasslii Andritch desceu sem tugir nem mugir. Nikita
ill
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I
atracou-se a um varal e empurrou o tren, que ficou um pouco
sobre a anca do animal.
* Est  duro, irmozinho - e afagava o cavalo mas que posso
fazer? Vamos! Mais uma forcinha! Muito bem! Outra!
O Baio deu duas arrancadas, mas no conseguiu subir.
Recuou, ficou imvel como se estivesse refletindo.
* Como , meu anjo, no podemos ficar assim - dis-se Nikita ao
cavalo. - Vamos! Mais uma vezinha.
Novamente se atracou a um varal, enquanto Vasslii Andritch
empurrava o outro. O Baio sacudiu a cabea, to-mou impulso e
arremeteu.
- timo! timo! No tenha medo! Voc no vai mor~ rer no! -
berrava Nikita.
Um segundo arranco, um terceiro, e o valente cavalo transp"s o
monte de neve. Parou, ofegante, e sacudiu-se todo.
Nikita queria continuar andando, mas Vasslii Andritch
arquejava de tal forma sob as duas pelias que, com as pernas
tr"pegas, caiu pesadamente dentro do tren.
* Deixe-me tomar f"lego - pedia, desatando o n do leno, que,
na aldeia, amarrara em tomo da gola da pelia.
* As coisas melhoram. Pode ficar a, enquanto eu guio -
respondeu o criado.
Vasslii Andritch acomodou-se no tren. Nikita segu-rou o
cavalo pelo freio, obrigou-o a descer uns dez passos, depois
levou-o para um lugar mais alto e parou.
No estavam no fundo da ravina, onde a neve, forada
pelo vento, poderia sepult-los. O lugar escolhido era um
declive, que ficava razoavelmente abrigado da ventania pelos
rebordos da ravina. Em certos momentos o vento parecia
abrandar, mas tais calmarias eram curtas e, depois delas,
como se quisesse recuperar o tempo perdido, o vendaval
recrudescia com uma violncia indescritvel, erguendo
turbilhes de neve com uma fria ainda mais feroz. Uma dessas
rajadas caiu sobre eles precisamente quando Vasslii
Andritch, tendo se recuperado um pouco, se aproximava
de Nikita para lhe perguntar o que tencionava fazer.
Agacharam-se, involuntariamente, e esperaram que a clera do
11 ?
~l,                                      vento se aplacasse.
O Baio murchara as orelhas, contrariado, e sacudia a cabea.
Assim que o vento diminuiu, Nikita tirou as luvas, meteu-as no
cinto, esquentou as mos com o proprio bafo e comeou a
desatrelar o cavalo.
* Que vai fazer? - indagou, inquieto, o amo.
* Simplesmente desatrel-lo. Que posso eu fazer mais? Estou
cansadssimo! - retrucou Nikita, como que se
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desculpando.
* Ento no vamos continuar?
* Continuar para onde? Acabaremos matando o ca-valo. Veja s o
estado do pobrezinho. Mal pode mexer com as pernas - ponderou
Nikita, mostrando o Baio, que estava com a cabea abaixada,
submisso e pronto para tudo, respirando penosamente, os
flancos ensopados de suor. - Temos que passar a noite aqui
mesmo - prosse-guiu, desafivelando as correias, como se
dissesse que iam tomar quartos numa hospedaria.
Terminou a sua obra. O amo perguntou:
* Acha que no iremos morrer de frio?
* Tudo  possvel. Mas que poderemos ns fazer de melhor? -
respondeu Nikita.
#
       


vi
Vasslii Andritch sentia-se bastante aquecido debaixo das
duas pelias e ainda mais depois do esforo de ajudar a
empurrar o cavalo e o tren no monte de neve. Mas, quan-do viu
que iria passar a noite ao relento, um arrepio de frio
percorreu-lhe o corpo. Para se acalmar, sentou-se no tren e
sacou do bolso cigarros e fsforos.
Enquanto isso, Nikita desatrelava o Baio. Desapertara a
barrigueira, o selim, as rdeas e os tirantes, e retirou a
cabe-ada, falando o tempo todo com o cavalo para encoraj-lo.
* Vamos, saia da! - dizia ele, puxando-o para fora dos
varais. - Vou amarrar voc bem amarradinho, vou tirar o freio
e lhe dar um pouco de palha.
Ia fazendo o que dizia e no cessava de falar.
* Logo que voc tiver comido, vai se sentir outro.
Mas era evidente que as palavras de Nikita no sossega-vam o
Baio, que escarvava a neve, procurava colar-se ao tren com o
traseiro para o vento e esfregava a cabea na manga de Nikita.
Com um imprevisto movimento, mordeu um bocado da palha mas
dir-se-ia que o seu intuito era o de no contrariar Nikita com
uma recusa; logo, porm, devia ter chegado  con-cluso de que
no era hora para se pensar em comida, pois largou a palha,
que o vento, imediatamente, espalhou.
* Vamos, agora, botar um sinal aqui - disse Nikita.
Colocou o tren com a traseira enterrada na neve, e,
de frente para o vento, ligou os dois varais com uma correia,
levantou-os e apoiou-os firmemente contra a parte dianteira do
veculo,
n4
* Est  uma maravilha! Se a neve nos soterrar, facil-mente
vero pelos varais e nos desenterraro - explicou ele,
calando as luvas. - Era assim que os antigos faziam e eu no
esqueci a lio.
Vasslii Andritch abrira a pelia e, protegendo-se do ven-to
com as abas, procurava acender um cigarro. Riscou um fs-foro
atr s do outro, mas as mos tremiam e no conseguia acend-lo.
Por fim, p"de riscar um, que iluminou por breve instante a
gola da pelia, a mo com o valioso anel no indica-dor e a
palha de aveia, salpicada de neve, que aparecia sob a manta.
vido, aspirou duas vezes o cigarro, tragou a fumaa e
soprou-a por entre os bigodes. Ia dar outra tragada, quando o
vento arrancou-lhe o cigarro da boca. Mas as poucas baforadas
foram suficientes para levantar o nimo de Vasslii Andritch.
* Ora bem! j  que no h  outro jeito, passemos a noite aqui
mesmo - declarou decididamente. - Mas vou arranjar uma
bandeira.
Apanhou o leno, que minutos antes tirara e jogara no
fundo do tren, descalou as luvas, trepou na parte diantei#
       


ra do veculo, esticou-se na ponta dos ps para alcanar a
correia que prendia os varais e nela atou com firmeza o
len-o. Incontinenti, o vento agitou-o com violncia,
fazendo-o estalar, ora colocando-o contra os varais, ora
enfunando-o como a vela de um barco.
* Ficou formid vel! - exclamou ele mesmo, entu-siasmado com a
sua faanha e acomodando-se no tren. - Se fic ssemos bem
juntinhos, resistiramos melhor ao frio - ajuntou. - Mas no
h  espao para dois.
* Eu me defenderei - respondeu Nikita. - Mas  preciso no
esquecer do cavalo, coitadinho, que est  alagado de suor. Com
licena - continuou, aproximando-se do tren e tirando a manta
sobre a qual Vasslii Andritch se sentava.
Dobrou-a e, tendo tirado o selim, cobriu o Baio com ela.
* Vai ficar quentinho que  um regalo, seu bobinho!
* disse para o cavalo, enquanto recolocava o selim por cima da
manta.
Acabada a obra, dirigiu-se para o tren:
* No vai precisar deste saco velho, vai? Tambm quero um
pouco de palha.
       
115
I
#
       


E, tirando a serapilheira e a palha, que estavam debai-xo de
Vasslii Andritch, foi para tr s do tren, cavou um buraco na
neve, forrou-o com a palha, puxou o gorro at o nariz,
embrulhou-se bem no cafet, cobriu-se com a serapilheira e se
sentou na palha, encostando-se no tren, que o resguardava um
pouco do vento e da neve.
Vasslii Andritch acompanhava aquela movimentao,
desaprovadoramente abanando a cabea. Ali s, sentia um grande
prazer em reprovar, sempre que possvel, a ignoran-cia e a
burrice dos camponeses.
E achou que estava na hora de, por seu turno, se insta-lar
convenientemente para varar a noite.
juntou a palha que ainda restava no fundo do tren, fez com
ela uma espcie de almofada para se apoiar de lado, enfiou as
mos nas mangas e deitou-se com a cabea encostada na parte
traseira do tren, evitando assim a inci~ dncia cortante do
vento.
Sono no tinha. Pensava. Pensava sempre na mesma coisa,
naquilo que constitua o objetivo, o significado, a ale-gria e
o orgulho de toda a sua vida - o dinheiro que ga-nhara e que
ainda podia ganhar, o dinheiro dos seus conhe~ cidos, e como
tinham conseguido fazer fortuna, e as maneiras com que, tal
como os outros, poderia acumular ainda mais dinheiro. A compra
da floresta em Goriatchkino tinha para ele importncia
capital. Esperava obter largos lu-cros com o negcio,
possivelmente uma dezena de milhares de rublos. E comeou a
avaliar, mentalmente, a floresta que inspecionara no outono e
cujas  rvores contara numa ex- tenso de dois hectares como
base para calcular o total.
"Os carvalhos serviro para trenos e para vigas. Cada
hectare no dar  menos de uns trinta metros cbicos de
madeira. A floresta tem cinqenta e seis hectares De cada
hectare tirarei brincando vinte e cinco rublos. Bem explorada,
portanto, render  mais de doze mil rublos." Mas no podia ter
uma quantia exata, pois lhe faltava o baco. "De
qualquer maneira, no darei mesmo dez mil rublos por ela,
mas sim oito mil e nem mais um nquel. E ainda descontarei
as clareiras. Vou subornar o agrimensor corri cem ou cento
e cinqenta rublos e ele medir  uns cinco hectares de ela116
reiras. Sim, o proprietrio ficar  satisfeito com os oito mil
rublos. Dou trs mil de entrada na hora e ele no discutir
mais" - e apalpou a carteira. "Mas como nos fomos perder
depois da curva? S Deus sabe! Pelo que andamos j  deva-mos
estar na floresta, bem perto da cabana do guarda-flo-restal.
Mas no se ouve o latido dos ces. Os bandidos no ladram
exatamente quando precisamos deles!"
Abaixou um pouco a gola da pelia e apurou o ouvido. Nada,
fora o assobio do vento, os estalidos do leno
#
       


amarrado nos varais e o barulhinho da neve caindo sobre o
tren. E tornou a se resguardar.
"Se adivinh ssemos o que nos estava reservado, tera-mos
pernoitado na aldeia. Mas no h  de ser nada. Chega-remos a
tempo. Perderemos somente um dia. E, com uma tempestade assim,
ningum  doido de se arriscar." E acu-diu-lhe que, no dia 9,
o aougueiro tinha de prestar contas.  "Ele gosta de vir
pessoalmente fazer o pagamento, mas no me encontrar . E minha
mulher no sabe tratar de negcios.  Na verdade,  uma parva!
No sabe nada e nem sequer tem boas maneiras." Recordou como
se embrulhara toda na vs-pera, quando o chefe do distrito os
fora visitar. " uma mu-lher vulgar! No tem o menor traquejo!
Que  que ela j  viu?
Quando meus pais viviam, que era a nossa cas2 Uma coisa
_toal Um barraco, um pouso e era tudo o que um campons
rico possua naquele tempo. E agora? Quanto consegui em quinze
anos! Tenho um armazm, duas tavernas, um
moinho, um celeiro cheio de trigo, duas glebas arrendadas
e uma casa com um galpo coberto de chapas de zinco, em
suma, uma bela propriedade!" - e Vassli Andritch era
todo orgulho ao monologar. "Est  tudo completamente diferente
do tempo de meu pai! De quem  que se fala mais em
toda a regio? De Brekhunov! E por que razo? Porque trabalho
no duro! No sou como os outros, uns mandries que
s pensam em bobagens. No durmo de noite. Com bom
ou mau tempo, estou na labuta. E  assim que os negcios
prosperam. Os outros pensam que podem ganhar dinheiro
na moleza Esto muito enganados! Quem quiser ter alguma coisa
de seu tem de suar, tem de quebrar a cabea, tem
de passar a noite em claro, como agora eu aqui em pleno
117
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campo. Quando a gente pensa muito, o sono foge. E incr-vel
como h  pessoas que pensam que ganhar dinheiro  uma questo
de sorte! Que sorte? Que trabalho! Os Mironov esto
riqussimos. E me digam se foi acaso? Trabalhe que Deus o
ajudar ! S peo a Deus que me d sade!"
E somente o pensar que poderia ficar milionrio como aquele
Mironov perturbou de tal maneira Vasslii Andritch que ele
sentiu necessidade de se abrir com algum Mas no havia
ningum com quem se desabafasse Ah! Se ti-vesse ficado em
Goriatchkino! Quanto assunto no teria para discutir com o
proprietrio! Mostraria quem era Brekhunov!
"Que raio de vento! Vamos ficar to cercados de neve que
amanh no poderemos sair daqui", pensou, prestando ateno s
rajadas de neve que aoitavam a parte da frente do tren.
Levantou a cabea e rodou o olhar em volta. Na esbranquiada
penumbra s se distinguia o vulto escuro do Baio, a cabea
erguida, o lombo coberto pela manta que o vento sacudia, e o
grosso rabo com um n. Em torno, por todos os lados, pela
frente e por tr s, a neve era uma convulsiva cortina leitosa,
que em certos instantes parecia se esgarar, mas que logo se
tornava mais densa.
"Fiz muito mal em atender a Nikita", concluiu. "Devia t-lo
obrigado a marchar para a frente. Haveramos de chegar a um
lugar qualquer! Pelo menos poderamos ter voltado a Grichkino
e dormido l . Ficaramos em casa de Tarass. Ao passo que
agora temos de gramar a noite inteira aqui. Ah, como foi
aquilo que eu lembrei de agrad vel?  Sim, j  sei!  que Deus
abenoa os que trabalham e no d nada aos preguiosos e aos
idiotas Ah, seria bom dar uma tragada!"
Sentou~se, sacou a cigarreira do bolso e se deitou de
bruos, no fundo do tren, procurando defender, com a
gola levantada, a chama do fsforo. O vento, porm, tal
como fizera antes, apagava um palito atr s do outro. Mas
sempre conseguiu que um vingasse e se p"s a fumar, e o
simples fato de ter acendido o cigarro encheu-o de
contentamento. Embora o vento consumisse o cigarro mais do que
ele, ainda p"de dar umas duas ou trs chupadas, que muito
o reanimaram. Deitou-se de novo, cobriu-se to cuidadosa-mente
quanto da outra vez e logo comeou a rememorar o passado e a
sonhar com as suas riquezas futuras. De repen-te, seus
pensamentos se embrulharam e ele mergulhou num pesado sono.
Mas, de sbito, como se tivesse levado um choque, despertou.
Fora o Baio que tentara tirar um bocado de pa-lha sobre a qual
estava deitado, ou fora um abalo interior?
Fosse l como fosse, o certo  que ele acordou e sentiu o
coraao a palpitar com tal intensidade, que dava a ntida
impresso de que o tren tremia debaixo dele. Abriu os olhos,
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nada mudara  sua volta, mas pareceu-lhe que aclarara um
pouco. "Sim, comea a clarear. O amanhecer no tarda",
conjeturou. Mas logo viu que a claridade era devida  lua que
se mostrava no cu. Soergueu-se e olhou para o Baio, que
continuava de p, a traseira voltada para o vento, tre-mendo.
Coberta de neve, a manta tombara para um lado; a retranca
escorregara e se via melhor a sua cabea, polvilha-da de neve
e com a crina arrepiada. Vasslii Andritch do-brou-se sobre a
parte traseira do tren para ver o que era feito de Nikita. O
criado permanecia na mesma posio. Os ps e a serapilheira
com que se cobrira haviam desapareci-do sob grossa camada de
neve. "Queira Deus que no morra de frio! Suas roupas no
agasalham nada! Se morrer vo dizer que fui eu o culpado! Que
gente burra! Como a instruo faz falta!", pensou Vasslii
Andritch. Imaginou ti-rar a manta que cobria o cavalo e
coloc-la sobre Nikita, mas logo desistiu, pois iria sentir
frio quando se levantasse e o cavalo poderia ficar gelado.
"Ora bolas, por que fui traz-lo comigo? A culpa foi toda
dela", e se lembrou da mulher, a quem no tinha amor. E
acomodou-se de novo no fundo do tren.
"Meu tio passou uma noite inteira assim e no sofreu
nada", acudiu-lhe de repente. E a seguir um outro caso veio
 mente: ", mas Sevastiavos, coitado, no escapou. Quan      

do removeram a neve que o soterrava, estava morto, duro como
um pedao de carne congelada. Se eu tivesse ficado em
Grichkino no estaria passando este aperto".
Embrulhou-se prudentemente na pelia de modo a
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no perder o calor que seu corpo ainda armazenava e, fe~
chando os olhos, tentou readormecer. Mas, apesar de todos
os esforos, no conseguiu, sentia-se, pelo contrrio, insone
e agitado. Recomeou a relacionar as posses que tinha e o
quanto lhe deviam, elogiou-se e rejubilou-se pela excelente
situao que desfrutava, mas, a todo momento, seus pensamentos
eram cortados por um estranho terror e pelo arrependimento de
no ter pernoitado em Grichkino, "Oh, outros galos cantariam
se eu estivesse deitado numa boa cama
agora, bem coberto, bem quentinho_"
Virou-se e revirou-se vezes sem conta, nunca encon-trando uma
posio satisfatria. Levantava-se, deitava-se de outra
maneira, tornava a cobrir os ps, ficava sossegado um minuto.
Logo sentia que as botas estavam apertando ou que o vento
penetrava por uma abertura qualquer de sua roupa.  Voltava a
pensar, muito aborrecido consigo mesmo, como poderia estar
gozando o bom calor daquela sala em Grichkino. E levantava-se,
virava-se, embrulhava-se melhor na roupa e tomava a se deitar.
Em dada hora, acreditou ter ouvido o canto dos galos ao longe.
Alegre, abaixou a gola da pelia e se p"s a ouvir com a maior
ateno. Mas, bastante decepcionado, no per-cebeu nada alm
do barulho que o leno fazia agitado pelo vento e o insistente
bater da neve no tren.
Nikita no fizera o mnimo movimento, desde que se ajeitara
atr s do tren. Nem tomara conhecimento das duas ou trs
perguntas que o amo lhe endereara. "Aquele nem se importa com
o que est  acontecendo! Certamente est ferrado no sono",
pensava Vasslii Andritch, um tanto des-peitado e dobrando-se
sobre a parte de tr s do tren, a fim de observar Nikita
coberto de neve.
Vasslii Andritch se levantou e se deitou pelo menos umas
vinte vezes. Parecia-lhe que aquela noite no acabava mais.
"Agora, sem dvida, o dia vai raiar", murmurou, levan-tando-se
e passeando os olhos em redor. "Se eu soubesse que horas so!
Mas se abrir a pelia vou sentir mais frio. As-sim que
perceber que est  amanhecendo, crio alma nova.  Poderamos
atrelar logo o cavalo e zarpar."
120
No ntimo, Vasslii Andritch no ignorava que o dia devia
estar ainda bem longe, mas sentia se acentuar um medo
indefinvel e ansiava por, ao mesmo tempo, aplac-lo e
enganar-se a si prprio. Cauteloso, desabotoou a peli-a e
lentamente foi enfiando a mo por debaixo da roupa, tateando,
tateando at chegar ao colete. A muito custo ti-rou o relgio
de prata com flores esmaltadas na tampa e procurou ver as
horas. Mas no distinguia o mostrador.
Apoiou-se nos cotovelos e nos joelhos, como j  fizera an#
       


tes para acender o cigarro, e, mais cauteloso ainda, abriu a
caixa de fsforos, escolheu pelo tato o palito que lhe
pare-ceu mais grosso e riscou-o sem que ele falhasse. Chegou o
relgio para a chama e consultou-o. No podia acreditar no que
marcavam os ponteiros Meia-noite e dez! A noite apenas
principiava
* Oh! esta noite no tem fim! - gemeu Vasslii
Andritch, sentindo um arrepio de frio correr-lhe pela
espi-nha. Tornou a se abotoar, cobriu-se meticulosamente, se
ajeitou no canto do tren, disposto a esperar com a m xima
paciencia.
* s voltas tantas, apesar do ulular da ventania, ouviu
ni-tidamente um rumor caracterstico - o rumor de um ser vivo.
O rudo foi aumentando, conservou certa regularida-de, depois
baixou de intensidade. Era um lobo, no havia a menor dvida.
E devia estar bem perto, pois se ouvia clara-mente o barulho
que fazia com as mandbulas. Afastando a gola, Vasslii
Andritch p"s-se  escuta. O Baio tambm ou-vira e empinara as
orelhas. A fera uivou e o cavalo sapateou e relinchou como
advertindo a proximidade do perigo. De-pois do incidente,
Vasslii Andritch no somente no p"de dormir como teve de
lutar incessantemente contra a inquie-tao que o dominava.
Procurava encaminhar os pensa-mentos para seus negcios, para
a sua situao financeira e para os seus bens, mas o medo o
empolgava num crescen-do. O arrependimento de no ter
pernoitado em Grichkino no o largava.
"Que a floresta fique como est  e Deus faa dela o que
quiser! j  tenho tantos negcios bons que no preciso dela,
graas a Deus! Eu devia  ter pernoitado em Grichkino!", re121
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I I
pisava. "Dizem que a gente sente mais frio depois de beber.
E eu bebi."
Mas, sentindo o corpo tremer, no sabia na verdade se era de
frio ou de medo. Quis se cobrir e se acomodar, como j  fizera
vrias vezes antes, mas foi impossvel. No era capaz de se
manter quieto. Tinha mpetos de se levantar, de 
fazer qualquer coisa para sufocar o pnico, que
progressivamente aumentava e contra o que se sentia impotente. 
Mais uma vez recorreu ao cigarro. Mas s restavam trs
fs-foros, os piores da caixa, e nenhum acendeu.
* Que o diabo te consuma, desgraado! - praguejou alto sem
saber contra quem. E, esmagando o cigarro, atirou-o longe.
Quis tambm jogar fora a caixa de fsforos, mas, pensando
melhor, meteu-a no bolso. Tamanho pavor o pos-sua, que no
p"de mais ficar onde estava. Saiu do tren e, de costas para o
vento, desamarrou o cinto e tornou a amarr-lo mais
apertadamente.
"Que me adianta ficar aqui  espera da morte? Vou montar no
Baio e tocar para a frente!", acudiu-lhe de repen-te. "O Baio
 esperto e h  de se safar. Quanto quele ali (e pensava em
Nikita), tanto faz morrer como viver. A vida, para um
pobre-diabo como ele, no  nada divertida, no tem
importncia. Comigo, o caso  diferente. Graas a Deus tenho
os meus guardados e"
Desamarrou o Baio, colocou o freio e tentou mont-lo, porm,
as pelias e as botas estavam to pesadas que no conseguiu se
alar. Trepou, ento, no tren para alcanar o lombo do
animal, mas o tren balanou com o seu peso e ele caiu. Foi
mais bem-sucedido na terceira tentativa: puxou o cavalo para
perto do tren, fincou o p prudentemente no rebordo do
veculo e conseguiu se deitar de barriga no lombo do cavalo.
Assim ficou alguns momentos, depois, com dois ou trs
impulsos, passou uma das pernas por cima do animal. Afinal,
montou-o. Com as manobras de Vasslii Andritch, o tren
balanou, despertando Nikita, que se le-vantou um pouco.
Vasslii Andritch julgou que ele lhe dizia qualquer coisa e
gritou:
* Seria eu uma besta quadrada se fosse atender a gente imbecil
como voc! Que  que est  pensando? Acha
       
122
que vou morrer assim a troco de coisa nenhuma? Est  muito
enganado!
Prendeu as abas da pelia com os joelhos, para que o vento no
o estorvasse, e tocou o Baio na direo em que imaginava
encontrar a floresta e a cabana do guarda-florestal.
I
#
       


       
N~
#
       


vil
Nikita permanecera imvel desde que, envolvido na
serapilheira, se sentara atr s do tren. Como todos aqueles
que vivem mais perto da natureza e j  experimentaram a
mi-sria, tinha muita pacincia e poderia esperar horas e dias
in-teiros sem irritao e sem nervoso. Bem que ouvira as
inter-pelaes do amo, mas no respondera por no sentir
nenhuma vontade de se mexer ou de falar. Conquanto ainda se
conservasse aquecido devido ao ch  que tomara e ao exerccio
que praticara ao forar o Baio a transpor o monte de neve, no
se iludia que tal calor pudesse durar muito e sa~ bia que no
teria foras para se reaquecer, movimentando-se, j  que se
sentia to esgotado quanto um cavalo que p ra de~ pois de um
violento esforo e fica incapaz de prosseguir mesmo  custa de
chibatadas e que o amo compreende ser preciso aliment-lo para
p"-lo em condies de trabalhar.  Gelado tinha o p que
calava a bota furada e o dedo j  es-tava insensvel. Ali s,
o frio lhe ia invadindo, pouco a pouco, o corpo todo. Veio-lhe
ao esprito a idia de que podia e que at seria certo morrer
naquela noite, mas no a achou desa-grad vel ou assustadora.
No a achou desagrad vel porque sua existncia nunca fora boa,
pelo contrrio, sempre fora uma contnua servido e dela j 
principiava a ficar cansado, No tinha o menor medo porque,
alm dos senhores a quem servira na terra, e neles se inclua
Vassilii Andritch, sempre sentira que havia um outro maior,
Aquele que o pusera no mundo, e sabia que, mesmo na morte,
dependeria Dele, a quem no deveria temer de modo algum.
124
O0
       
" triste ter de abandonar tudo aquilo que nos cercou ga vida
e a que est vamos acostumados! Mas que remdio?  E preciso
que nos acostumemos tambm s novidades."
E, de repente, se lembrou dos seus pecados. Acudi-ram-lhe 
mente as suas carrasparias, os maus-tratos que in-fligira 
mulher, as blasfmias incontidas, as poucas vezes que aparecia
na igreja, o jejum que no observava e todos os pecados que o
padre lhe imputava no confessionrio.
"Sim, tenho pecados de sobra! Mas serei mesmo culpa-do ou foi
Deus quem me fez assim? Pecados! De que manei-ra poderei
evit-los?"
Assim ia pensando Nikita no que poderia lhe acontecer naquela
noite. Mas logo deixou de faz-lo para se entregar s
recordaes que brotavam espontaneamente. Repassou a chegada
de Marfa, as bebedeiras que tomara e a
promessa que fizera, a partida da aldeia com o amo, na vspera
, a casa to quentinha de Tarass, e as conversas a res
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peito da partilha. Desfiou lembranas do filho e do Baio, que
devia estar mais confortado sob a manta. Pensou tam-bm no
patro, que, cada vez que se mexia, fazia o tren se
embalanar. "O pobrezinho deve estar arrependidssimo de no
ter pernoitado em Grichkino. Para ele, que  rico, a morte ser 
cruel! Para os pobres  que ela no tem impor-tncia!" Mas,
paulatinamente, as recordaes foram se em-baralhando e ele
adormeceu.
Quando Vasslii fez o tren balanar mais para poder saltar
sobre o cavalo, Nikita acordou, sentindo que o apoio das
costas lhe fugia, e, muito contra a vontade, procurou mudar de
posio. Esticou com dificuldade as pernas, afas-tou camadas
de neve que as recobriarri e se p"s de p. No mesmo instante
sentiu que um frio terrvel lhe espetava o corpo. E, num
relance, compreendeu o que se passava. En-to, chamara o amo
apenas para lhe pedir a manta de que o Baio j  no iria
precisar, mas que para ele, Nikita, teria gran-de serventia.
Mas Vasslii Andritch se arrancara sem lhe dar resposta e
logo sumira na espessa poeira de neve que es-condia tudo.
Vendo-se sozinho, Nikita pensou rapidamente no que
devia fazer. Cansado, no se sentia em condies de procu125
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rar um abrigo. No podia mais se sentar no buraco onde
es-tivera at h  pouco, pois a neve j  o tapara. o tren no
o esquentava convenientemente, porque no tinha nada corri que
se cobrir, e o cafet e a pelia quase no o abrigavam. 
Sofria tanto o frio que tinha a impresso de que s vestia uma
camisa.
Teve medo.
* Meu pai do cu! - exclamou em voz baixa, e ime-diatamente
ficou tranqilo, certo de que no estava s, de que Algum o
ouvia e no o abandonaria.  soltou um fundo suspiro e, sem
tirar a serapilheira corri que resguardava a cabea, subiu
para o tren e se aco-modou no lugar onde o amo estivera.
Mas no conseguia se reacluecer. Um forte tremor sacu dia-lhe
o corpo. Depois, o tremor foi diminuindo e, pouco a pouco, ele
perdeu os sentidos. No poderia dizer se estava morrendo ou
adormecendo, mas se sentia indiferentemente preparado para uma
coisa ou para outra.
44~
valo
Enquanto isso, Vasslii Andritch, animando o ca
com os joelhos e com a rdea, tocava-o no rumo em que
julgava, sem mesmo saber por qu, encontrar a floresta e a
cabana do guarda-florestal. A neve tirava-lhe a viso e o
vento dificultava-lhe o avano; sem embargo, dobrado sobre o
pescoo do Baio e preocupado em prender as abas da
pelia entre as coxas e o selim gelado, que muito o
incomodava, forava a marcha do animal, que com grande
sacrificio obedecia ao desejo do condutor.
Durante uns cinco minutos assim andaram em linha
reta, segundo acreditava Vasslii Andritch, que nada via,
salvo a cabea do Baio e o vasto lenol branco que se
es-tendia por todos os lados, nem nada escutava, fora o silvo
do vento rente  gola da pelia.
Repentinamente, divisou uma coisa escura na sua frente. O seu
corao palpitou de alegria e ele dirigiu a montaria para
aquele ponto, cuidando distinguir ali as paredes das
casas da aldeia. A coisa escura, porm, no estava imvel
- mexia-se. No eram casas, mas altas artemsias nascidas
no fundo de uma vala e que se curvavam desesperadamente sob o
impacto da ventania. E, sem saber por qu, ao deparar com
aquelas plantas atormentadas pela tempestade
impiedosa ' Vasslii Andritch estremeceu de horror e impul
-,I
sionou a alimria para a frente, sem perceber que, quando
#
       


       
1~, chegara perto das artemsias, mudara de rumo e, assim,
avanara em outro sentido, pensando ainda que ia direito 
floresta e  cabana do guarda-florestal. O Baio tendia a se#
       


guir para a direita e por isso Vasslii Andritch obrigava-o a
tornar para a esquerda.
Novamente vislumbrou uma mancha escura  sua fren-te.
Rejubilou-se, seguro de que desta vez avistara a aldeia.  Mas
eram as mesmas artemsias castigadas pelo vendaval e que, sem
explicao, o haviam atemorizado. No s via as mesmas plantas
secas c ' orno tambm as manchas recentes das patas de um
cavalo, que o vento comeava a apagar.  Vasslii Andritch
conteve o Baio e se inclinou para obser-var com a m xima
ateno. Sim, por ali passara um cavalo e s podia ser o seu.
No teve dvidas de que andava em cr-culo e num espao muito
limitado. "Se eu continuar assim, no escapo da morte", disse
consigo mesmo. E, para vencer o terror, apressou o cavalo,
esforando-se por ver atraves da intensa bruma branca.
Parecia-lhe que no meio dela brilha-vam pontos luminosos, que
desapareciam logo que os fixa-va. Em certos momentos acreditou
ouvir latidos de ces e uivos de lobos, mas eram sons to
difceis e remotos, que no poderia garantir que eram reais ou
apenas uma iluso sua. Parou e ficou atento, procurando captar
o menor rudo.
Eis que um grito medonho e ensurdecedor como que
arrebentava-lhe os ouvidos e ele se viu tomado por um
convulsivo tremor. Abraou-se desesperadamente ao pesco-o do
cavalo, mas tambm o pescoo tremia e o pavoroso grito se
repetiu. E, durante alguns segundos, Vasslii An-dritch no
p"de coricatenar as idias e esclarecer o que su-cedera. Ora,
o que acontecera fora simplesmente que o Baio, para
encorajar-se ou para pedir socorro, pusera-se a relinchar com
quanta fora lhe restava.
* Que a morte lhe tape a boca, desgraado! - pra-guejou aos
berros. - Que susto me pregou!
Mas, mesmo aps ter compreendido a causa do medo-nho grito,
no conseguiu dominar a ansiedade que ele lhe provocara.
"Preciso refletir sensatamente.  preciso me acal-mar", dizia
interiormente. Mas no se controlava, e conti-nuava a apressar
o animal, sem perceber que tinha agora o vento pelas costas, e
no pela frente como antes.
Sentia muitssimo frio e o corpo todo dolorido, mormente no
lugar onde roava a sela, as mos e os ps tre~
128
O
miam, a respirao estava opressa. Via que fatalmente
morreria naquele deserto de neve, pois no encontrava
uma sada. E o cavalo entrou por um monto de neve
adentro, debateu-se e caiu de lado. Vasslii Andritch
agilmente pulou na neve e fez escorregar a sela quando se
firmou para o pulo. Vendo-se livre, o cavalo se levantou,
sacudiu-se, deu dois saltos e, relinchando, disparou arras#
       


tando pela neve a manta e a rdea: Vasslii Andritch viu-se
s e semi-enterrado na neve. Quis perseguir o animal, mas a
neve era to alta e os seus agasalhos pesavam tanto que no
foi alm de vinte tr"pegos passos e, esgotado e sem ar, parou.
"A floresta, as glebas, o armazm, a cons-truo com telhado
de zinco, o galpo, o herdeiro Que ser  de tudo? Que estar 
me acontecendo? No pode ser!", foi o que lhe veio  mente,
como vieram logo as artemsias martirizadas pela tormenta,
diante das quais passara duas vezes, e to grande pavor o
invadiu que se negou a acreditar que tudo fora verdade. "No
estarei sonhando?", perguntou-se, e, convencido de que sonhava
mesmo, quis acordar. Mas a neve que batia em sua cara, cobria
a sua roupa e gelava a sua mo direita, cuja luva se perdera,
era bem real. Como bem real era o branco deserto em que se
encontrava agora, to s como aquelas artemsias,  espera de
uma morte inevit vel, r pida e estpida.
* Me do cu! So Nicolau, meu padroeiro! - implo-rou
gritando.
E se lembrou do ofcio da vspera na igreja, da ima-gem do
santo de rosto enegrecido numa moldura dourada, das velas que
vendia para os fiis acenderem diante do cone e que o
sacristo lhe trazia depois, quase intactas, para ele esconder
e tornar a vender. E comeou a rezar quele mesmo milagroso
So Nicolau, prometendo-lhe mis-sas e velas para que o
salvasse. Depressa, porem, compre-endeu, sem a menor parcela
de dvida, que o cone, as ve-las, o padre, as missas, tudo
isso era muito importante e necessrio l na igreja, mas no
ali, quando no lhe pode-riam ser de nenhuma valia.
Revelava-se a ele claramente que as missas e velas no tinham
nenhuma relao com a sua desesperadora situao.
t
#
       


"No posso me deixar abater. Tenho de seguir as pega-das do
cavalo, antes que a neve as apague. S assim eu po-derei
encontr-lo. Mas devo agir com calma, para no per-der o rumo.
Do contrrio ficarei logo cansado e, ento, serei um homem
perdido", pensou. Embora tivesse resolvido an-dar calmamente,
desatou a correr como um alucinado, tro-peando a cada
momento. As marcas do Baio j  estavam pouco visveis,
especialmente nos lugares onde a neve era menos profunda.
"Vou morrer mesmo. Estou perdendo o rastro do cava-lo e assim
 impossvel encontr-lo!", disse de si para si. E, mal
acabara de falar, levantando os olhos, viu uma mancha negra.
Era o Baio e tambm o tren e os varais com o leno amarrado.
O Baio, com a retranca de lado, no estava no seu antigo
lugar, mas perto dos varais, e sacudia a cabea com a rdea
enrolada numa das pernas. E que Vasslii Andritch viera cair
no mesmo monte de neve em que tinha antes afundado com Nikita.
O Baio o trouxera at uns cin-qenta passos do tren e, ento,
o abandonara.
40~
I
Atingindo o tren, Vasslii Andritch agarrou-se a um
dos lados dele e, de p, ficou algum tempo recuperando o
f"lego e se acalmando. Nikita no estava mais no seu lugar,
mas Vasslii Andritch percebeu no tren uma coisa coberta
calculou que fosse ele. o alucinante medo havia
de neve e
se extinguido. S temia que voltasse aquele medo horroroso que
o empolgara quando vagara a cavalo e que ultrapassara todos os
limites ao se ver sozinho, cado no monte de
neve. Era preciso, a todo custo, impedir que o pavor renas~
cesse e agir, fazer qualquer coisa til era um meio de afast
lo. Em primeiro lugar, foi se colocar de costas para o vento
e desabotoar a pelia. Em seguida, com a respirao menos
aflita, descalou as botas e sacudiu a neve que nelas se
introduzira- tirou tambm a luva esquerda, pois a da mo
di-reita havia se perdido na neve. Desapertou o cinto e
aper-tou mais embaixo, como tinha o costume de fazer, quando
saa do armazm para examinar as carroas de trigo que os
camponeses vinharri vender-lhe.
Assim que se viu em melhores condies para agir, tratou de
desembaraar a perna do cavalo. Amarrou o Baio na
parte fronteira do tren, onde ele estivera antes, e quis
passar por tr s dele para recolocar a retranca, o selim e a
man~
ta, porem, naquele momento, viu uma coisa se mexendo no
#
       


tren; era a cabea de Nikita que emergia da espessa camada de
neve que a cobrira. Com extremo esforo, Nikita,
completamente enregelado, ergueu_se, sentou~se e comeou a
sacudir a mo diante do nariz, como se estivesse es#
       


pantando moscas, ao mesmo tempo que murmurava pala_ vras
ininteligveis. Vasslii Andritch adivinhou que ele o chamava
e, deixando cair a manta que ia estender sobre o Baio,
acercou-se do empregado:
* Que  que voc est  dizendo? Que  que est  sen-tindo?
* Estou mo mo morrendo - respondeu Nikita, com dificuldade
e a voz entrecortada. - O que me  deve   d ao meu filho
ou  minha  mulher  a mesma  coisa 
* Voc est  gelado?
* Sim sim  a morte  Perdoe-me em nome de 
Cristo - e Nikita soluava e continuava a agitar as mos como
se enxotasse moscas.
Durante alguns segundos, Vasslii Andritch ficou imvel e
calado. Depois, rapidamente, corn aquele ar deci-dido com que
despachava um fregus, depois de um bom negcio, recuou um
passo, arregaou as mangas da pelia e comeou, com ambas as
mos, a tirar a neve que cobria Nikita e o tren. Retirada a
neve, Vasslii Andritch desa-botoou a pelia, empurrou Nikita
para o fundo do tren e se deitou em citria dele,
agasalhando~o com a pelia e com seu prprio corpo. Tendo
enfiado as abas da pelia entre Nikita e os lados do veculo,
e prendendo a barra com os joelhos, ficou de bruos sobre o
criado, com a cabea apoiada na parte dianteira do tren. No
prestava ateno aos movimentos do cavalo, nem ao sibilar do
vento. Em-penhava-se inteiramente em ouvir a respirao de
Nikita, que permaneceu longo tempo imvel e afinal suspirou e
se mexeu ligeiramente.
* Mxj o bem! E voc a dizer que estava morrendo
Fique bem calmo e trate de se esquentar. Ns somos ossos duros
de roer
Mas, com grande espanto seu, Vasslii Andritch no p"de
continuar a falar, pois os olhos se encheram de lgri-mas e o
l bio inferior tremia. Parou de falar e fez um enor-me
esforo para conter o n que lhe apertava a garganta.
"Passei por um grande susto e estou muito enfraquecido",
pensou. Porm, a fraqueza que sentia no era desagrad vel,
at, pelo contrrio, fazia que experimentasse uma estranha
alegria, antes jamais provada. "Ns somos ossos duros de roer
dizia para si mesmo, abandonando-se a uma espcie de
enternecimento solene e todo especial. E ficou assim deitado
em silncio um largo tempo, enxugan-do os olhos na dobra da
pelia e apertando com mais for-a o joelho direito para
prender a aba que o vento amea-ava arrancar.
Mas o desejo de fazer que algum participasse da sua alegria
foi de tal sorte que no se conteve mais:
* Nikita!
* Vou indo bem. j  estou sentindo um pouco de calor
#
       


* respondeu Nikita, embaixo do amo.
* Sim, meu irmo, sim eu tambm estive com a morte nas minhas
costas. Voc quase morre de frio e eu tambm
Mas o queixo recomeou a tremer e novamente os olhos se
encheram de l grimas. "No faz mal. Tudo o que sei, tenho que
guardar comigo", pensou. E ficou calado muito tempo.
O calor que subia do corpo de Nikita, sob ele, e o que lhe
proporcionava a pelia, posta sobre as costas, aqueciam
bastante Vasslii Andritch; entretanto as mos, que
segura-vam as abas da pelia, e os pes, que o vento descobria
a todo instante, comeavam a ficar gelados. Sentia,
principal-mente, muito frio na mo direita, que estava sem
luva. Con-tudo, no pensava nem nas suas mos, nem nos seus
ps.  S pensava em reacluecer o homem que estava deitado por
baixo dele.
Algumas vezes dava uma olhada r pida n
o Baio e via que o lombo dele estava descoberto, pois o vento
jogara ao solo a manta e a retranca. A si mesmo dizia que era
urgente se levantar e cobrir o animal, mas no se decidia a
deixar Nikita nem por um minuto, como ainda no queria quebrar
a singular alegria que embalava a sua alma. j  no sentia o
menor medo.
'J  passou o perigo. Ele est  salvo!", exclamou consigo
mesmo, pensando na maneira pela qual recuperava Nikita com o
mesmo entusiasmo com que, outrora, gabava as suas compras e
vendas.
A ~
133
#
       


Assim se escoaram trs horas. Vasslii Andritch no nota-va
mais a marcha do tempo. No princpio revia mental-mefite a
borrasca, os varais empinados, o cavalo com os ar-reios;. E
pensava, tambm, em Nikita ali, embaixo dele.  Lo90 vieram se
juntar as recordaes mais antigas: a festa da aldeia, a
mulher, o oficial de polcia, a gaveta da arca onje guardava
as velas e sob a qual viu, de repente, Nikita deita,do.
Seguiram-se os camponeses comprando e venden-do, paredes
brancas, casas cobertas de zinco, e sob as quais torlava a
encontrar Nikita. Por fim, tudo se embaralhou.  Uffia imagem
absorveu a outra e, da mesma forma que as core,s do arco-ris
se misturam para dar o branco, tambm toda!s as suas
impresses, confundindo-se, desapareceram.  E elo adormeceu.
Muito tempo dormiu sem sonhar. Mas, pela madruga-da, teve um
sonho. Viu-se na igreja, de p, junto  arca em quc guardava
as velas. A mulher de Tikhon comprava-lhe uni~I vela de cinco
copeques para acend-la diante do c(pc, cuja festa se
comemorava. Ele quer pegar a vela para entcg-la 
compradora, mas as mos, que enfiara nos bol-sos~ no lhe
obedecem. Quer contornar a arca, mas os ps no saem do lugar
e os sapatos parecem estar colados no chjo. Subitamente a arca
deixa de ser arca para ser uma cao e ele se v deitado de
borco na cama, mas em sua ca0. Tenta se levantar, porm, no
consegue. Todavia,  preniente que se levante, porquanto o
oficial de polcia, Ivati Matvitch, vir  busc-lo para irem
juntos efetivar a co~ipra da floresta. Ou ser  para ajud-lo a
recolocar a retrnca #o Baio? E Vasslii Andritch pergunta 
esposa:
,,Conio , Nikol ievna, ele ainda no chegou?" - "No, ainda
lo veio", responde ela. A ouve algum se aproximando da
escada.  ele, certamente. Mas no era! Quem passou
no parou. "Como , Nikol ievna, ento ele ainda no chegou
mesmo~" - "No." E assim ficou na cama, sem poder
se levantar, sempre esperando, e a espera  um misto de temof
e alegria. De repente, a alegria  que domina: est  chegafIdo
quem ele esperava. Mas no  Ivan Matvitch, o oficial de
polcia. Trata-se de outra pessoa e, no entanto, 
exgamente quern ele desejava que chegasse. Ei-la que se
134
aproxima e o chama. E aquela pessoa que o est  chamando 
justamente aquela que lhe ordenara que deitasse sobre o corpo
gelado de Nikita para reaquec-lo. 'J  vou!", grita com
imensa alegria, e acorda com o prprio grito.
Acorda, sim, mas inteiramente diferente do Vasslii
Andritch que adormecera. Quer se levantar, mas se sente
incapaz. Quer mexer as mos e no pode, Quer mexer os
ps, tambm no pode. Quer mover a cabea e  a mesma
imobilidade. A coisa o espanta, mas no o entristece. Com#
       


preende que  a morte e no se sente desolado. Lembra-se de
Nikita, que est  debaixo dele, aquecido e vivo! Parece-lhe
que ele, Vasslii Andritch,  Nikita e que Nikita  ele, e
que a sua propria vida no est  mais com ele e sim com
Nikita. Atentamente escuta e ouve o respirar e o leve ressonar
de Nikita. "Nikita est  vivo, portanto eu tambm estou vivo",
exclama de si para si, triunfalmente.
E lembra-se do seu dinheiro, do seu armazm, da sua casa, das
vendas e compras e dos milhes de Mironov.  in-compreensvel
como aquele homem que se chamava Vasslii Brekhunov dava tanta
importncia a tais bagatelas.  " porque ele no sabia o que 
verdadeiramente de valor", dizia, pensando em Vasslii
Brekhunov. "No sabia o que eu hoje sei. No  possvel me
enganar mais. Agora eu sei!" E ouve de novo o chamado daquela
pessoa que j  o chamara uma vez. 'j  vou! j  vou!",
responde, o corao transbor-dando de uma doce alegria.
E, depois disso, Vasslii Andritch no viu, no ouviu, nem
sentiu mais nada neste mundo.
A tempestade no cessava. A neve em constantes imensos
turbilhes ia cobrindo o corpo de Vasslii Andritch, o Baio
gelado e tremente, o tren j  meio sepultado. E no fundo do
veculo, sob seu amo morto de frio, Nikita dormia, tpido,
sereno.
44~
#
       


Ao amanhecer, Nikita despertou tomado Por uma es~ tranha
sensao de frio. Sonhara que ia levando para o moi-nho uma
carroa carregada de trigo e, no encontrando a ponte, ao
atravessar o riacho, atolara-se na lama. Mete-se debaixo da
carroa e se esfora por levant-la com o em-prego das costas.
Mas, coisa curiosa, a carroa no se move!  Parecia grudada s
suas costas e ele no podia suspend-la nem tampouco sair
dali. Ela comprime-lhe os rins. Meu Deus! Como est  fria! 
preciso que saia dali de qualquer jeito! "No agento mais!
Tire os sacos!", diz a algum que, supe, est  assistindo 
cena. Mas a carroa parece cada vez mais fria e esmagando-o. E
eis que  atingido por duas pan-cadas - desperta de todo e se
lembra de tudo. A carroa gelada  o amo morto, deitado em
cima dele, e as pancadas que sentiu eram o Baio, que por duas
vezes batera com o casco no tren.
* Andritch! - chama, temeroso, com O pressenti-mento da
verdade e arqueando as costas.
O amo no responde. A barriga e as pernas dele esto duras e
pesadas como se fossem de chumbo.
"Com certeza morreu! Que Deus o receba em Seu rei~
no!", pensa Nikita. Vira a cabea, faz um buraco na neve
com a mo e abre os olhos. Est  bastante claro. O vento
continua a balanar os varais e a neve tomba sempre, no
mais fustigando os lados do tren, mas sepultando, silencio~
samente, o veculo e o cavalo, que est  imvel, a respirao,
parada. "Ele tambm deve ter morrido", raciocina. E,
136
na verdade, fora fazendo um ltimo esfor-o para se mant de pe
que o Baio, inteiramente gelado, b;ltera com as pat no tren e
acordara Nikita.
"Senhor! Pai celeste! Tambm sou chamado  Sua pr sena! Que
seja feita a Sua divina vontade! Tenho med mas que posso
fazer? S se morre uma ve~t. Tomara que n demore muito", e
Nikita recolhe as mos, cerra os olhos dorme, certo de que
chegara a sua vez.
Foi s no dia seguinte,  hora do jantar, que uns carr poneses
desenterraram Vasslii Andritch e Nikita, que e,, tavam a
cinqenta metros da estrada e a meio quil"metr da aldeia.
A neve cobrira inteiramente o tren, mas os varais co o
drapejante leno ainda estavam  vista. (~) Baio, com nev at
a barriga, a manta e a retranca descadas para um lado
mantinha-se de p, todo branco, a cabea pendida, as ven tas
entupidas de neve, assim como os olhos, que parecian verter l
grimas geladas. Emagrecera tanto no decorrer da quela noite
que no era mais do que pele e ossos.
o corpo de Vasslii Andritch estava to hirto quank
um pedao de carne congelada. Ao erguerem o cad ver, fi
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cou ele com as pernas abertas tal como se deitara sobre
Nikita. os olhos de gavio, redondos e saltados, gelados es
tavam, e a neve entupira a boca, sob o bigode aparado.
Quanto a Nikita, ainda vivia, no obstante tivesse corpo
parcialmente gela(#&. Quando o acordaram, julgou que estivesse
morto e que tudo o que acontecia  sua volta j  fosse no
outro mundo. Ao ouvir a voz dos camponeses que livravam o
tren e suspendiam o corpo de Vasslii Andritch, ficou muito
admirado, no prinneiro momento, por ver que havia gente no
outro mundo e que discutia da mesma forma que neste; porm, ao
perceber que ainda se encontrava na Terra, sentiu-se mais
aborrecido do que contente e mais ainda ao notar que tinha os
dedos dos ps enregelados.
Dois meses passou ele no hospital. Amputaram-lhe
trs dedos; outros ficaram bons - e p"de voltar a trabalhar
Vinte anos viveu ainda, primeiramente como criado de um
herdade e mais tarde, ao chegar a velhice, como guarda-no1 '57
#
       


turno. S veio a morrer este ano rodeado dos seus, na sua
prpria casa, tal como sempre ambicionara, sob a proteo dos
cones e com uma vela entre as mos. Antes de expirar, pediu
perdo  mulher, despediu-se do filho e dos netos e se foi
absolutamente feliz porque livrara o filho e a nora de uma
boca intil e, principalmente, porque trocava, afinal, esta
vida, da qual j  se sentia saturado, por outra que,  medi-da
que os anos passavam, lhe parecia mais atraente e longa.
Estar  melhor ou pior no mundo em que foi acordar depois da
sua morte? Ter  se decepcionado ou encontrou l precisamente
aquilo que desejava?
Um dia todos ns o saberemos.
LIEv TOLSTi E SUA OBRA
Membro de uma das aristocr ticas famlias da Rssia, o conde
Liev Nikol ievitcb Tolst teve uma vida aventurosa e at
desregrada no princpio e, depois, verda-deramente apostolar,
embebida da leitura dos Evangelbos e devotada de maneira
exemplar a obras de educao e de assistncia da gente pobre.
Tendo nascido em I snaia Poliana, em 1828 - sua casa foi
transformada em museu -, faleceu em 1910, numa obscura
estaozinha de estrada de ferro, quando, aps renunciar a
todos os seus bens e retirar-se para um convento, fugia 
procura W um lugar onde pudesse viver como simples campons.
ToIsti , por todos os ttulos, a mais alta figura das
le-tras russas, e est  entre os gigantes da literatura
universal.
Todos os seus romances, densos de ao e de idias, vazados
num estilo que soma a riqueza verbal  simplici-dade e ao
encanto dasformas populares, que estudara em contato direto,
constituem autnticas obras---primas, mas b que se destacar,
entre elas, o monumental painel Guerra e paz, mistura de
epopia, bistria efico, no qual descreve a sociedade
czarista, ao tempo da invaso napole"nica, que terminou
em,famosa e melanclica derrocada.
Neste volume esto reunidas duas das suas mais clebres
novelas: A morte de Ivan Ilitch e Senhores e sen,os, que
tm como terna a inorte - o obstinado terna do reomancista
- e a alegria que ela pode surpreendentemente trazer aos
139
#
       


1:
i
que se despedem deste mundo, pela compreenso dos so/rimentos
dos vi vos e pela piedade que devem merecer
Se na segunda novela, apanbados por uma tempesta-de de neve, o
explorador e ambicioso senbor acaba por sal-var, com o calor
do pr6prio corpo, a vida do seu bumilde e bondoso servo, na
Primeira, seguramente uma das mais dram ticas e profundas que
se escreveram sobre o inesgo-t vel assunto,  com itnpassvel
neutralidade que o escritor narra a indiferena quase bostil
que os vivos sentem Pelos moribundos, e nela, ainda, avulta
afigura de um jovem e servial mujique, a nica pessoa que, no
meio da bipocri-sia reinante, compreende a aflio e a solido
do seu se-nbor, irremediavelmente enfermo.
Mas, em ambas as novelas, o amor que b soterrado no fundo de
todas as criaturas surge invencvelmente para redimir uma vida
intil e vazia, pos, acima de tudo, ToIst  um moralista e,
louvado.
como tal, deve ser entendido e
It
#
       


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F70tolitos da capa
GraP"box-Caran, So pat,10-Sp
l"'Press5o
GrAfica Circtilo, %,jo palljo
* SP
    
